O mundo fora dos autos

O Mundo Fora dos Autos

Por que Eduardo Bolsonaro não fritou hambúrgueres no calor do Rio?

Experiência do deputado na iniciativa privada dos EUA revela nossos preconceitos contra o trabalho subalterno

Crédito: Luis Macedo / Câmara dos Deputados

A fim de justificar suas supostas credenciais para assumir a Embaixada do Brasil em Washington, Eduardo Bolsonaro surpreendeu o país ao revelar uma inusitada experiência profissional que, segundo ele, o habilita a ocupar aquele relevante cargo diplomático: em tempos idos, “fritou hambúrgueres no frio do Maine”.

Talvez essa seja uma vantagem para o tipo de relação (carnal) que o atual governo pretende ter com os EUA. E, além do mais, o presidente Trump adora servir sanduíches fast food para visitantes da Casa Branca; assim, quem sabe, nosso futuro embaixador (que já circulou com o boné make America great again) possa copiar mais essa patetada do presidente americano, preparando de próprio punho cheeseburguers às autoridades locais que visitarem a embaixada, servindo-lhes a iguaria no ponto que demandarem: rare ou well-done.

Mas não é esse o ponto (do texto, não da carne) que quero ressaltar. A declaração bizarra de Eduardo Bolsonaro sobre sua experiência profissional nos EUA me desperta uma outra perplexidade.

Por que é que brasileiros afluentes, que nunca botaram a mão na massa no Brasil, quando fazem intercâmbios estudantis nos Estados Unidos arrumam trabalhos manuais típicos da classe trabalhadora norte-americana, passando, então, a exibir essas “experiências operárias” com tanto orgulho? “Experiências operárias” essas que essas mesmas pessoas afluentes jamais topariam fazer no Brasil?

A verdade é que nós brasileiros temos um grande preconceito contra o trabalho subalterno, que acaba se transformando, de alguma forma, em preconceito contra os próprios trabalhadores subalternos.

Aqui em nosso país o preconceito de classe é bastante peculiar, tendo se adensado como decorrência do sistema escravista, pela ojeriza que o trabalho braçal despertava nas classes abastadas e nobiliárquicas.

É interessante observar como esse fenômeno, por razões religiosas, não afetou os EUA também escravista, já que lá a “ética protestante do trabalho” suplantou a depreciação dos trabalhos físicos como sendo algo necessariamente destinado a pessoas incultas. Some-se a isso a inexistência de aristocracia de sangue naquele país, inversamente ao que ocorreu na nossa pátria, especialmente pela presença ostensiva da família bragantina por aqui, decorrente da transladação da corte e de sua permanência no período pós-independência.

John Luccock, um comerciante inglês que passou uma década no Brasil entre 1808 e 1818, escreveu um livro precioso sobre a vida social e econômica em nosso país em princípios do século XIX, e uma das coisas que mais o chocou foi perceber como qualquer trabalho físico era malvisto mesmo pelas pessoas mais simples. Ele narra diversas experiências que vivenciou, quando necessitava contratar artesãos brancos para pequenos serviços e esses tinham grande escrúpulo em desempenhar tarefas que não fossem consideradas “nobres” aos olhos da sociedade:

Os mecânicos brancos (…) consideravam-se todos eles fidalgos demais para trabalhar em público, e que ficariam degradados se vistos carregando a menor coisa pelas ruas, ainda que fossem as ferramentas de seu ofício. O orgulho tolo e a presunção formalizada, que dominava todas as classes da sociedade brasileira, atingiam nessa categoria de homens a um absurdo singular e ridículo.”

Em seguida, o autor inglês conta episódio em que precisou contratar um chaveiro para romper um cadeado e o profissional tardou a aparecer porque teve dificuldades em contratar um “negro de ganho” para carregar uma pequena caixa de ferramentas que ele próprio poderia levar, mas não o fazia posto que não lhe cairia bem ser visto fazendo esse tipo de esforço rude pelas ruas…

Luccock observa ainda como a vinculação do trabalho braçal às classes inferiores estava entranhada em sua própria consciência, pois estas entendiam ser este um privilégio para manutenção de sua sobrevivência.

Outro fato narrado pelo inglês é bastante ilustrativo a esse respeito:

As pessoas que vivem do produto de pequenos serviços eventuais, e muito especialmente do ofício de carregadores, têm-se na conta de serem os únicos que possuem o privilégio de executar tudo quanto apareça dentro de suas respectivas especialidades, mostrando-se enormemente ressentidos com qualquer intromissão com seus empregos e ganhos. Essa foi uma das primeiras lições que recebi no país. No momento em que se retirava minha bagagem de bordo, entendi de carregar nas minhas próprias mãos um bacamarte de baioneta envolvido numa capa de lã. Não tinha ido longe, quando um senhor inteiramente desconhecido para mim fez-me parar, pedindo-me que eu entregasse o que eu estava carregando a um dos servos, acrescentando que não era direito privar os pretos de seu ganha-pão e que isso fazendo eu incorreria em grave risco”. (Notas sobre o Rio de Janeiro e Partes Meridionais do Brasil, Livraria Martins, 1942, pgs 73-75).

Esses preconceitos contra o labor físico, forjados em longos séculos de escravidão e aristocracia, chegaram-nos até o presente e basta lembrar um dispositivo da Constituição (art. 7º., inc. XXXII) que, embora bastante inócuo (pois nunca vi ser aplicado concretamente), é bastante revelador da consciência que temos sobre a desvalorização do trabalho físico: “proibição de distinção entre trabalho manual, técnico e intelectual ou entre os profissionais respectivos”. Se essa norma tem sido pouco usada, ela serve como um monumento antropológico de estudo da sociedade brasileira, pois em sua dimensão “dever-ser”, acaba por admitir que a realidade fática entre nós é a da “distinção entre os profissionais”.

Observamos, aliás, que esse menoscabo contra o trabalho subalterno hoje se reflete especialmente nas categorias de trabalhadores “terceirizados”, especialmente aqueles contratados em funções de limpeza, conservação, vigilância, que padecem de invisibilidade nas empresas em que trabalham e ficam isolados de integração efetiva com os demais empregados (sendo igualmente sintomático deste quadro as disposições recentes das leis de terceirização que obrigam as empresas a franquear-lhes espaços comuns aos demais empregados, como refeitórios e ambulatórios).

É claro que esses preconceitos contra o trabalho subalterno estão de tal forma incorporados em nossa realidade social que especialmente nós, operadores do direito e, portanto, trabalhadores “intelectuais”, acabamos sendo muitas vezes indiferentes e pouco empáticos às dificuldades da classe trabalhadora na sua lida com trabalhos que inconscientemente nos parecem pouco “nobres”.

Experiências de trabalho manual ou braçal deveriam fazer parte da formação dos nossos estudantes (especialmente em áreas como Direito), como ocorre nos EUA, pois aqui vivemos o paradoxo de, por exemplo, formarmos advogados, promotores e juízes que jamais pisaram numa fábrica ou conversaram com um trabalhador e que, no entanto, acabarão lidando diretamente com os dramas existenciais da classe operária.

Nesse sentido, uma experiência que deve ser divulgada e louvada ocorreu na Escola Judicial do TRT da 1ª. Região, por iniciativa do Juiz e Professor de sociologia da UFF, Dr. Roberto da Silva Fragale Filho (também colaborador do JOTA). Ele desenvolveu um programa de formação em que doze magistrados da Justiça do Trabalho exerceram por alguns dias profissões como garis, terceirizados em limpeza, cobradores de ônibus, caixas de supermercado, entre outras, apresentando ao final um relatório de sua experiência laboral e compartilhando-as em oficinas.

O trabalho se chama “Vivendo o Trabalho Subalterno”, e pode ser acessado neste link. A principal percepção constatada parece ser a da invisibilidade e “cegueira social” experimentada no dia a dia destes trabalhadores modestos.

Muitos poderão argumentar que no Brasil os jovens de famílias afluentes recusam-se a trabalhar em profissões modestas para ajudar o custeio de seus estudos porque aqui os salários seriam demasiadamente baixos. Mas podemos contra argumentar lembrando que em nosso país os salários são baixos, dentre outros motivos, justamente porque o trabalho subalterno não é valorizado pelas classes dirigentes, que na sua maioria jamais experimentaram as agruras dos estratos sociais menos favorecidos.


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