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Covid-19

A vez e a voz da tecnologia no combate à epidemia de coronavírus

A epidemia do coronavírus seria ainda mais complexa, dura e custosa caso tivesse acontecido há 10 anos

Crédito: Wikimedia Commons

Nas últimas semanas, o mundo tem assistido atônito enquanto o avanço do coronavírus transforma a realidade de todas as nações. No Brasil, o primeiro caso da doença foi identificado em 26 de fevereiro e, desde então, toda a sociedade tem se mobilizado para frear, conter, controlar e atrasar a disseminação da doença.

Embora análises indiquem que as medidas tenham sido tomadas em tempo hábil e estejam surtindo efeito, os números assustam: até a finalização deste texto, na manhã de 15 abril, as cifras em nosso país eram de mais de 25.262 mil contaminados e 1.532 mortes. Na últimas 24 horas, o Brasil registrou a maior confirmação de mortes por coronavírus em um dia desde que a pandemia começou. Foram 204 novos óbitos, um aumento de 15%.

Para alguns, o surgimento de uma ameaça global não parecia ser uma questão de se, mas de quando. Em 2015, Bill Gates alertava sobre o surgimento da próxima pandemia, e que ela poderia ser tão devastadora quanto a Gripe Espanhola, que vitimou milhões de pessoas em 1918. Ao fazer uma analogia com uma guerra mundial, Gates defendia a importância de que buscássemos nos preparar: investir em sistemas de análises de dados e vigilância epidemiológica, formar equipes de saúde e assegurar uma capacidade de resposta rápida para tratamentos e diagnósticos.

O fundador da Microsoft não é o único a reconhecer que o que vivemos hoje é, na verdade, uma crise já há muito anunciada. James Holland, professor da Universidade de Stanford no EUA, destaca que nós “fizemos muito para projetar um mundo onde as doenças infecciosas emergentes são mais prováveis de acontecerem de maneira consecutiva, exatamente como projetamos um mundo em que incêndios florestais, inundações, secas e outras conseqüências locais das mudanças climáticas são cada vez mais frequentes”.

Os prognósticos e alertas pouco adiantaram. Não tivemos uma resposta coordenada e efetiva, a nível global, para que a contaminação pelo covid-19 pudesse ser evitada. E resultado de toda a pandemia já é histórico e irreversível. Alguns especialistas têm afirmado que este é o evento mais grave pelo qual a humanidade passou desde a segunda guerra mundial. Faço parte do grupo que endossa essa análise: não me lembro de ter vivido algo que ameaçasse e também que mobilizasse a população de todo o planeta. Estamos, portanto, diante de um acontecimento ímpar e cujos efeitos – políticos, sociais e econômicos – serão ainda sentidos por muito tempo. Precisaremos aprender a viver em um mundo pós-pandemia – cenário que poucos conseguem, sequer, neste momento, começar a dimensionar.

Mas, o que fazer então diante da impossibilidade de “prever” o amanhã que ainda virá? Atuando há 20 anos com gestão pública, inovação e planejamento, proponho dois caminhos.

Primeiro, implementar planos de contingência que assegurem que os impactos perversos da pandemia sejam controlados e, sobretudo, minimizados. Sobre isso, temos visto medidas sendo tomadas nas áreas de saúde, economia e proteção social, mas é preciso ir além: que elas sejam reforçadas e focalizadas para atender, de maneira prioritária, aqueles que estão mais vulneráveis aos efeitos da pandemia.

E com o olhar de que toda crise também é uma oportunidade de mudança, entendo que devemos, sim, nos preparar para o futuro que, cedo ou tarde, virá. Para isso, precisamos identificar todos os aprendizados que a pandemia do coronavírus tem nos trazido – seja na dimensão coletiva, mas também individual.

Eles são muitos e diversos, mas talvez o principal deles seja que crise global evidenciou como a tecnologia é fundamental para apoiar a humanidade a enfrentar todos os seus mais profundos desafios. E ela seguirá sendo cada vez mais imprescindível, daqui para frente.

Soluções existentes, impactos que surpreendem

Durante as últimas semanas, acompanho como o uso de tecnologias tem se tornado fundamental para basicamente todas as nossas ações. Elas estão presentes nas tentativas de manter a normalidade da rotina, seja no trabalho remoto ou para a continuidade da educação das crianças e jovens; fazem parte também do trabalho das instituições públicas, como mostra a Câmara dos Deputados e o Supremo Tribunal Federal, que adotaram o pioneiro sistema de sessões remotas; e, principalmente, representam quase que a totalidade das ações estratégicas em curso para combater a epidemia – seja o desenvolvimento de tratamentos, o cuidado com as pessoas doentes ou a implementação de medidas de distanciamento social.

Tem sido especialmente interessante observar o trabalho das startups de diversos setores durante a crise. Muitas delas têm disponibilizado gratuitamente suas soluções, como mostra a iniciativa liderada pela Associação Brasileira de Startups. A Abstartups criou a campanha #StartupsVsCovid19, e já foram mapeadas mais de 60 empresas que desejam doar seus serviços nas mais diversas áreas: de trabalho remoto e colaborativo, passando por plataformas para compras em supermercado, até assessoria jurídica.

No universo das startups, merece especial destaque o trabalho desenvolvido pelas govtechs, empresas que desenvolvem soluções específicas para os desafios enfrentados pelo setor público. É importante registrar que sua atuação não surgiu como resposta para a pandemia. A agenda das govtechs já está presente no Brasil e no mundo há muitos anos, e motivou que eu criasse, há quatro anos, o BrazilLAB, primeiro hub de inovação brasileiro dedicado a conectar startups com o poder público.

Nesse momento desafiador que vivemos, ganham destaque as chamadas healthtechs, que atuam na área da saúde e podem representar um verdadeiro alento ao setor público em um cenário previsto de completa saturação das capacidades de atendimento dos equipamentos de saúde. Como a UpSaúde, que está oferecendo aos municípios suas soluções digitais para monitoramento, teleconsultoria e teleorientação para a população. Ou a Universaúde, que compartilhou sua ferramenta de chat online para tirar dúvidas sobre o coronavírus – e está disponível 24 horas por dia. E a Doctoralia que, implementada na cidade de Curitiba (PR), permitirá o atendimento diário de aproximadamente 700 pacientes via solução de telemedicina.

Na área das socialtechs, a startup Gesuas, vencedora do 3° Ciclo de Aceleração do BrazilLAB, produziu o primeiro prontuário eletrônico para a gestão da Política de Assistência Social. Nos últimos dias, ela disponibilizou gratuitamente o Gesuas Covid-19, uma ferramenta importante para garantir que municípios brasileiros continuem a executar os serviços de atendimento à população mais vulnerável. Com ele, os processos de concessão de benefícios poderão ser realizados mais rapidamente, as informações estarão sistematizadas em um só local e, ainda, os servidores públicos podem acessar tudo remotamente – uma alternativa para que possam também cumprir o regime de teletrabalho ou home office.

E a tendência é que as soluções tecnológicas para a área de assistência social ganhem ainda mais relevância, graças à concessão do auxílio emergencial para trabalhadores informais, aprovado a partir da Lei 13982/2020. Afinal, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) estima que 55% da população brasileira pode cumprir aos critérios de elegibilidade para o recebimento do benefício – cifra que corresponde a mais de 110 milhões de cidadãos. Será imprescindível assegurar soluções tecnológicas que possam garantir a identificação dos beneficiários, o pagamento do auxílio e o posterior acompanhamento do impacto da medida.

Outras soluções contribuem para desenhar a estratégia pública de combate à doença. Como mostra o Brasil sem Corona, movimento liderado pelas startups Colab e Epitrack, tendo como base a estratégia de vigilância epidemiológica colaborativa. Com o uso de um aplicativo, qualquer cidadão pode reportar informações sobre si, por exemplo, se está com sintomas do covid-19, ou se teve contato com alguma pessoa doente. Essas informações são sistematizadas e poderão informar os serviços de saúde sobre a doença, permitindo identificar qual a sua potencial extensão em uma determinada localidade.

Uma experiência semelhante foi desenvolvida pela In Loco, startup pernambucana que criou o “Índice de Isolamento Social”. Com base na tecnologia de georrefenciamento, é possível identificar quais estados estão cumprindo a determinação de quarentena – uma informação preciosa para orientar as ações de saúde, segurança e comunicação.  Não importa em qual direção estamos olhando: as soluções tecnológicas têm estado presentes, assegurando que as ações do governo possam ter efetividade, escala e rapidez – tudo o que mais precisamos neste momento de crise.

Tecnologia para os momentos de crise – e também para os de prosperidade

Não tenho dúvidas de que, coletivamente, conseguiremos superar a crise provocada pela epidemia de coronavírus. Os custos serão altos, sem dúvida, assim como os aprendizados alcançados a partir desta experiência global. Podemos esperar mudanças no mundo do trabalho, em nossa sociabilidade e também no fluxo internacional de pessoas. Há expectativa de que as ciências e suas contribuições sejam, finalmente e merecidamente, reconhecidas e valorizadas. E que tenhamos diferentes percepções sobre o papel do setor público na vida das pessoas, na dinâmica das organizações e no funcionamento da economia.

Como defensora e entusiasta da pauta de governo digital, não posso deixar de manifestar a minha expectativa de que este momento também possa ser uma janela de oportunidade para que as tecnologias sejam, cada vez mais valorizadas como elemento estratégico, sendo incorporadas à atuação dos governos, nas mais diversas áreas, para as mais distintas funções.

Afinal, não há como negar: a epidemia do coronavírus seria ainda mais complexa, dura e custosa caso tivesse acontecido há 10 anos. Que a história possa registrar a contribuição das tantas soluções hoje existentes – telemedicina, georreferenciamento, inteligência artificial, blockchain – reconhecendo o quanto esta revolução tecnológica tem sido profundamente transformadora para toda a humanidade.