Opinião & Análise

Lava Jato

O Mecanismo: a corrupção em todos os âmbitos

Série de José Padilha e Elena Soárez traz retrato da corrupção em uma história fictícia, mas bem realista

Divulgação

Não gosto muito de comparar obras de um mesmo diretor, pois cada uma é única. No entanto, cada diretor tem seu jeitinho de conduzir uma história e essa assinatura está presente em suas obras. Por isso, não há como começar a ver “O Mecanismo”, nova atração da Netflix e inspirada na Operação Lava Jato, sem esperar algo familiar. Então, imagine uma atração policial assinada por José Padilha, mas sem a truculência de “Tropa de Elite”. Agora tente visualizar uma série de Padilha, que não é totalmente ficcional, mas também não chega a ser um docudrama como “Narcos”. Pois bem, a nova série da Netflix circula nesses dois universos, ora dançando coladinho com Pablo Escobar, ora ensaiando alguns passos com o Capitão Nascimento. Mas não falo aqui da violência, mas da narrativa, da desesperança, do crime no alto escalão.

Claro que uma história sobre a Operação Lava Jato não tem como ser muito dinâmica e, em “O Mecanismo”, o grande desafio do espectador é passar pelo primeiro episódio. Não que ele seja ruim (pois não é), mas é difícil acompanhá-lo pela complexidade do tema. Obviamente é muito mais rápido responder a um ato de violência explícita do que a um crime financeiro. Mesmo quando se trata de dinheiro público.

A roteirista Elena Soárez (“Cidade dos Homens” e “Filhos do Carnaval”) optou por contar essa história de corrupção valendo-se do ângulo dos dois personagens principais, os policiais federais Marco Ruffo (Selton Mello) e Verena Cardoni (Caroline Abras, em personagem inspirado na delegada Erika Mialik Marena). No episódio que abre a temporada, esse recurso cansa um pouco o espectador por ser muito utilizado para explicar a trama.

Tudo começa em 2003 e o espectador acompanha a investigação chefiada por Ruffo dos negócios ilícitos do doleiro Roberto Ibrahim (Enrique Diaz). Qualquer coincidência com o doleiro Alberto Youssef não é mera coincidência. Um aviso na tela deixa claro: “Este programa é uma obra de ficção inspirada livremente em fatos reais. Personagens, situações e outros elementos foram adaptados para efeito dramático.” Outra informação que fica clara, na fala da policial Verena Cardoni é a questão da impunidade em relação aos crimes de corrupção neste País. “O Mecanismo” é baseado na obra “Lava Jato: O Juiz Sérgio Moro e os Bastidores da Operação que Abalou o Brasil”, de Vladimir Netto. Moro, aliás, é retratado na ficção como juiz Paulo Riggo e interpretado pelo ator Otto Jr.

+JOTAEssa é uma obra de ficção: quem chiou com o ‘O Mecanismo’ precisa saber que a série não é jornalismo, mas diversão

De 2003, a série salta para 2013, quando uma conversa interceptada pela polícia federal revela que Ibrahim ainda está operando e lavando dinheiro para peixe grande. Seguindo os passos do doleiro, os policiais chegam a João Pedro Rangel, diretor da Petrobrasil, a maior estatal do País. Juntos, Ibrahim e João Pedro desviavam dinheiro que entrava na empresa para diversos políticos. Ao aceitar um carro Land Rover Evoque do doleiro, o diretor também se torna alvo da investigação policial. Na vida real, isso também aconteceu e o ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás, Paulo Roberto Costa, foi um dos primeiros presos pela Operação Lava Jato. O carro em questão era exatamente o mesmo.

O terceiro capítulo da série mostra como se deu a coordenação da operação em Curitiba que prendeu simultaneamente no Rio, Brasília e São Paulo, alguns envolvidos no esquema de corrupção, entre eles, Ibrahim e Rangel. A partir daí, a série aborda o cerco aos acusados, a pressão em cima dos políticos de situação e oposição, as resoluções de juízes e promotores e, principalmente, o início dos acordos de delação premiada. Também mostra o envolvimento de grandes empreiteiras e empresas, como a Odebrecht e a JBS – que tiveram seus nomes mudados para Miller e Bretch e JBR – no esquema criminoso.

Interessante ouvir, na fala do personagem Pedro Paulo Rangel durante entrevista com a polícia, onde toda a corrupção no Brasil começou. Sim, foi lá em 1808, com a vinda do Rei João VI para o Brasil. E, em seu depoimento Ibrahim envolve todo o alto escalão de Brasília no esquema de corrupção: Casa Civil, outros ministérios e até a Presidência da República. E adivinhem? A delação de Ibrahim “vaza” para a maior revista do País numa tentativa de enterrar a Lava Jato e a investigação policial acaba virando uma disputa política.

Ao fim, a operação que começou com apenas três pessoas, reuniu 300 policiais para cumprir dezenas de prisões em todo o território nacional. E a Lava Jato trouxe à luz o que há muito acontece no nosso País debaixo dos panos: a corrupção em todos os âmbitos, independentemente de partido político, de ser situação ou oposição. Corrupção que desvia dinheiro público para encher os bolsos de quem deveria zelar por ele.


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