Do Supremo

STF

Barroso e Gilmar travam embate sobre investigação contra Temer na Lava Jato

Gilmar diz que apuração é vexatória, MP virou monstro e STF foi desgastado. Barroso rebate e afirma que ouviu áudio do presidente

Na última sessão do Supremo Tribunal Federal em 2017, os ministros Luís Roberto Barroso e Gilmar Mendes protagonizaram um novo embate sobre as investigações da Operação Lava Jato. Após Gilmar afirmar que as apurações envolvendo o presidente Michel Temer na esteira da delação da J&F foram malfeitas, que o MP virou um monstro e o tribunal passou por vexame, Barroso reagiu, criticou  cultura da desonestidade e afirmou que ouviu o áudio do peemedebista dizendo ‘tem que manter isso aí’, viu a mala de dinheiro, a corridinha na televisão” em referência às provas do caso.

Segundo Barroso, o país vive uma grande tragédia com a corrupção endêmica. “Eu quero dizer que eu vi a fita, eu vi a mala de dinheiro, eu vi a corridinha na televisão. Eu li o depoimento de Youssef. Eu li o depoimento de Funaro. Portanto nós vivemos uma tragédia brasileira, a tragédia da corrupção que se espalhou de alto a baixo sem cerimônia. Um país em que o modo de fazer política e negócios funciona assim. O agente político relevante escolhe o diretor da estatal ou ministro com cotas de arrecadação. E o diretor da estatal contrata em licitação fraudada a empresa que vai superfaturar a obra ou o contrato público para depois distribuir dinheiros”, afirmou o ministro.

E completou: “Aí não faz diferença  se foi para o bolso ou se foi para a campanha, porque o problema não é para onde vai de onde vem. É a cultura de desonestidade que se cria de alto a baixo com maus exemplos em que todo mundo quer levar vantagem, todo mundo quer passar os outros para trás, todo mundo quer conseguir o seu, sem mencionar as propinas para financiamento, tudo documentado”.

O ministro afirmou que “há diferentes de formas de ver a vida e todas merecem consideração e respeito. Eu gostaria de dizer que eu ouvi o áudio “Tem que manter isso aí, viu”.

“São diferentes visões da vida e do país. Eu não acho que há uma investigação irresponsável. Há um país que se perdeu pelo caminho, naturalizou as coisas erradas, e nós temos o dever de enfrentar isso e de fazer um novo país, de ensinar as novas gerações de que vale a pena fazer honesto, sem punitivismo, sem vingadores mascarados, mas também sem achar que ricos criminosos têm imunidade. Porque não têm. Tem que tratar o menino pego com 100 gramas de maconha da mesma forma que se trata quem desvia milhões de reais.”

A fala do ministro foi uma resposta aos ataques de Gilmar sobre o caso de Temer e à atuação do Ministério Público, na gestão de Rodrigo Janot, na Lava Jato.

Gilmar disse que o trabalho sobre Temer foi mal feito, malconduzido e que isso foi avaliado, inclusive, pelo novo diretor da Polícia Federal, Fernando Segóvia, que assumiu o posto indicado pelo presidente.  O ministro afirmou que existia no Supremo janozistas e que o tribunal criou um monstro ao permitir o poder de investigação do Ministério Público.

“Ministro Celso e eu fomos cautelosos no poder de investigação do Ministério Público como elemento subsidiário e não como algo supressivo do poder de investigação da polícia. Foram abertos 1800 procedimentos de investigação criminal sem controle judicial. Criamos um monstro, e o pior: investigação malfeita. Juntam áudio e não pedem perícia. Vexame institucional completo de gente que não sabe investigar e foi investido por nós desse poder. É uma grande bagunça, grande caos, corte e cola, contradições apontadas. Isso é vexaminoso para o tribunal e temos obrigação de definir minimamente, para que isso não prossiga. Temos que orientar minimamente esse processo, para poupar vexame institucional”, disse Gilmar.

O ministro criticou um suposto alinhamento do STF com o MP. “Nós vamos fazer assim porque o Janot quer. O resultado veio em seguida com todas as letras e se viu o que tipo de patifaria se tratava. Referendamos [homologação da JBS]. Grande erro. Caso grave de erro. Populismo judicial é responsável por esse tipo de assanhamento. A história não vai nos poupar. Covardia Se continuarmos com a covardia com que tratamos os temas, o tribunal vai ser cobrado. É importante que a gente decida as questões e indique as saídas”.


Faça o cadastro gratuito e leia até 10 matérias por mês. Faça uma assinatura e tenha acesso ilimitado agora

Cadastro Gratuito

Cadastre-se e leia 10 matérias/mês de graça e receba conteúdo especializado

Cadastro Gratuito