Eleições 2022

Quem é Lula?

Lula: a trajetória sindical e política do candidato que busca derrotar Bolsonaro

Das negociações com patrões aos corredores do Planalto, perfil mostra quem é Luiz Inácio Lula da Silva

Lula 2022 candidato à presidência nas eleições 2022
O ex-presidente Lula / Crédito: Flickr/@institutolula

Líder sindical no ABC paulista e fundador do Partido dos Trabalhadores, Luiz Inácio Lula da Silva chegou à Presidência da República em 2002 com a maior votação percentual da história do Brasil, recorde que se manteve desde então. Antes, foi derrotado em três campanhas presidenciais e atuou como líder do PT na Assembleia Constituinte que elaborou a Constituição Federal de 1988. 

O governo de Lula ficou marcado pelo Mensalão, esquema de compra de apoio no Congresso Nacional do qual ele disse não ter conhecimento. Nos últimos anos, o petista respondeu a acusações de corrupção ligadas à Operação Lava Jato e ficou 580 dias preso por decisão do ex-juiz Sergio Moro, que, tempos depois, foi considerado suspeito para julgar o ex-presidente pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Lula não responde atualmente a nenhuma ação na Justiça e é pré-candidato à Presidência nas Eleições de 2022.

A trajetória de Lula da Silva

Leia abaixo, em ordem cronológica, a trajetória de Lula do ABC Paulista ao Palácio do Planalto, para onde, aos 76 anos, busca voltar, na sexta campanha presidencial de sua vida.

Carreira sindical e vida pessoal de Lula

Luiz Inácio da Silva, que décadas depois incorporaria o apelido de Lula oficialmente ao nome civil, emergiu na cena política nacional ao liderar o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema e por ser um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT). Em abril de 1980, meses após a aprovação da Lei da Anistia (1979) — ainda sob a ditadura militar —, cerca de 140 mil trabalhadores da região do ABC Paulista participaram de uma greve organizada pelos sindicatos locais, inclusive o presidido por Lula.

No terceiro dia de greve, o governo federal, sob o comando do general João Figueiredo, afastou os dirigentes dos sindicatos e Lula foi preso em sua casa, em São Bernardo do Campo (SP). A informação foi imediatamente repassada à imprensa pelo bispo católico Dom Paulo Evaristo Arns, que apoiava movimentos de combate à ditadura. Lula passou 31 dias, seis dos quais em greve de fome, na carceragem do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), enquadrado na Lei de Segurança Nacional.

Nascido em 1945 no município de Caetés (PE), à época um distrito de Garanhuns (PE), Lula emigrou aos sete anos com seis irmãos e a mãe, chamada Eurides e conhecida como Dona Lindu, em direção a Santos (SP). A família mudou-se em seguida para o município de Guarujá (SP), onde Aristides Inácio da Silva, pai de Lula e das outras crianças, havia estabelecido uma nova família.

Em 1955, Lindu se separou definitivamente do marido e foi com os sete filhos para a capital paulista, dividindo uma casa no bairro do Ipiranga com outras famílias. Foi em São Paulo que Lula arranjou o primeiro emprego, em 1960, aos 15 anos, como office boy em uma empresa de armazenamento e logística chamada Colúmbia. Em seguida foi trabalhar como aprendiz de torneiro mecânico na Parafusos Marte. A partir de um convênio da empresa com o Senai (Serviço Nacional de Aprendizado Industrial), Lula foi aprovado no curso profissionalizante com duração de três anos.

“Acho que foi a primeira vez que eu alcancei a cidadania, porque, fora do Senai, a vida era muito dura e no Senai a gente tinha o aventalzinho da gente, a gente tinha comida na hora certa, de boa qualidade, tinha café, tinha futebol de salão, tinha basquete”, recordaria Lula décadas depois, em entrevista ao jornalista Fernando Morais, autor de “Lula — Biografia, Volume 1” (Cia. das Letras), publicada em 2021. O livro foi a principal fonte das informações biográficas citadas até aqui, todas referenciadas em fontes primárias.

Durante os anos 1970, como dirigente sindical, Lula se notabilizou por dar declarações de ojeriza a políticos e à política em geral. “Detesto política e quem gosta de política”, disse ele certa vez. Essa posição começou a mudar em 1978, quando Lula fez campanha no ABC Paulista pelo então professor universitário Fernando Henrique Cardoso, do MDB, que concorria ao Senado Federal. FHC acabou eleito suplente de Franco Montoro e assumiu o cargo em 1983, quando Montoro foi eleito governador paulista.

Com a relevância no cenário nacional e já nas tratativas para fundar o Partido dos Trabalhadores, Lula passou a ser procurado com frequência pela imprensa para opinar sobre assuntos políticos. “O fato é que Luís Inácio da Silva, o Lula, tornou-se mais conhecido no país e no exterior do que muitos políticos ou artistas brasileiros — fama ainda mais inusitada por se tratar de um líder sindical e não de um jogador de futebol”, escreveu a Playboy, em julho de 1979.

Em uma de suas primeiras entrevistas longas, realizada durante três encontros com o jornalista Josué Machado e que renderia 13 páginas naquela edição da revista, o sindicalista comentou sobre figuras históricas que o inspiraram e elogiou “a disposição” do ditador nazista Adolf Hitler — trecho que frequentemente é resgatado por adversários políticos —, do ditador cubano Fidel Castro e do aiatolá Khomeini, líder da Revolução Islâmica no Irã. Leia abaixo a resposta completa, transcrita da fonte original:

 

PLAYBOY — Há alguma figura de renome que tenha inspirado você? Alguém de agora ou do passado?

LULA — [pensa um pouco] — Há algumas figuras que eu admiro muito, sem contar o nosso Tiradentes e outros que fizeram muito pela independência do Brasil e pela melhoria das condições do povo brasileiro. Um cara que me emociona muito é o Ghandi. O que ele fez pela Índia atrasada e escravizada só pode ser admirado. O livro que eu li sobre o Ghandi, “Esta Noite, a Liberdade”, me emocionou muito. Ele tinha uma boa vida e não precisava se meter em brigas, mas abandonou tudo para se dedicar a uma causa. Outro que eu admiro muito é o Che Guevara, que se dedicou inteiramente à sua causa. Essa dedicação é o que me faz admirar um homem.

PLAYBOY — Ação e a ideologia?

LULA — Não está em jogo a ideologia, o que ele pensava, mas a atitude, a dedicação. Se todo mundo desse um pouco de si como eles, as coisas não andariam como andam hoje no mundo. Na verdade o mundo é constituído hoje muito mais de covardes do que de pessoas que pensam no próximo, que querem fazer alguma coisa pelo bem-estar coletivo.

PLAYBOY — Alguém mais que você admira?

LULA — [pausa, olhando as paredes] — O Mao Tse-Tung também lutou por aquilo que achava certo, lutou para transformar alguma coisa…

PLAYBOY — Diga mais…

LULA — Por exemplo, o Hitler, mesmo errado, tinha aquilo que eu admiro num homem, o fogo de se propor a fazer alguma coisa e tentar fazer…

PLAYBOY — Quer dizer que você admira o Adolfo?

LULA — [enfático] — Não, não. O que eu admiro é a disposição, a força, a dedicação. É diferente de admirar as ideias dele, a ideologia dele.

PLAYBOY — E entre os vivos?

LULA — O Fidel Castro, que também se dedicou a uma causa e lutou contra tudo.

PLAYBOY — Mais.

LULA — Khomeini. Eu não conheço muito a coisa sobre o Irã, mas a força que o Khomeini mostrou, a determinação de acabar com aquele regime do Xá foi um negócio sério.


A partir de 1979, Lula organizou e participou de reuniões que reuniram operários, políticos, intelectuais e ativistas de esquerda interessados em criar um novo partido político, no contexto da Lei da Anistia e do recrudescimento da ditadura. O encontro no Colégio Sion, no bairro paulista de Higienópolis, em 1980, em que Lula aparece em uma foto com Sérgio Buarque de Hollanda e outros personagens da academia, entrou para a história como um dos mais importantes para a criação do PT. O Tribunal Superior Eleitoral chancelou a fundação do partido em fevereiro de 1982.

Naquele ano, Luiz Inácio da Silva mudou oficialmente seu nome para Luiz Inácio Lula da Silva e concorreu ao governo de São Paulo. O petista sofreu sua primeira derrota, terminando na quarta colocação com 10,77% dos votos válidos, atrás de Franco Montoro — que foi eleito —, Reynaldo de Barros e Jânio Quadros. Em 1984, Lula participou da campanha das Diretas-Já!, pela aprovação da Emenda Dante de Oliveira, que acabou derrotada.

Carreira política de Lula

Na segunda eleição que disputou, em 1986, Lula foi eleito deputado federal constituinte por São Paulo — para participar da elaboração da Constituição Federal de 1988 —, com a maior votação da história até aquele momento. Desde então, três deputados quebraram o recorde: Enéas Carneiro, Tiririca e Eduardo Bolsonaro, o filho do presidente Jair Bolsonaro é o atual recordista ao receber 1,8 milhão de votos em 2018. Como líder da bancada petista durante a constituinte, Lula votou a favor:

  • do direito à greve;
  • do aviso prévio proporcional;
  • da reforma agrária;
  • da estabilidade do dirigente sindical;
  • do turno de seis horas de trabalho;
  • e do salário mínimo real.

Em 1989, Lula disputou a primeira das cinco eleições presidenciais a que concorreu até agora. No primeiro turno, ficou na segunda colocação, à frente do pedetista Leonel Brizola, por uma diferença de menos de 500 mil votos, o que representou 17,18% dos votos válidos para Lula contra 16,51% para Brizola. O candidato Fernando Collor de Mello passou para o segundo turno como o mais votado, com 30,47% dos sufrágios.

Lula e Collor se enfrentaram em dois debates televisivos no segundo turno, promovidos e transmitidos simultaneamente, ao vivo, por quatro emissoras. No entanto, um compacto apresentado no dia seguinte no Jornal Nacional, da Globo, concedeu 1 minuto e meio a mais de cobertura a Collor, com uma edição que o PT questionou na Justiça Eleitoral. Décadas depois, a emissora admitiu ter cometido erros naquela ocasião e hoje há uma página da Globo com todos os vídeos e explicações sobre o caso: “A transparência foi adotada a fim de evitar que novos erros sejam cometidos e também não permitir que informações possam ser mal interpretadas pelo público.”

Collor saiu vitorioso, com 35 milhões de votos (53,03%) contra 31 milhões (46,97%) a Lula. Derrotado, o petista voltou à Câmara dos Deputados, onde permaneceria até 1991. O governo do “caçador de marajás” — como Collor foi apelidado em chamada de capa na revista Veja — acabou envolto em denúncias de corrupção, ao confisco das poupanças de cidadãos brasileiros e ao primeiro impeachment da História, apesar de formalmente Collor ter renunciado à Presidência da República. Este período é documentado no livro “Notícias do Planalto” (Cia. das Letras), de Mario Sergio Conti, jornalista que dirigiu a Veja entre 1991 e 1997. O vice de Collor, Itamar Franco, assumiu o cargo em dezembro de 1992.

Com o sucesso do Plano Real, que estabilizou a inflação do país após décadas de tentativas fracassadas — e ao qual o PT havia sido contrário —, o ministro da Fazenda de Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, que havia deixado o MDB para fundar o PSDB, cacifou-se como favorito para vencer a disputa eleitoral pela Presidência da República em 1994. FHC saiu vencedor no primeiro turno, com 54,24% dos votos válidos. Lula foi o mais votado no Rio Grande do Sul e no Distrito Federal, somando 27,07% do total dos votos. O terceiro colocado foi Enéas Carneiro.

Em janeiro de 1997, o Congresso Nacional aprovou uma proposta de emenda constitucional que autorizou a possibilidade de reeleição a ocupantes de cargos dos Executivos municipal, estadual e federal — o que beneficiou FHC. Em maio, o jornal Folha de S.Paulo publicou uma reportagem revelando áudios em que o deputado Ronivon Santiago admitia ter recebido R$ 200 mil para votar pela aprovação da PEC. Ele dizia que outros parlamentares também haviam sido subornados. O caso não foi objeto de denúncia pelo então procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro. Em 1998, Fernando Henrique Cardoso se tornou o primeiro presidente da República reeleito democraticamente, em primeiro turno, com 53,06% dos votos. Lula ficou em segundo, com 31,71%, e Ciro Gomes — ex-ministro do governo tucano — em terceiro, com 10,97%.

O governo Lula

Em 2002, Lula adotou como estratégia eleitoral, aconselhado pelo publicitário baiano Duda Mendonça (1944–2021), a construção da imagem de um político moderado, uma mudança fundamental em relação às outras campanhas presidenciais que havia feito até então.

Entre outras decisões, fazem parte dessa construção a escolha do candidato a vice — o empresário José Alencar Gomes da Silva (1931–2011), fundador da gigante têxtil Coteminas, filiado ao Partido Liberal —, a publicação da Carta ao Povo Brasileiro e a escolha de Antonio Palocci, que mantinha boa interlocução com o meio empresarial, para o cargo de ministro da Fazenda. Duda Mendonça condensou essa nova imagem do petista no apelido “Lulinha Paz e Amor”.

O petista recebeu 46,44% dos votos no primeiro turno, com José Serra em segundo (23,19%), Anthony Garotinho em terceiro (17,86%) e Ciro Gomes em quarto (11,97%). Serra havia sido ministro da Saúde de FHC e foi escolhido como candidato tucano apesar de o então presidente ter declarado que o governador do Ceará, Tasso Jereissati, seria “um melhor candidato”. No segundo turno, Garotinho e Ciro anunciaram apoio ao PT, e Lula venceu com 61,27% dos votos, a maior votação percentual que um candidato à presidência recebeu na História.

Em seu primeiro mandato, Lula não teve apoio de boa parte dos partidos considerados de centro, inclusive o maior e mais relevante, o PMDB. A bancada da sigla na Câmara votava a favor do governo, mas não a do Senado Federal. Em junho de 2005, o então deputado Roberto Jefferson, ex-aliado de Lula que se tornara opositor, declarou em entrevista à jornalista Renata Lo Prete, da Folha de S.Paulo, que o governo pagava mesadas de R$ 30 mil a deputados da base aliada para que votassem de acordo com os interesses do governo. “Esse dinheiro chega a Brasília, pelo que sei, em malas”, disse Jefferson. “Eu digo: sou contra.”

O caso que ficou conhecido como Mensalão é o principal escândalo de corrupção do governo Lula e se tornou a Ação Penal 470, que seria julgada pelo STF a partir de 2012, reunindo mais de 50 mil páginas. Lula não foi réu no Mensalão e declarou que não sabia de nada.

Em 2006, Lula ampliou sua coalisão e concorreu à reeleição com o apoio do PMDB do Senado, ao lado de senadores como Renan Calheiros, Eunício Oliveira, Valdir Raupp e de deputados do partido como Michel Temer — que foi presidente da Câmara em três mandatos —, Henrique Eduardo Alves e Eduardo Cunha.

O principal candidato de oposição foi o então governador paulista, Geraldo Alckmin, então no PSDB, que deve ser o candidato a vice de Lula nas eleições de 2022. Na ocasião, o então tucano acusou Lula de ser “chefe de quadrilha”, em referência ao Mensalão. “Que tempos são esses em que um procurador-geral da República denuncia uma quadrilha de 40 criminosos que tem na lista ministros, auxiliares e amigos do presidente?”, questionou durante um comício em Minas Gerais. Após Lula se recusar a participar de debates, Alckmin o chamou de “fujão” e “covarde”.

Apesar das denúncias contra o PT, Lula foi reeleito no segundo turno com 60,83% dos votos válidos, após ter chegado próximo de vencer no primeiro turno, quando recebeu 48,61%. Alckmin foi o primeiro candidato a presidente que recebeu mais votos no primeiro turno do que no segundo: 41,64% na primeira rodada e 39,17% na segunda. Em 2010, Lula trabalhou para eleger como sua sucessora a então ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff. O líder petista costurou uma aliança para que o PMDB indicasse o candidato a vice, e o escolhido pelo partido foi Michel Temer.

Investigações e prisão de Lula

Durante o governo Dilma Rousseff, o Supremo julgou o Mensalão e condenou dirigentes petistas e operadores financeiros que confessaram o esquema, como Marcos Valério. Durante o primeiro mandato da sucessora, Lula manteve sua influência no governo ao mesmo tempo em que dava palestras pagas por empresas como LG, Odebrecht e OAS.

Antonio Palocci, que havia sido alçado à Casa Civil de Rousseff, deixou o governo após reportagem do jornal Folha de S.Paulo mostrar indícios de enriquecimento ilícito durante o período em que ele atuou como consultor de empresas. Em abril de 2014, a 13ª Vara Federal de Curitiba, liderada pelo então juiz federal Sergio Moro, autorizou as primeiras fases da Operação Lava Jato, que prendeu dirigentes da Petrobras, políticos, operadores de lavagem de dinheiro e empresários.

Naquele ano, alas do PT defenderam que Lula concorresse à Presidência em vez de Dilma Rousseff, que buscaria a reeleição. Apesar dos apelos, Lula apoiou a candidatura da presidente, que enfrentou a campanha mais disputada desde a redemocratização, tendo recebido 41,59% dos votos válidos no primeiro turno. O então senador tucano Aécio Neves foi o principal concorrente, recebendo 33,55% dos votos na primeira rodada. A ex-senadora e ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva ficou na terceira colocação, com 21,32%.

O principal tema da campanha foi o combate à corrupção, estimulado pelas fases da Lava Jato. Na semana do primeiro turno, a revista Veja publicou na capa uma foto de Lula e Dilma, com a manchete: “Eles sabiam de tudo.” Dilma foi reeleita com 51,64% dos votos válidos no segundo turno, contra 48,36% para Aécio Neves, que chegou a liderar no início da apuração.

Em seu segundo mandato, Dilma Rousseff promoveu uma mudança fundamental na política econômica, ao indicar o economista Joaquim Levy para comandar o Ministério da Fazenda. Sob forte pressão política, inclusive de supostos aliados, e reeleita com uma margem estreita, a presidente procurava melhorar indicadores econômicos, e Levy tinha como principal objetivo fazer um ajuste fiscal.

O avanço das investigações da Lava Jato, com acordos de delação premiada e forte pressão de órgãos de imprensa, fez com que Dilma Rousseff não conseguisse recuperar o apoio no Congresso Nacional. A situação de Dilma piorou quando o então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, entrou em rota de colisão com a bancada petista por causa de um processo a que respondia na Comissão de Ética.

Cunha deu início ao impeachment de Dilma Rousseff em 2 de dezembro de 2015. Durante o processo, que afastou a presidente em maio de 2016 e se encerrou em agosto daquele ano, Rousseff quis indicar Lula para ocupar o cargo de ministro-chefe da Casa Civil, uma das últimas tentativas de impedir o prosseguimento do processo de impeachment e, ao mesmo tempo, de evitar que Lula fosse alvo de novas medidas das instâncias ordinárias, graças ao foro privilegiado de ministro. Dias antes da indicação, Lula havia sido conduzido coercitivamente para depor, depois de uma decisão do então juiz Sergio Moro. 

No mesmo dia em que Lula foi indicado, Moro divulgou a gravação de uma ligação entre o líder petista e a presidente da República. “Seguinte, eu tô mandando o ‘Messias’ junto com o papel… pra gente ter ele. E só usa em caso de necessidade, que é o termo de posse, tá?!”, disse Dilma a Lula. Messias era Jorge Rodrigo Araújo Messias, então subchefe de Assuntos Jurídicos da Casa Civil.

A gravação, no entanto, foi feita após o período autorizado pela Justiça. Em julgamento semanas depois o STF decidiria que Moro não tinha competência para divulgar o áudio, em decisão relatada pelo ministro Teori Zavascki.

Em julho de 2017, Moro condenou Lula a nove anos de prisão. O Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4) referendou a decisão em janeiro do ano seguinte e aumentou a pena para 12 anos de prisão. Em abril de 2018, na véspera do julgamento no STF de um habeas corpus preventivo de Lula, o então comandante do Exército Brasileiro, general Eduardo Villas-Bôas, escreveu no Twitter: “Asseguro à Nação que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais.” Militares que mais tarde comporiam o ministério de Bolsonaro discutiram a publicação da mensagem, conforme depoimento dado a pesquisadores da Fundação Getulio Vargas (FGV).

O habeas corpus foi negado e Lula foi preso no dia 7 de abril de 2018 para fins de execução provisória da pena, então considerada constitucional pelo STF. Na segunda semana de setembro, o PT anunciou oficialmente que o ex-prefeito paulistano Fernando Haddad substituiria Lula na urna. A partir daquele momento, os principais institutos passaram a apontar Bolsonaro como o favorito, com Haddad em segundo.

No primeiro turno, Bolsonaro recebeu 49,3 milhões de votos (46% dos votos válidos), terminando na liderança e indo para o segundo turno contra Haddad, que recebeu 31,3 milhões de votos (29%). No segundo turno, 57,8 milhões de eleitores — o equivalente a 55% dos votos válidos — escolheram Bolsonaro como o próximo presidente do Brasil.

Na cerimônia de passagem do cargo de ministro da Defesa, um dia após assumir a presidência da República, Bolsonaro elogiou o general Villas Bôas: “O que já conversamos morrerá entre nós. O senhor é um dos responsáveis por eu estar aqui.”

Sergio Moro deixou a carreira concursada no Judiciário para assumir o Ministério da Justiça e Segurança Pública por indicação de Bolsonaro. A escolha do ex-juiz para comandar a pasta à qual é subordinada a Polícia Federal gerou críticas de petistas que acusaram Moro de ter agido politicamente ao prender o ex-presidente Lula e tirá-lo da disputa eleitoral.

O nome de Moro foi confirmado no dia 1º de novembro, exatamente um mês depois de ele ter autorizado, em 1º de outubro, a retirada do sigilo da delação de Antonio Palocci, ex-ministro da Fazenda e da Casa Civil petista que acusou de corrupção Lula, a ex-presidente Dilma Rousseff e outros ex-correligionários.

“Ele [Moro] estava muito próximo desse movimento político, tanto é que na eleição, no segundo turno, ele faz aquele vazamento das confissões, das delações do Palocci. A quem interessava isso? Interessava ao adversário do PT”, afirmou o ministro do STF Gilmar Mendes, em maio de 2020, ao comentar o caso em retrospectiva, em entrevista à Rádio Gaúcha. “Depois ele aceita esse convite, que foi muito criticado, para ser ministro do governo Bolsonaro, cujo adversário ele tinha prendido. É toda uma situação muito delicada, se discute muito a correição ética desse gesto”, criticou Mendes.

Soltura, suspeição de Moro e volta de Lula à política

Lula deixou a Superintendência da Polícia Federal em Curitiba em 8 de novembro de 2019, após ficar 580 dias preso. “Eu saio daqui sem ódio. Aos 74 anos meu coração só tem espaço para amor porque é o amor que vai vencer neste país”, ele afirmou, em discurso ainda no local. O petista foi beneficiado por uma decisão do Supremo Tribunal Federal que concluiu que a prisão só pode ocorrer após o trânsito em julgado, e não após condenação em segunda instância, revertendo entendimento que o próprio tribunal havia adotado em 2016.

Em abril de 2021, Moro deixou o governo Bolsonaro e acusou o presidente da tentar interferir politicamente na Polícia Federal. A acusação virou um inquérito que até hoje está em andamento no Supremo Tribunal Federal. Naquele mês, o plenário do tribunal formou maioria para decidir que o juiz havia atuado de forma parcial nos processos envolvendo o ex-presidente Lula. O tema terminou de ser julgado em março, e a 2ª Turma do STF decidiu pela suspeição de Moro por 3 votos a 2. Até março de 2022, todos os processos envolvendo Lula foram extintos ou arquivados, seja por falta de provas ou devido a prazos de prescrição.

A pré-candidatura de Lula nas Eleições 2022

No dia 7 de maio, Lula lançou sua pré-candidatura a presidente da República nas eleições 2022. Ele foi o primeiro pré-candidato a divulgar oficialmente o nome do candidato à vice-presidente: o ex-governador de São Paulo e ex-opositor Geraldo Alckmin (PSB).

No evento, Alckmin afirmou que “nenhuma divergência do passado, nenhuma diferença do presente nem as disputas de ontem e nem as eventuais discordâncias futuras serão motivos para que ele deixe de apoiar e defender com toda a convicção a volta de Lula à presidência”.

A chapa de Lula e Alckmin conta também com o apoio de outros cinco partidos: PCdoB, PSOL, Rede, Solidariedade e PV.