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Opinião

Um efeito do coronavírus?

Manifestações da hubris estão à vista. Há quem aprendeu artes bélicas que recomenda remédio, mas jamais abriu um livro de medicina

O grito, de Edvard Munch, 1910 / Wikimedia Commons

Sou do tempo em que se aprendia latim e os professores enfeitavam suas aulas com exemplos tirados dos clássicos gregos. Guardei desses tempos um verso latino Quos Jupiter perdere vult prius dementat. Este, traduzido sem elegância, diz que aqueles que Júpiter, o primeiro dos deuses, quer perder primeiro enlouquece. Para explicá-lo, se bem me lembro porque não consultei a Wikipedia, o meu professor contava a história de um Ajax, herói da guerra de Tróia, cuja auto-suficiência irritou os deuses. Júpiter então o endoidou, levando ao paroxismo da pretensão ou do desvario da pretensão desmedida – a hubris, em grego – que acabou por levá-lo à morte.

Não estudei grego e não tenho tempo de ir até a referida Wikipedia, que, colecionando sem crivo, um pouco de tudo, ocupa com vantagem o lugar que no passado se associava ao dicionário, o “pai dos burros”. Por isso, não sei traduzir hubris, mas pelo que minha memória caquética ainda recorda das aulas seria uma forma de loucura que levaria a uma pretensão de poder absoluto, de sabedoria ilimitada.

Ora, o que se passa me levou à ousadia – também forma de hubris – de levantar uma hipótese, ou se quiserem uma tese: coronavírus provoca hubris. A argumentação que a sustenta é irretorquível. Corona em latim é coroa. Coroa é atributo de rei. Rei tem poder e ninguém me desmentirá em vista da história de que reis são muitas vezes tomados do desvario do poder.

A simples leitura dos jornais ou informativos eletrônicos oferece exemplos mais do que suficientes para corroborar a tese. Há uma pandemia causada por um coronavírus, sobre o qual se conhece pouco. Por que, então, a priori não admitir que ele possa ser responsável por uma pandemia da hubris? Não se suspeita que ele se infiltre até pelos olhos? E os olhos não estão próximos do cérebro?

Com efeito, manifestações da hubris estão à vista. Há quem aprendeu artes bélicas que recomenda remédio, mas jamais abriu um livro de medicina. Há quem tenha estudado direito, mas decrete de antemão a suspensão de atos que deverão ser inconstitucionais, mesmo desconhecendo o seu conteúdo.

A razão é indiscutível, porque obviamente serão inconstitucionais, embora previstos nas atribuições constitucionais da autoridade prolatora, em vista das supostas inclinações da mesma. Há colega deste, até ontem estrito servo da lei – legum servi sumus ut liberi possimus[1] – que dá andamento a mandado de segurança – que, na lei, pressupõe direito líquido e certo, (no que o próprio sempre insistiu em mil decisões), embora seja evidente que tal direito inexiste.

Há autoridades, até da humilde esfera local, que suspendem direitos fundamentais, como o de ir e vir, embora saibam, ou deveriam saber, que o exercício de tais direitos somente pode ser suspenso, nos termos da Constituição, por deliberação do Congresso Nacional. (Talvez – invoca-se neste passo Freud – porque assim se vingam de não terem podido impedir que a filhinha saísse de casa à noite e voltasse depois da hora prescrita para o recolher.) Outro chega a proibir se viaje de automóvel para manter isolamento, impondo que pessoa preservada pelo isolamento, viaje em ônibus lotado.

E os profissionais da medicina também brilham na hubris. Doutoralmente condenam remédios que tomam e prescrevem para si próprios. Criam “protocolos” para decidir quem vive e quem morre (o que antes era deixado nas mãos de Deus). Assumem até o papel dos oráculos: o pico da pandemia ocorrerá entre duas e nove semanas. Se um leigo o dissesse, seria palpite. (E por que – surge-me uma inspiração – não criar um bolão com a participação dos leigos, fazendo com que, em lugar de apostar se o São Paulo vai ganhar de 3×0, ou o Corinthians vai perder de 1×5, apostariam na data em que os doutores entenderiam ocorrido o pico e permitiriam que a normalidade voltasse?)

Para completar, um setor da classe política pede a anulação das eleições de 2018, porque alguém disse em entrevista que um delegado da PF haveria informado o filho do candidato vencedor de que um assessor deste seria objeto de uma investigação. A hubris, como se vê, não gera apenas desvarios, mas também alucinações.

Certamente, a minha tese provocará muitos estudos. A Universidade de Santana da Ponte Pensa a apoiará em estudo realizado por alunos recém egressos do vestibular. A de Mad-on-River a recusará baseado em outro estudo. A de Mort-aux-Vaches a reconhecerá como admissível entre 3.000.000 de outras hipóteses. E a imprensa, formada em escolas que lhes fornecem conhecimento profundo sobre todas as coisas, menos sobre gramática, escolherá entre esses três milhões a que for mais grave em consequências. Se numa morrerão dez mil e noutra dez milhões, esta é que merecerá a manchete.

Sem dúvida – como reconheço – a hubris tomou também conta de mim, preso sem culpa formada. Se não, eu me pouparia de novos inimigos.

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[1] Brocardo romano: “Somos servos da lei, para poder ser livres”.