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Metas da COP26 pressionam empresas a reduzir emissões de gases de efeito estufa

Enquanto empresas líderes de segmentos anunciam compromissos públicos, pequenas e médias precisam entrar no debate

Crédito: Pixabay

No dia 13 de novembro, depois de duas semanas de intensas negociações, quase 200 países chegaram a um acordo na COP26, a conferência sobre a mudança do clima das Nações Unidas, e firmaram o Pacto Climático de Glasgow – nome da cidade da Escócia onde ocorreu o evento. Com o compromisso de revisão das metas para 2030 em 2022, o final da conferência ficou marcado pelo tom de urgência para a tomada de ações imediatas.

Apesar de o Brasil ter se comprometido com o acordo global de proteção de florestas, com o objetivo de zerar o desmatamento no mundo até 2030,  a devastação na Amazônia bateu um novo recorde na última quinta-feira (18/11): com 13.235 quilômetros quadrados de desmatamento, a estimativa do programa Prodes, do Inpe, indica uma alta de 22% em relação ao ano passado e é a taxa mais alta desde 2006. No cenário pós-COP26, a discrepância entre as promessas e a realidade atreladas às ações do governo federal interfere em possíveis tratados comerciais entre países, o que terá efeitos diretos no setor privado.

Entre alguns dos pontos principais do Pacto de Glasgow, as nações mantiveram em vista a meta de limitar o aumento da temperatura média do planeta em 1,5ºC, referência que ficou em risco de ser inatingível diante de promessas pouco ambiciosas, e que, por mais que tenha sobrevivido no texto oficial, demanda ações drásticas para que seja alcançável.

Para o Brasil, o aumento do desmatamento na Amazônia é uma contribuição direta para o aumento da temperatura do planeta. Além disso, pela primeira vez, as nações concordaram em incluir no Pacto de Glasgow o compromisso pela redução do uso de combustíveis fósseis. 

Ao mesmo tempo em que as medidas são assumidas por governos, o setor privado é diretamente impactado por fazer parte do sistema econômico que gera as emissões de gases de efeito estufa, pois as empresas recebem as demandas de investidores que querem fechar negócios com companhias alinhadas aos seus valores.

Para o diretor-executivo da Rede Brasil do Pacto Global da Organização das Nações Unidas (ONU), Carlo Pereira, tanto o acordo de Glasgow quanto outros que foram anunciados ao longo das duas semanas colocam pressão direta sobre o setor privado doméstico. 

Principais anúncios para o mercado brasileiro

Um dos principais anúncios para o mercado brasileiro é o tratado para a redução de 30% das emissões de metano em relação aos níveis de 2020 até o final desta década, assinado por 97 países, incluindo o Brasil. O acordo já havia sido anunciado em meados de setembro pelos Estados Unidos e pela União Europeia e ganhou adesão de novos signatários na COP26. “Nesse caso, o compromisso recai sobre a agropecuária, setor que emite metano no Brasil”, disse Pereira. 

O diretor-executivo pontuou que, no caso do Brasil, a maior parte das emissões, cerca de 44% do total, está relacionada com o desmatamento, problema que depende, principalmente, da atuação do governo federal para ser resolvido. “Mundo afora, 80% das emissões têm a ver com energia, incluindo o transporte, o que se sobrepõe à matriz energética utilizada pelas empresas. Quando os países estabelecem as suas metas, o que acontece, na prática, é uma definição sobre as transformações que as empresas terão que fazer”, afirmou. 

No caso do Brasil, que tem a reputação manchada pelo aumento do desmatamento na Amazônia, o setor privado precisa exercer um papel duplo: pressionar os governos pelo fim da derrubada da floresta e comprovar para os investidores e o mercado externo que seus produtos não estão atrelados à devastação.

Como exemplo, Pereira destacou o caso de um executivo do setor de maçãs que participou de um encontro com representantes públicos em Brasília. “O executivo contou que estava com dificuldades de exportar a fruta para o Reino Unido por causa da Amazônia. Nós sabemos que essa maçã é produzida muito longe do bioma Amazônia, mas o comprador olha para o produto, vê que é do Brasil e faz a associação com o desmatamento, mesmo quando não é o caso”, disse. 

De acordo com a diretora-executiva do Instituto Clima e Sociedade (iCS) e sócia-fundadora do GIP (Gestão de Interesse Público), Ana Toni, as discussões que aconteceram na COP26, aliadas à febre do ESG no mercado brasileiro, já estão interferindo nas ações do setor privado. “Deixou de ser uma questão de persuadir as empresas de que o tema existe e é importante. Elas querem saber qual é o próximo passo e o que precisam fazer para se adaptarem e fazerem parte da solução”, afirmou. 

Vez dos CEOs na COP26

A mudança na percepção sobre o assunto do clima foi visível na COP26. Enquanto nos anos anteriores as empresas foram representadas por gerentes e colaboradores de áreas como o marketing, a edição de 2021 contou com a presença de diversos CEOs em Glasgow.

Para a diretora-executiva do iCS, o setor privado deu passos largos na apropriação do tema sobre a mudança do clima, e o próximo passo é a implementação dos compromissos. “Não adianta assinar inúmeras metas e não implementar. Há promessas net-zero por todos os lados, mas agora temos que partir para a implementação”, disse Toni. 

Ao mesmo tempo, por mais que a presença de CEOs de grandes corporações tenha sido expressiva na COP26, Toni destacou que as pequenas e médias empresas ainda estão fora desse debate. “Elas serão impactadas, porque o Escopo 3 de emissões de gases de efeito estufa olha para os fornecedores. O debate não está maduro entre esse público. Essa é a grande lição de casa que todos temos, não adianta só as grandes participarem”, disse.