Opinião & Análise

Lava Jato

Dissonância cognitiva nacional

O governo é um terço ação, um terço paralisia, e um terço equívoco e falação

Brasília- DF 27-10-2016 Presidente Temer durante Cerimônia de Lançamento do Mutirão da Renegociação e Sanção de Leis referentes ao Supersimples e ao Salão- Parceiro2016 Foto Lula Marques / AGPT

A percepção é coisa vaga, um sentimento, um grilo, uma comichão; a apenas percebida emanação de um cismar. O cheiro de queimado que se espalha, alerta e assusta. O pressentimento do bem ou do mal que ainda não veio e que ninguém poderá afirmar que, realmente, ocorrerá. Mesmo assim, um sentido que desperta a ação, às vezes a fuga, e antecipa o fato. Profecia que se auto realiza; tensão que dissemina agonia à espera de que alguém grite “fogo!”.

Tem sido este o clima do país nas últimas semanas. Reflexo de um sem-número de especulações sobre o futuro de sua política, dos medos e dos vazamentos de um condomínio em crise; das descobertas de novos envolvidos em falcatruas, da suspeita de transbordamento de outras tantas desgraças que ainda mais possam afetar a tal República.

No seu papel, o governo tenta se manter frio, sorrir o riso amarelo da confiança protocolar; espalhar otimismo como pó de pirlim-pim-pim. Afiança que o pior passou, que nova fase já começou. Até mesmo o Presidente, sem muito jeito, sai do formalismo, afrouxa a gravata, abandona as mesóclises e tenta convencer que logo mais ali tudo o mais se ajeita.

Com efeito, o governo Temer até que marcou seus gols; foram feitos inegavelmente importantes. Não custa repetir: formou respeitável equipe econômica e fez boas escolhas também no Banco Central, na Petrobrás, no BNDES. Além disso, pelejou e conseguiu a aprovação – na Câmara, já em segundo turno – da PEC 241, a Emenda dos Gastos Públicos, que tende a mudar a lógica do orçamento público nacional.

Para facilitar sua vida, sem povo e sem voto, o PT é página virada; Michel Temer não tem mais o grande e poderoso antagonista que o PT prometia ser. O partido está só, consumindo as próprias tripas. Até por isso, o céu deveria ser de brigadeiro: agentes econômicos, afinal, apoiam a agenda de reformas, com a qual a mídia é relativamente simpática. No mais, a pasmaceira é geral; a indignação seletiva remeteu os revoltados de volta às suas poltronas.

Em tese, tudo deveria estar indo bem – bem melhor, pelo menos. Mas nada parece suficiente: a percepção estranha a calmaria e se prepara para nova borrasca. São muitos os poréns. O governo é um terço ação, um terço paralisia, e um terço equívoco e falação. O país não deslancha, precisa da continuidade das reformas; os números patinam, a recuperação não vem ou vem lenta demais, quase imperceptível. Somente os fantasmas e erros é que ganham ritmo.

Desde o final do primeiro mandato de Dilma Rousseff, percebe-se que o governo federal não precisa de oposição; à mercê da sorte, afunda por si próprio e pelas circunstâncias que o rodeiam e  asfixiam — variáveis que o próprio governo cria, e que o pressionam.

Uma delas é a questão da reforma do ensino médio: sem entrar no mérito das mudanças que propõe, seria este o momento para reavivar o romantismo de movimentos estudantis; despertar novos tipos de militância e fazer vítimas juvenis? Em política, abrir frentes simultâneas de conflito é erro crasso. Falta tudo, mas ao governo falta, sobretudo, coordenação.

A Lava Jato é outro exemplo de variável que deprime e angustia a percepção do que ainda há de vir pelas veredas da política, nestes anos de dureza. A dissonância de vozes de acusados, advogados, juízes e promotores —  fontes da mídia — indica que as estruturas da República podem tremer. Será que podem? Rapidamente, uma epidemia de especulações se espalha: sem que se saiba exatamente o porquê; cogita-se que ministros, parlamentares e até o presidente não resistirão às delações da Odebrecht e à fúria meticulosa de Eduardo Cunha.

A febre especulativa espalha-se pelo mundo político; jornalistas, áulicos e videntes de todos os tipos – todos aflitos — dão tratos à bola e entregam-se à fantasias: inoportuna e precipitadamente, surgem nomes para uma eleição presidencial, extemporânea e indireta, que ninguém sabe se virá ou porque viria. Apenas se desconfia.

A habilidade, o engenho e a arte da política, ao que parece, tiraram férias do Brasil. Para dar conta de tantas variáveis – todas bem complexas, que deixam a equação em aberto e o país sem solução – parece ter sobrado apenas estagiários, com soluções tipo “anistiar o Caixa 2” – uma gambiarra que não passará desapercebida. É um mundo dos amadores.

Claro, isto resvala nas reformas. No Congresso, há uma parte de pragmáticos que quer avançar; fugir para frente. Mas, há outra, de imobilizados em pânico, desesperados, exigindo a proteção que o governo é incapaz de dar. E ainda mais uma: a de aproveitadores que, sem receio ou constrangimento, aumentam os preços. Fragiliza-se, evidentemente, o governo; a algaravia retira o país do foco.

O debate nacional deriva, assim, por essas sombras, perdendo o timing do que precisa ser feito. A dissonância deixa de ser apenas “de vozes”, de “algumas vozes”; torna-se nacional e cognitiva. O tom dramático da crise – o país, de fato, quebrou – se engata na perspectiva do mexerico. Ninguém indica exatamente por onde ir – e já não é qualquer caminho que sirva. Falta coordenação, controle, direção. Enfim, lideranças — no plural.


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