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Coronavírus pode deixar sequelas como crise de 2008, diz presidente executivo da CNF

Para José Ricardo da Costa Aguiar Alves, dificuldades econômicas devem continuar no segundo semestre

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O CEO da CNF, José Ricardo da Costa Aguiar Alves. Crédito: Arquivo pessoal
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Em entrevista ao JOTA, o presidente executivo (CEO) da Confederação Nacional das Instituições Financeiras (CNF), José Ricardo da Costa Aguiar Alves, avaliou que a pandemia do coronavírus pode deixar sequelas tão graves na economia quanto a crise de 2008, originada nos Estados Unidos devido aos empréstimos imobiliários subprime.

“Não dá para dizer que não vai ser mais grave do que 2008. O quadro muda a cada dia”, afirmou.

O presidente executivo da CNF alerta que a crise não é pontual, e as dificuldades econômicas não devem se aliviar no segundo semestre. “Dificilmente será uma crise em V, com um fundo do poço e uma rápida recuperação. É mais provável uma crise em U”, disse. A “base” do U, segundo ele, será tão larga quanto durar a quarentena.

Com a determinação de isolamento social e fechamento de comércios, grande parte dos fluxos domésticos e internacionais de oferta e demanda ficam suspensos. Entretanto, despesas como salários, aluguéis, contas de luz e água não param, o que provoca uma crise de de liquidez na economia.

Para aliviar a pressão no caixa das empresas, os bancos adiam os prazos para quitar empréstimos, mantêm as taxas de juros nos níveis anteriores à crise apesar do provável aumento na inadimplência e realizam doações para compra de insumos indispensáveis para combater a pandemia.

Na avaliação do CEO da CNF, apesar de o Executivo enxergar o setor financeiro como parte da solução para a crise econômica, o Congresso pode atuar como um entrave. Os projetos mais problemáticos, na avaliação do setor financeiro, são a instituição de um empréstimo compulsório ou o aumento de carga tributária sobre os bancos, que levam a aumento no spread bancário.

Diplomata de carreira, José Ricardo da Costa Aguiar Alves atuou como cônsul do Brasil na África do Sul e no Japão e como membro do Conselho Econômico e Social da Organização das Nações Unidas (ONU). No Banco Mundial, foi conselheiro sênior da diretoria colegiada. É presidente executivo da CNF desde 2008.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Podemos esperar no segundo semestre um alívio da crise econômica decorrente do coronavírus?

Não há perspectiva de alívio, não é bem assim. A pandemia está paralisando fluxos de oferta e demanda, cadeias de produção e distribuição no mundo inteiro, e para recompor não vai ser rápido.

Não há uma destruição dos fluxos, o que ocorreria após uma guerra com bombardeios a portos ou ferrovias na China por exemplo. Não é isso, a infraestrutura está intocada. Mas há uma interrupção tão grande que vai levar um tempo para a oferta e a demanda se reconstituírem.

Então o segundo semestre não vai ser fácil. Não é uma crise pontual. Dificilmente será uma crise em V, com um fundo do poço e uma rápida recuperação. É mais provável uma crise em U, e a base do U será tão larga quanto for o tempo de quarentena, de empresas sem receita, de portas fechadas.

A crise do coronavírus vai ter efeitos econômicos mais leves que a crise de 2008?

Estamos falando de gravidade em quê? Os indicadores clássicos da macroeconomia são três: crescimento econômico, taxa de emprego e inflação. A inflação no mundo todo está baixa, especialmente no Brasil, então não é um problema. A preocupação é a taxa de crescimento da atividade econômica e o desemprego.

De novo, dependem do tempo em que as empresas estarão de portas fechadas. Até semana passada falava-se de um PIB de -1% no Brasil em 2020, e agora a estimativa foi ajustada para -5%.

E essa estimativa está valendo agora, mas houve casos de recontágio na China. Imagine que venha um novo grande surto chinês. Vai ser uma quarentena duplicada no mundo, e aí essa taxa de -5% pode virar -10%, ninguém sabe. Não dá para dizer que não vai ser mais grave do que 2008, o quadro muda a cada dia.

Como o setor financeiro atua para reduzir o impacto econômico da crise do coronavírus?

O setor financeiro atua no Brasil em três grandes frentes: uma frente que começa a se mover agora são as doações, porque dependem de assembleia de acionistas e não só de uma canetada de presidente de banco. Tivemos a doação do Itaú, de R$ 1 bilhão, e doações coletivas de bancos menores, corretoras, distribuidoras, empresas de leasing.

A segunda frente é dar liquidez à economia. Junto com o BC, os bancos examinaram dezenas de regulamentações, circulares, decretos e leis para encontrar onde estão barreiras para ofertar liquidez de maneira imediata que possam ser afrouxadas sem risco sistêmico, como prazos e relatórios impostos pelo BC que podem ser flexibilizados. Não é um trabalho fácil, simples e rápido, o trabalho está sendo feito com o BC diariamente. Quando saem medidas do BC não é porque um cara no Banco Central olhou para o teto e teve uma ideia, mas porque o setor vem propondo.

O BC é a autoridade monetária, a fonte de liquidez, mas quem distribui a liquidez é o setor, que está se movendo muito para que a máquina não pare de rodar. Se secar a liquidez secou a economia, é o lubrificante da engrenagem econômica.

A terceira frente é de prazos e juros. Os bancos vêm sendo criticados por não baixarem as taxas de juros, mas quando você dilata o prazo de pagamento e mantém a mesma taxa, ou quando mantém a mesma taxa para um risco muito maior, você está baixando juros.

O setor está aceitando receber juros velhos para um cenário novo. A recessão e a inadimplência depois da crise no mundo todo já são fatos, estão nas contas. As expectativas são de duas a três vezes o nosso patamar histórico de inadimplência, que é de 5%. Manter as taxas nesse cenário equivale a baixar juros. Porque aumentam o risco e o prazo apesar de segurar a taxa.

Isso vai se refletir no balanço dos bancos lá na frente, a rentabilidade de todo o setor vai cair.

Como a manutenção das taxas de juros vai refletir no balanço dos bancos?

É uma conta simples. Você tem R$ 1.000 para emprestar para 100 pessoas à taxa de 10% ao ano, e faz um orçamento para depois de um ano receber de volta R$ 1.100. Se só 95 pessoas te pagarem, para ter os mesmos R$ 1.100 você precisa aumentar a taxa de juros. Se só 90 só te pagam, você tem que aumentar ainda mais a taxa para receber os R$ 1.100.

Você faz um orçamento no início do ano para ter uma receita de R$ 1.100 com a qual vai pagar salários, aluguel, água, luz, telefone, impostos, com uma taxa de inadimplência de 5%. Mas se você entra em momento como esse em que 10% não vão pagar, 15% não vão pagar, a taxa tem que ser muito mais alta para ter a mesma receita. Se você se recusa a aumentar a taxa apesar do aumento da inadimplência seguramente você reduz o seu resultado lá na frente, o que equivale a baixar juros.

O setor financeiro está alinhado com as medidas promovidas pelo Executivo e pelo Legislativo?

Nesse momento não há problemas no Executivo. O BC tem uma visão claríssima e moderna do que tem que ser feito e está preparado para isso. Não temos problemas nos ministérios, sobretudo no Ministério da Economia, que sabe que o setor financeiro é parte da solução. Temos problemas agora no Congresso.

O Congresso vem na contramão do esforço do setor financeiro por meio de duas famílias de projetos: a imposição de empréstimo compulsório e aumento de tributos sobre instituições financeiras.

Os projetos para criação de um empréstimo compulsório atingem empresas em geral, com patrimônio líquido maior que R$ 1 bilhão, que pagariam 10% do lucro líquido dos 12 meses anteriores. O empréstimo seria feito por quatro anos e depois seria devolvido com ajuste pela taxa Selic.

O primeiro erro contábil grosseiro é achar que patrimônio líquido equivale a capacidade contributiva. Outro erro é achar que lucro líquido significa caixa, disponibilidade imediata, e não tem nada a ver. A empresa pode ter um grande lucro líquido mas já distribuiu como dividendos no ano passado, pagou obrigações trabalhistas. Agora tem que emprestar compulsoriamente em 30 dias? Ou seja, ter em caixa 10% do lucro líquido? Só que as empresas não têm esse caixa.

No momento de crise de liquidez em que o setor financeiro está trabalhando com o BC para aumentar a liquidez da economia, você propõe sequestrar a liquidez? Na verdade vai estar tributando o patrimônio, as empresas terão que vender ativos para fazer caixa e pagar o compulsório, que aumenta a necessidade de liquidez.

Já as propostas de aumento da tributação de instituições financeiras influenciam diretamente as taxas de juros e os prazos dos empréstimos. O setor financeiro já paga 20% de CSLL enquanto a economia toda paga 9%, e agora há propostas para aumentar a alíquota do setor para 50%, até 100%.

As pessoas acham que o banco que faz a taxa de juros e não entendem o que é a margem, o spread. A taxa de juros quem faz é o Conselho Monetário Nacional (CMN), que diz que a Selic é 3,75%. Acima dela se constrói o spread, que é a margem do banco.

Como os bancos constroem o spread bancário?

Na margem estão refletidos os impactos da inadimplência e dos tributos – um quarto do spread é inadimplência e um quarto é de carga tributária, que pode aumentar ainda mais. Para não quebrar ou o banco aumenta a taxa de juros ou reduz a zero o lucro. No fim o sacrificado é o tomador do dinheiro, o consumidor.

Então as duas medidas debatidas no Congresso estão na contramão, mostram a incompreensão de qual é o papel do setor financeiro num momento de crise econômica.

Como a crise afeta o mercado de capitais?

O mercado financeiro e de capitais não é descolado da economia real. Lá na frente temos o problema de contração da economia e isso começa a criar um paradoxo.

Por um lado há um grande aumento na liquidez de origem fiscal, por meio dos diferimentos tributários, e a taxa de juros tende a baixar. Mas de outro lado há grande aumento do risco. Quem vai quebrar e quem vai sobreviver? A gente não sabe, se é que alguém vai quebrar. O aumento do risco eleva o custo do dinheiro no mundo inteiro.

Não está claro para onde vão as taxas de juros. O fato é: você não tem no mundo e já começa a não ter no Brasil instrumentos de política monetária para combater isso. Porque já se observam taxas muito baixas ou até negativas. Então restam instrumentos de política fiscal e o mundo está se endividando para abastecer essa liquidez.

No Brasil é a mesma coisa. As taxas de juros reais e nominais estão historicamente baixíssimas. Nossa vantagem é que estamos adotando aqui instrumentos que antes só existiam em outras partes do mundo. A grande inovação é o Banco Central comprar papéis privados, isso por si só é uma garantia de injeção de liquidez.