O mundo fora dos autos

O mundo fora dos autos

Depois de inventar a democracia, os americanos criaram a baixaria eleitoral

Além das eleições presidenciais, os EUA são pioneiros das campanhas sórdidas e das fake news

Na literatura, ninguém retratou melhor o lado deprimente do “espetáculo” da democracia americana do que o escritor Mark Twain – Crédito: A. F. Bradley

Estamos tão acostumados ao “espetáculo da democracia” que por vezes esquecemos o quão recente ele é. Segundo Yuval Noah Harari em “Sapiens”, o registro mais antigo da escrita humana é de cerca de 3.000 a.C., na Suméria, e ele se referia a anotações relativas à cobrança de impostos sobre produção de grãos. Ou seja, há pelo menos cinco mil anos já havia alguma forma arcaica de Estado e de autoridade. Mas passamos a escolher democraticamente nossos governantes pelo voto apenas 230 anos atrás, na esteira da Revolução Americana. Ou seja, se a história do mundo durasse uma hora, começamos a votar nos últimos dois minutos.

Foram os norte-americanos que criaram o presidencialismo e os pleitos presidenciais. As duas primeiras eleições não tiveram muita graça. George Washington, herói da independência e “mito” de verdade, foi eleito por aclamação no colégio eleitoral, para o primeiro e segundo mandatos. O seu governo foi tão bem-sucedido que ele elegeu facilmente o seu sucessor, John Adams, tendo como vice Thomas Jefferson. Quase não havia oposição e todos eram contra o “facciosismo”, denunciado por James Madison nos “Artigos Federalistas” como o grande mal das repúblicas. Mas ao término do primeiro mandato de Adams, o caldo começou a entornar. Os founding fathers brigaram entre si e se dividiram. Começaram a surgir os partidos políticos.

De um lado, os mais leais seguidores do próprio Washington, Alexander Hamilton e John Adams, conhecidos como “Federalistas”.  Eles queriam mais poder para o governo federal, investimento na indústria e aliança com a Inglaterra. Na oposição, os “Republicanos-Democratas”, liderados por Thomas Jefferson e James Madison. Eles defendiam mais prerrogativas para os estados, priorizavam a economia agrária e queriam ficar ao lado da França contra a antiga metrópole.

Na eleição para o quarto termo presidencial o pau quebrou feio. O pomo da discórdia foram as Leis de Estrangeiros e de Sedição (Alien and Sedition Acts), aprovadas no Congresso pelos federalistas para perseguir os republicanos-democratas. O vice Thomas Jefferson desafiou o candidato da situação, John Adams, que tentava a reeleição. Partidários de um e de outro formavam milícias e se enfrentavam nas ruas da então capital Filadélfia a pedradas; a pancadaria se repetia em outras cidades. Curiosamente, um brasileiro testemunhou os tumultos desse período. Era o diplomata e jornalista Hipólito José da Costa, posteriormente o fundador do “Correio Braziliense”, editado em Londres.

Em ” Diário da Minha Viagem para Filadélfia: 1798-1799″, ele narrou assim uma eleição que testemunhou no Estado de Nova Iorque:

Pessoas de ambos os partidos estão a solicitar e indagar às pessoas que votavam, diferentes panfletos impressos se espalhavam a deteriorar o caráter das pessoas que eram propostas para a eleição, e estes, a seu turno, espalhavam outros a defenderem-se; as gazetas estavam cheias do mesmo, e toda a cidade estava em uma convulsão que parecia ameaçar uma guerra civil; e, com efeito, os dois partidos, do governo e popular, estão de tal modo enfurecidos que hoje à noite houve brigas e duelos por piques e ditos por causa da eleição”.

Hipólito da Costa

O brasileiro, viajando como emissário do governo português, dava testemunho não só do clima político azedo e das tensões partidárias na recém fundada República, mas mostrava ainda como as baixarias tomavam conta do cenário eleitoral, com ataques à reputação dos candidatos e utilização da imprensa para veiculação de acusações falsas e maldosas. A proliferação espantosa da imprensa nos EUA ao tempo da Independência contribuía para a disseminação das aleivosias.

Ou seja, as “fake news” praticamente nasceram junto com a democracia americana.

Nas primeiras décadas da República, enquanto a geração dos founding fathers estava viva, as acusações aos candidatos presidenciais não eram tão pesadas. O presidente John Adams, acima do peso, era tratado pelos pasquins de oposição como His Rotundity. Frequentemente era chamado de desdentado e careca. Mas as eleições tinham uma dimensão muito restrita, pois apenas os mais ricos e protestantes votavam e não era muito cavalheiresco atingir a honra de candidatos presidenciais.

Então veio a eleição de 1828, um marco na história da baixaria eleitoral americana. O país já era outro: os founding fathers estavam mortos, novos estados tinham sido incorporados à União, o voto censitário havia sido praticamente extinto e as campanhas adquiriram o caráter que têm hoje. Começava a era da política de massas. Convenções partidárias, comícios, bandeiras, viagens e, claro, muita baixaria e troca de pesadas acusações pessoais.

O presidente em exercício, o refinado e poliglota John Quincy Adams (filho de John Adams) tentava a reeleição e era desafiado pelo General Andrew Jackson, um militar grosseirão e talvez o primeiro grande populista dos Estados Unidos. A campanha de Quincy Adams acusou o adversário de bigamia. Em resposta, Jackson alegou que o presidente em exercício, quando serviu como embaixador na Rússia, atuava como proxeneta do Czar! O general acabou derrotando o presidente e estabeleceu um nível de ataques difamatórios que seria o novo “padrão” das disputas eleitorais.

Na literatura, ninguém retratou melhor o lado deprimente do “espetáculo” da democracia americana do que o escritor Mark Twain (1835-1910).

Ele próprio se aventurou na política, tentando concorrer ao cargo de governador e declarando apoio a alguns candidatos presidenciais. Mas não suportou as baixezas das campanhas eleitorais e da vida partidária. A sua fracassada carreira política rendeu-lhe uma divertida coleção de crônicas, escritas entre 1867 e 1887, finalmente publicadas em nossa língua pela editora portuguesa Antígona, sob o título “Um Candidato Idôneo” (Lisboa, 2017). A coletânea é uma sátira terrível à sordidez do mundo político norte-americano.

Na crônica “Um Candidato à Presidência”, Twain imagina um postulante “supersincero”, que para escapar de eventuais acusações na campanha eleitoral se antecipa e profere um discurso de lançamento da candidatura revelando todos os seus malfeitos. O resultado é engraçadíssimo:

Estou praticamente decidido a concorrer a presidência. O que o país quer é um candidato que não se deixe ferir por investigações ao seu passado, para que aos inimigos do partido seja impossível desencantar uma história que não seja já de todos conhecida. Se, à partida, se souber o pior acerca de um candidato, todas as tentativas de o surpreender serão derrotadas. Eu vou entrar em jogo como um livro aberto. Vou assumir à cabeça todas as maldades que cometi, e se algum comitê do Congresso quiser esquadrinhar a minha biografia na tentativa de descobrir alguma história obscura e vil que eu guarde escondida… faça favor, esquadrinhe à vontade.”

O candidato imaginário então revela todas as suas indignidades, desde que era criança, quando perseguia o avô reumático e o forçava a subir em uma árvore. Depois, conta como, num ato de extrema covardia durante a Guerra Civil, fugiu da heroica batalha de Gettysburg “em direção ao trópico de Câncer”. Explica que o seu princípio em matéria de finanças públicas é “amealhar tudo aquilo a que consiga deitar a mão”. Reconhece que é autêntico “o boato de que eu teria enterrado uma tia debaixo da minha videira”. Por fim, admite que não gosta dos pobres e que se pudesse os transformaria em salsichas para os canibais…

Na crônica “Minha Candidatura a Governador”, Twain tenta explicar bizarramente como a imprensa marrom conseguiu lhe pespegar, como candidato, apelidos terríveis como “Infame Perjuro”, “Enxovalha-Defuntos”, “Delirium Tremens”, “Corrupto Imoral”, “Subornador Repugnante” e “Ladrão de Montana”.  Quanto a esse último, que lhe causa mais revolta, o escritor quer demonstrar ao leitor que nunca esteve em Montana e o efeito é hilário.

Em novembro, os americanos vão às urnas escolher o próximo presidente e já devem estar preparando o estômago para os ataques brutais e impiedosos típicos da política em seu país. Donald Trump, é bom lembrar, já foi acusado de estupro, assédio sexual e de dizer que gosta de “agarrar as mulheres pela xoxota”. Muitos também lembrarão dessa vez a sua longa amizade com o bilionário pedófilo Jeffrey Epstein, que se suicidou em agosto passado numa prisão enquanto aguardava julgamento. E ainda pesam contra ele denúncias de fraudes empresariais, sonegação fiscal, intimidação de testemunhas e contratação ilegal de imigrantes.

Sabedouro da tempestade de acusações que deve enfrentar na eleição de 2020, Trump investiu pesado em descobrir os “podres” do seu adversário potencialmente mais perigoso, Joe Biden. Usou o serviço diplomático americano e recursos do Estado para pressionar o governo ucraniano a investigar contratos duvidosos do filho de Biden naquele país.  Foi isso que resultou no atual processo de impeachment, que possivelmente deve ser rejeitado, pelo domínio do Partido Republicano no Senado. Resta saber o quanto isso tudo pesará na decisão do eleitor, já tão acostumado ao lamaçal fétido da política americana. Vamos e venhamos, nem a mente fértil e genial de Mark Twain imaginou que a coisa pudesse chegar a esse ponto.


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