Regulação e Novas Tecnologias

Regulação e novas tecnologias

I wanna know, tell me what’s on your plug

Da disputa VHS vs. Betamax à guerra pela dominância na tecnologia de abastecimento de veículos elétricos

Imagem: PIxabay

Temos acompanhado com grande interesse a crescente penetração da venda de carros elétricos ao redor do globo. No ano de 2018 foram vendidos 1,98 milhão de carros elétricos, predominantemente na China (1 milhão de automóveis vendidos), Europa (385 mil automóveis) e Estados Unidos (361 mil automóveis), sendo essas três regiões responsáveis por 90% das vendas de automóveis elétricos mundialmente[1].

Percebe-se nitidamente uma excepcional aceleração no ritmo das vendas de veículos elétricos, com um aumento de 68% nas vendas entre 2018 e 2017. Como consequência,  quase 40% de todos os veículos elétricos em circulação atualmente foram adquiridos no ano passado[2].

O Brasil, finalmente, adotou iniciativas para a disseminação e ampliação da quantidade de veículos elétricos em nossa frota. Assumindo um papel preponderante para tal quadro, vale mencionar a Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) que editou a Resolução Normativa nº 819/2018[3], responsável por regulamentar as estações de recarga de veículos elétricos, e que, por meio de seus programas de Pesquisa e Desenvolvimento, permitiu que a empresa EDP instalasse 30 novas estações de recarga ultrarrápida de veículos elétricos cobrindo todo o estado de São Paulo, tendo como parceiras as montadoras Audi, Porsche e Volkswagen.

Citado empreendimento representa um investimento de R$ 32,9 milhões e vai conectar um total de 64 pontos de carregamento que interligam São Paulo, Rio de Janeiro, Vitória, Curitiba e Florianópolis, formando um corredor de abastecimento de automóveis elétricos com aproximadamente 2.500 quilômetros de extensão[4]. Aprovado na chamada pública da Aneel para o tema Mobilidade Elétrica Eficiente, é o primeiro e maior projeto da América do Sul de instalação de carregadores ultrarrápidos (150kW e 350kW). A implementação da rede, iniciada ainda em 2019, está programada para as primeiras recargas em 2020, e conclusão em até três anos[5].

Pontua-se ainda que Estados como o Paraná tem oferecido incentivos fiscais para a aquisição de veículos elétricos[6]. Mas não é só. Em âmbito federal[7], a Câmara de Comércio Exterior reduziu de 35% para zero a alíquota do Imposto de Importação para carros elétricos e movidos a células de combustível[8].

Parte do incentivo à eletrificação da frota no mundo ocorre em razão da necessidade de cumprimento das metas de redução da emissão de gases causadores de efeito estufa estabelecidas no Acordo de Paris[9]. Com efeito, o Brasil adotou, como meta, a redução de emissões em 37% no ano de 2025, em relação aos níveis de 2005, e está indicando que as emissões poderão ser reduzidas em até 43% até o ano de 2030[10].

Quantificando economicamente os benefícios da eletrificação da frota, a especialista Ingrid Malmgren avalia que a utilização de um carro elétrico no lugar de um convencional, durante o período de 10 anos, gera economias extremamente significativas, sendo estimadas em US$ 4.130,00 nos gastos com combustível, e US$ 1.488,00 com manutenção do automóvel. Já os benefícios ambientais foram estimados em US$ 866,00 e os impactos benéficos na saúde foram estimados em US$ 1.686,00[11].

Embora as vantagens da eletrificação da frota sejam bem conhecidas, muito menos conhecida é a verdadeira guerra dos padrões tecnológicos utilizados para o abastecimento dos veículos elétricos. Atualmente existem 4 (quatro) tecnologias principais para o abastecimento dos veículos elétricos: Supercharger[12], ChaDeMo[13][14], Combo Charging System[15] e GB/T (formato utilizado por companhias chinesas)[16].

Cabe salientar que as discussões sobre as vantagens e desvantagens técnicas de cada um dos 4 (quatro) principais modelos é uma discussão que extrapola o nosso objetivo[17][18], tendo em vista os interessantíssimos aspectos jurídicos e econômicos relacionados à eletrificação, fazendo desta a disputa comercial mais interessante desde Betamax vs. VHS[19].

Para aqueles que não se recordam ou não vivenciaram a era do VHS (e que provavelmente, pelo mesmo motivo, não identificarão a referência musical do título do presente artigo), o VHS era um equipamento para gravação de vídeo que surgiu em 1979, criado pela japonesa JVC. O modelo tornou-se o vencedor de uma grande disputa com o formato Betamax, criado pela Sony em 1975.

A despeito de o Betamax ser o formato pioneiro, ele detinha formato proprietário, enquanto o VHS era aberto; isso, somado a desvantagens técnicas, como a menor capacidade de gravação de suas fitas (inicialmente apenas 60 minutos contra mais de 4 horas do VHS) sobrepujaram os seus méritos, entre os quais a melhor qualidade de imagem e som.

Essa guerra comercial traz lições muito importantes para compreender a atual disputa entre as tecnologias de carregamento dos automóveis elétricos, exigindo uma análise de custo-benefício[20] para saber se (i) os consumidores realmente querem pagar mais caro para ter uma melhora apenas marginal de qualidade, e (ii) qual a disponibilidade de conteúdo (no caso do VHS) e rede de abastecimento (no caso dos veículos elétricos).

No caso do VHS,  as parcerias com os estúdios de cinema foram determinantes para sua vitória nessa guerra fria, já que tal parceria permitiu disponibilizar muito mais conteúdo que a sua concorrente, um dos fatores prevalentes à época para a adoção maciça pelo público.

Adaptando-se os elementos da disputa VHS vs. Betamax para o contexto automobilístico, podemos antecipar que o compromisso de um amplo conjunto de fabricantes com determinada tecnologia, que fabriquem a maioria dos veículos elétricos, sendo dotados da maior – ou ao menos grande o bastante – rede de abastecimento por meio de uma tecnologia de abastecimento rápido determina quais as tecnologias prevalecentes.

Um dos maiores óbices hoje para a adoção disseminada de veículos elétricos é a limitação de seu uso para deslocamentos mais longos, entrave mais imputável à reduzida oferta de postos de abastecimento do que à tecnologia dos automóveis, que já conseguem ter autonomia superior a 400km com apenas uma carga[21].

Com efeito, a ascensão de uma tecnologia prevalente teria o efeito benéfico de fazer a construção  dos postos de recarga mais simples e economicamente mais viáveis, já que dispensaria a necessidade de se construir um número excessivo de pontos de abastecimento para atender à multiplicidade das tecnologias de carregamento de automóveis elétricos, com a crônica subutilização dos mesmos, sob pena de, ao escolher apenas um número limitado de tecnologias, ser incapaz de atender parcela mais ou menos relevante do mercado potencial.

Deixamos claro que a decisão sobre a tecnologia prevalente para o abastecimento dos automóveis elétricos não é uma decisão regulatória[22], mas, antes de tudo, comercial e que será decidida globalmente a depender do ritmo de construção da infraestrutura de abastecimento pelos diferentes países e do ritmo de eletrificação da frota.

Embora consideremos que o Brasil tenha papel pouco significativo na determinação das tecnologias vencedoras, acompanhar esse combate é importante; principalmente, considerando que, com a adoção da tarifa branca, ou seja, uma tarifa com variação entre os períodos de pico e de baixo consumo, surge a possiblidade de se utilizar o automóvel como bateria que injeta energia na rede no horário de pico e é abastecido nos períodos em que a energia esteja mais barata.

Esse cenário permite-nos imaginar a abertura de um amplo leque de opções para a realização de arbitragem com o preço da energia, como já se verifica com algumas distribuidoras de energia elétrica norte-americanas e europeias[23], que oferecem valores com desconto para a recarga dos veículos elétricos nos horários de menor demanda e startups que controlam o momento de recarga do automóvel com base no custo da energia.

Disseminar a eletrificação da frota brasileira e acompanhar atentamente as díspares capacidades das tecnologias que disputam a primazia do abastecimento dos veículos elétricos abrirá uma série de oportunidades para os mais variados players, desde os mais tradicionais como postos de combustível e lojas (a Whole Foods fornece abastecimento de veículos elétricos como parte de sua estratégia comercial[24]) até startups que prevejam o momento mais barato para o abastecimento dos veículos.

Que comece a guerra e suas possibilidades.

 

———————————————

[1] Disponível em: https://www.iea.org/reports/tracking-transport-2019/electric-vehicles Acesso em: 18 dez. 2019

[2] Disponível em: https://www.iea.org/reports/tracking-transport-2019/electric-vehicles Acesso em: 18 dez. 2019

[3] Disponível em: http://www2.aneel.gov.br/cedoc/ren2018819.pdf Acesso em: 18 dez. 2019

[4] Para uma análise dos aspectos econômicos da criação de uma extensa rede de postos de recarga de veículos elétricos, ver: LEE, Henry; CLARK, Alex.  Charging the Future: Challenges and Opportunities for Electric Vehicle Adoption. Faculty Research Working Paper Series. Disponível em: https://www.hks.harvard.edu/research-insights/publications?f%5B0%5D=publication_types%3A121 Acesso em: 18 dez. 2019

[5] Disponível em: ttps://www.edp.com.br/noticias/edp-anuncia-a-primeira-rede-de-recarga-ultrarrapida-de-veiculos-eletricos-do-brasil Acesso em: 18 dez. 2019

[6] Disponível em: https://www.fazenda.pr.gov.br/modules/noticias/article.php?storyid=1020&tit=Governador-sanciona-isencao-de-IPVA-para-carros-eletricos Acesso em: 18 dez. 2019

[7] Disponível em: http://www.camex.gov.br/noticias-da-camex/262-camex-aprova-reducao-da-aliquota-do-imposto-de-importacao-para-carros-eletricos-e-movidos-a-celulas-de-combustivel Acesso em: 18 dez. 2019

[8] Disponível em: http://www.camex.gov.br/noticias-da-camex/262-camex-aprova-reducao-da-aliquota-do-imposto-de-importacao-para-carros-eletricos-e-movidos-a-celulas-de-combustivel Acesso em: 18 dez. 2019

[9] Veja também: https://fortune.com/2019/09/11/tesla-volkswagen-electric-cars-europe/ Acesso em: 18 dez. 2019

[10] Disponível em: http://www.itamaraty.gov.br/pt-BR/politica-externa/desenvolvimento-sustentavel-e-meio-ambiente/712-mudanca-no-clima Acesso em: 18 dez. 2019

[11]MALMGREN, Ingrid. Quantifying the Societal Benefits of Electric Vehicles. EVS29 International Battery, Hybrid and Fuel Cell Electric Vehicle Symposium. World Electric Vehicle Journal Vol. 8 – ISSN 2032-6653

[12] Mais informações em: https://www.tesla.com/supercharger?redirect=no Acesso em: 18 dez. 2019

[13] Para mais informações ver: http://www.chademo.com/technology/technology-overview/ e https://www.zap-map.com/charge-points/connectors-speeds/ Acesso em: 18 dez. 2019

[14] Para uma lista representativa dos membros, ver: https://www.chademo.com/membership/members/ Acesso em: 18 dez. 2019

[15] Para mais informações, ver: https://cleantechnica.com/2018/11/22/ccs-becoming-dominant-dc-charging-standard-in-europe-will-nissan-drop-chademo/ Acesso em: 18 dez.  2019

[16] Para mais informações, ver: https://www.electrive.com/2018/12/19/china-and-japan-give-details-of-new-charging-standard/ e https://edition.cnn.com/2019/08/01/cars/future-of-electric-car-charging/index.html Acesso em: 18 dez.  2019

[17] Para mais detalhes, ver: https://thedriven.io/2018/12/10/what-is-ccs-charging/ e https://www.reuters.com/article/us-autos-electricity-charging/plug-wars-the-battle-for-electric-car-supremacy-idUSKBN1FD0QM Acesso em: 18 dez. 2019

[18] Para alternativas de abastecimento estudadas, ver: https://www.theguardian.com/money/2019/oct/05/electric-car-ways-to-charge Acesso em: 18 dez. 2019

[19] Para um relato completo da disputa, ver: https://home.bt.com/tech-gadgets/tech-features/betamax-vs-vhs-and-three-more-hard-fought-high-tech-format-wars-11363979948999 e https://www.theguardian.com/technology/2015/nov/10/betamax-dead-long-live-vhs-sony-end-prodution Acesso em: 18 dez. 2019

[20] THALER, Richard H.; SUNSTEIN, Cass R. Nudge: Como tomar melhores decisões sobre saúde, dinheiro e felicidade. Objetiva: São Paulo, 2019, edição do kindle.

[21] Por exemplo, o Nissan Leaf E+ tem autonomia aproximada de 400 km. Veja-se: https://www.nissan.co.uk/vehicles/new-vehicles/leaf/range-charging.html Acesso em: 18 dez. 2019

[22] A União Europeia tem favorecido o formato CCS, mas sem determinar quais as tecnologias as montadoras devem utilizar em seus veículos elétricos. Disponível em: https://www.reuters.com/article/us-autos-electricity-charging/plug-wars-the-battle-for-electric-car-supremacy-idUSKBN1FD0QM Acesso em: 18 dez. 2019

[23] Por exemplo, vejam-se os planos da EDP em Portugal para abastecimento de veículos elétricos: https://www.edp.pt/particulares/servicos/mobilidade-eletrica/ Acesso em: 18 dez. 2019

[24] Para mais informações: https://www.supermarketnews.com/news/whole-foods-adds-blink-electric-vehicle-charging-stations e https://www.eenews.net/stories/1061491825 Acesso em: 18 dez. 2019


Cadastre-se e leia 10 matérias/mês de graça e receba conteúdo especializado

Cadastro Gratuito