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WEBINAR DO JOTA

Moro: ‘A intenção é permanecer no debate, contribuindo com ideias, propostas’

Ex-ministro diz que nunca pôde discutir ideias mais amplamente por causa dos cargos que ocupava

Sergio Moro: “A imagem do país não está muito positiva no exterior, mas há possibilidade de reverter com boa governança e liderança”. Credito: Marcelo Camargo/Agência Brasil

“A intenção é permanecer no debate, contribuindo com algumas ideias, algumas propostas. Acho que isso é relevante. Sempre tenho dito ‘quem tem voz, tem que falar”. O ex-ministro da Justiça e ex-juiz federal Sergio Moro, que foi responsável pela Lava Jato em primeira instância, encerrou a participação no webinar do JOTA com essa frase.

Ao longo de pouco mais de uma hora de conversa com o analista-chefe do JOTA em São Paulo, Fábio Zambeli, Moro falou sobre a saída do governo, política, pandemia, polarização, caso Queiroz, Lava Jato e modelo de administração pública.

Quem acompanhou o debate pôde ouvir do ex-ministro colocações que antes não eram postas por restrições dos cargos que ocupava. “Conversar com outras pessoas é algo normal, discutir as coisas mais amplamente”, afirma. “Eu nunca pude fazer isso, porque quando juiz praticamente não podia falar fora dos autos”, diz. “Dei algumas entrevistas e era sempre criticado por isso, mas achava que a dimensão do caso demandava algumas manifestações públicas pontuais, com muita cautela”.

No governo, se limitava a falar de assuntos relacionados ao Ministério da Justiça. “Depois, como ministro da Justiça, eu não vou falar sobre economia, sobre saúde, não vou falar sobre outras áreas porque seria coisa estranha”, justifica. “Agora, como cidadão comum, posso falar livremente. Então é isso o que tenho feito, conversado normalmente com muitas pessoas”.

Nesta semana, uma troca de manifestações pelo Twitter com João Amoedo, do Novo, levantou especulações sobre uma possível aproximação política entre os dois. “No caso do ex-presidente do Novo [João Amoêdo] ele fez uma postagem e eu basicamente agradeci pela postagem”, explica. Amoedo fez uma postagem criticando a postura de um grupo de advogados contrários ao registro de Moro na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

O ex-ministro foi questionado se tem um posicionamento no espectro ideológico. “Acho que esses rótulos são muito complicados hoje em dia, principalmente depois da queda do muro de Berlim” ponderou. “Falando com bastante liberdade, e isso é uma miscelânea às vezes, eu me localizo mais na centro-direita”.

Na sequência, veio a pergunta sobre uma possível candidatura à Presidência. “Essa é uma pergunta que me persegue desde a época da Lava Jato. É uma questão que não tem razão de ser no meio de uma pandemia com 75 mil vítimas”.

Ainda falando de política, fez críticas à polarização existente no país. “Estamos pagando um preço muito grande por essa excessiva polarização política em que as pessoas param de conversar, param de se respeitar, param de se tolerar”, diz. “Repetindo uma frase do vice-presidente Hamilton Mourão ‘é hora de colocar a bola no chão’, começar a conversar mais, ter respeito em relação às ideias alheias”, defende. “A partir disso, é a única forma de construirmos políticas públicas eficientes”, afirma. “Espero que a eleição de 2022 não seja tão polarizada, porque isso nubla os nossos sentidos e as nossas percepções do que é certo e o que é errado, e do que nós podemos construir juntos”.

Críticas ao governo

Sergio Moro entende que há falhas na condução do governo no combate à pandemia. “A parte do alívio econômico é relativamente positiva, na parte do auxílio das empresas se ouve muita reclamação, mas além disso há as questões de distanciamento social”, ressalta. “O governo federal, como coordenador, tem esse papel e não tem feito isso, ao contrário, tem prejudicado”, afirma. “Esperamos sempre que o governo seja bem sucedido, estamos dentro do mesmo barco, do mesmo país”.

“A imagem do país não está muito positiva no exterior, mas há possibilidade de reverter com boa governança e liderança”

O ex-juiz diz que não pretendia ter deixado o governo: “Foi um período mais curto do que eu imaginava, queria ficar os quatro anos por lá [no governo]”.

Ele pediu demissão no dia 24 de abril, em entrevista coletiva na qual fez uma série de denúncias quanto à possível interferência do presidente Jair Bolsonaro na direção da Polícia Federal do Rio de Janeiro. “Não era minha intenção prejudicar o governo, mas entendi que era o meu dever prestar aquelas informações”, diz. “Agora, as consequências disso têm que ser deslocadas às instituições envolvidas”.

E o Queiroz? “Dentro do governo esse era um caso de responsabilidade do Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro, a Polícia Federal não tinha competência sobre isso”, diz. “Então acompanhávamos pelo noticiário. É algo que nós jamais interferiríamos”.

Lava Jato

Responsável pela Lava Jato em primeira instância por quatro anos, Sergio Moro diz que a operação foi um marco. “A Lava Jato foi um divisor de águas no país com relação à condenação de atos de corrupção. Foi um ganho para o país, um ganho institucional”.

Ele conta que notou o reconhecimento no exterior em muitas oportunidades. “Viajei para vários países do mundo e sempre ouvi elogios à operação Lava Jato. É uma pena que esse trabalho possa ser atacado”.

Meritocracia

O ex-ministro entende que há a necessidade de mudanças estruturais no Estado. “O Estado tem que ser eficiente, e temos um problema de eficiência bastante severo”, diz. “Temos que promover mais a meritocracia dentro da administração pública”, afirma. “Você tem que ter incentivos aos agentes públicos, aos servidores, tem que ter uma carreira. Você tem que incentivar o bom trabalho. Premiar, por exemplo, o professor que se destaca, o policial que se destaca”, completa.

Em sua visão, o modelo vigente traz uma acomodação. “Você também tem que ter mecanismos para cobrar resultados daqueles servidores que se acomodam”, defende. “Muitas vezes aquelas regras que foram criadas para proteger o servidor da demissão arbitrária acabam protegendo pessoas que acabaram se acomodando excessivamente no serviço público”.