Opinião & Análise

Michel Temer

Um tsunami contratado?

Quem sobreviverá aos tornados; quem, ao final, será resgatado dos escombros?

Para quem acreditava que os males do país se resumiam aos personagens do PT, deve ser decepcionante perceber que o buraco e os problemas são bem mais profundos, complexos e resistentes. A presidência de Michel Temer ameniza a crise crônica que, com Dilma, se mantinha em estado mais crítico, mas não a corrige. A grande confusão estrutural em que o Brasil se encontra – sim, em grande medida, por inépcia dos governos do PT –, tem momentos de oscilação: às vezes apenas parece que vai piorar e, às vezes, piora de verdade.

O certo é que a turbulência tende a ir longe; os sinais das últimas semanas não são promissores: 1) a economia patina, dependendo do suporte da política, incapaz de resolver seu próprio labirinto; 2) nos próximos dias, espera-se um forte deslocamento de terra vindo das bandas da Lava Jato; 3) os políticos tentam inventar algum tipo de anistia, mas é possível que sejam soterrados antes do difícil consenso que buscam; 4) a Lava Jato, aliás, já transborda para outros escândalos, operações e prisões – parece haver novos Sérgios Moro no país. Por fim, 5) no cenário externo, a vitória eleitoral de Donald Trump, nos EUA, promete tempos de tormenta internacional.

Um tsunami estaria contratado? Difícil afirmar a dimensão de tudo o que virá pela frente. O momento pede mais perguntas que respostas. O certo é que o mal-estar resiste, o sistema político está em colapso e o governo e as lideranças do momento são insuficientes para dar mínimo controle à crise. Num ambiente tão instável, falar em futuro é uma aventura; mais apropriado é retomar o processo, compreender melhor o passado a fim de superá-lo.

Tudo se deu por meio de um grande pacto tácito em torno do desatino e pela irresponsabilidade política e fiscal; o Rio de Janeiro é apenas um exemplo distante de ser o único caso. O bom momento porque o Brasil passou na última década – o choque de commodities e os aumentos de arrecadação – foi de fato péssimo conselheiro: o Estado gastou por conta e comprometeu o futuro. A voracidade nunca se farta, é certo; ainda assim esgotou todas as provisões sem saber que durante o almoço já devorava o jantar.

Aumentos salariais, concessões no campo da Previdência pública – estaduais e municipais – créditos, renúncias fiscais, obras aos borbotões – sem foco no grande nó da logística; desvios de toda ordem, no atacado e a granel, esgotaram a galinha dos ovos de ouro. Hoje, todos choram e ninguém tem razão: governantes, empreiteiras, prestadores de serviço, legisladores, tribunais de contas, sindicatos e funcionalismo compõe o mesmo quadro de culpa e desolação. Tampouco eleitores podem ficar de fora da lista de créditos finais; foi uma obra coletiva.

A eleição de 2014 ocultou problemas, como se tudo se resolvesse pela torcida e pela fé. A discussão eleitoral, todos lembram, foi rasteira; foi chã. “Nós contra eles”, de ambos os lados e até hoje não se supera essa perniciosa bobagem – a sociedade se dividiu. A ausência da liderança política já ali se fazia notar, o maior déficit do país. O rápido segundo mandato de Dilma apenas agravou a situação, uma vez que não reconhecia erros e à medida em que a presidente e o país olharam para o abismo e o abismo lhes sorriu. Todos, ao que parecem, se encantaram por ele.  

O impeachment veio, convenhamos, menos como golpe e mais como tentativa de preencher um assustador vazio de poder e soluções. Porém, a argamassa para tapar buracos e reforçar o alicerce não é, necessariamente, de melhor qualidade. Troca-se PT por PMDB e não se tem ganho moral algum. O problema extrapola atores específicos, foi o sistema que colapsou. Muda-se governos, ministros, partidos, moscas… A base, no geral, permanece a mesma. O oco sobreviveu. O que se tem é tudo o que se tem.

Acreditava-se que as raposas do PMDB dariam conta de toda essa encrenca. Mas, mesmo sob este ponto de vista meramente operacional, a identidade peemedebista com o modelo e a dinâmica baseada nos mesmos vícios comprometem a ação e os resultados. O governo reagrupou a base e hoje sustenta 360 votos na Câmara. Ok. Mas a verdade é que carece de aglutinação que sustente a unidade, que desenrole o processo e embale o país com vistas ao futuro.

O que fará Michel Temer e seus operadores quando torrarem o último cargo do espólio do PT e, ainda assim, a voracidade fisiológica nem por isso cessar?

Fora do âmbito da equipe econômica, a área política é pródiga convescotes, jantares, almoços, rodeios e cascatas. Todavia, não há qualidade de comunicação, habilidade para olhar para a lente da câmera alertar da gravidade da situação como quem diz “já era, é necessário recomeçar”.

Seria necessário demarcar um ponto de inflexão — desolador, mas inevitável — de onde se encontra novo fluxo de vida; uma espécie de “sangue, suor e lágrimas”. Mas, o país não tem o luxo  de um Churchill para chamar de seu.

O presidente — cortês, formal e anacrônico –, na roda viva, à espera do tsunami, é inalterável por demais. Estupefata letargia ou haveria aí uma réstia de sabedoria escondida? Normalmente, de onde nada se espera é mesmo de onde nada vem. O país vive espera. Espera pelo quê?

Especulações de tramas e megadelações avivam ainda mais a sensação de que o tsunami vem por aí. A tudo se teme, a começar pela integridade dos “paus de barraca”, dos articuladores do governo, das vestais da República, de todo o sistema político. Quem será varrido pela tormenta; o que será feito de Lula; e o muro dos tucanos, resistirá? Quem sobreviverá aos tornados; quem, ao final, será resgatado dos escombros?

Corpos já são atirados ao mar: eis Anthony Garotinho e Sérgio Cabral fazendo par a Antônio Palocci e a José Dirceu, que repousam jaz nas profundezas de outro sistema. Se tudo é possível, o tempo dirá. Nas próximas semanas, o país saberá o que foi sem saber, no entanto, o que ainda será: o futuro continuará incerto, pois, tudo poderá ser. (Já chove: melhor recolher a roupa do varal, fechar janelas e providenciar velas; oxalá, seja apenas um temporal).


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