Publicistas

Publicistas

O viés de adulação dificulta processo de modernização do pensamento jurídico

Legado cultural da lisonja ao poder inibe a crítica construtiva

De 1988 a 1998, o índice de perda de aviões da Korean foi 17 vezes superior ao de outras companhias de nível mundial – Crédito: Pixabay

Qual a relação entre a cultura coreana e o alto número de acidentes da Korean Airlines?  No livro Outliers, Malcolm Gladwell faz um inventário das condições externas à iniciativa individual que contribuem para o sucesso ou insucesso de qualquer empreitada.  Acidentes aéreos acontecem por um acúmulo infeliz de circunstâncias (tempo ruim, atraso no voo e erros humanos em cadeia).

Gladwell, porém, revela que na KA o respeito excessivo à autoridade dificultava a comunicação eficaz entre pilotos, engenheiros e controladores de voo. O discurso mitigado não permitia que riscos e orientações fossem transmitidos com clareza. A necessária accountability dos sistemas de segurança não se tornava efetiva. As caixas-pretas foram analisadas por especialistas. Revelaram que a cultura de deferência à autoridade faz aviões caírem.

De 1988 a 1998, o índice de perda de aviões da Korean foi 17 vezes superior ao de outras companhias de nível mundial. Em 2000, os coreanos contrataram David Greenberg, da Delta Airlines, para dirigir as operações. O idioma coreano tem seis níveis distintos de tratamento em função da hierarquia dos interlocutores.

Greenberg decidiu que os funcionários seriam reeducados em inglês, em linguagem direta, objetiva e com a entonação adequada. Deviam dizer o que precisava ser dito, a tempo e a hora. Os números da Korean tornaram-se impecáveis.

Culturas distintas lidam de maneiras distintas com a autoridade. Guido Calabresi conta que logo depois da publicação de The cost of accidents – obra seminal para o uso da análise econômica do direito – um juiz da Suprema Corte teria comentado: “Muito interessante. Mas isso não é direito.” Ao que então teria respondido: “Em alguns anos, isso não apenas será direito; isso será o direito!”

Há no Brasil uma cultura de fascínio pelo poder. Os bacharéis são ensinados a cultuar os argumentos de autoridade, mais do que a autoridade dos argumentos.

Essa tradição se refletiu na formação de um padrão intelectual impregnado pelo viés de adulação, que inibe a crítica construtiva e dificulta o processo de modernização do pensamento jurídico.

O Direito Administrativo venera a autoridade, preza a hierarquia e se nutre do poder. Lembro-me dos conselhos dos áulicos no início da minha carreira: ter cuidado para não fazer críticas diretas e nominais, pois essa não era “a nossa tradição.” Esse modelo embota a inovação e gera incentivos à endogenia intelectual. Produzir conhecimento novo exige a ruptura com velhos paradigmas e a superação de antigas verdades. Toda sociedade precisa de um ambiente de livre competição de ideias, no qual o sucesso não seja medido pela semelhança com o passado. O avião não foi inventado a partir de elogios aos balões dirigíveis.


Cadastre-se e leia 10 matérias/mês de graça e receba conteúdo especializado

Cadastro Gratuito