Opinião & Análise

Mindhunter é parada obrigatória

Série mostra trabalho de pesquisa para a classificação de assassinos em série nos anos 1970

Lá atrás, em 2005, quando o grupo Sony trouxe “Criminal Minds” para o Brasil, entrei em contato com o universo das análises comportamentais de criminosos e, dois anos mais tarde, quando “Dexter” chegou aqui pelo grupo Fox, passei a ler muita informação sobre serial killers por causa das muitas reportagens e artigos que escrevi sobre a série da Showtime, nos 8 anos em que ela esteve no ar. Lembro-me que, logo que anunciou a estreia de “Dexter”, a Fox me apresentou à expert Ilana Casoy, autora dos livros “Serial Killer: Louco ou Cruel?” e “Serial Killers: Made in Brazil”, entre outros.

O papo com Ilana foi interessantíssimo. O assunto é fascinante, claro, por abordar a mente humana. E o mais curioso foi perceber que, em todos os anos de “Dexter” e de “Criminal Minds”, nunca me ocorreu pesquisar o começo disso tudo, até o momento em que assisti ao primeiro episódio de “Mindhunter”, série que a Netflix estreou neste mês e já tem sua segunda temporada garantida. E, se a história real dos dois detetives que conseguiram classificar os comportamentos de assassinos violentos e predadores sexuais já é bem interessante e ousada, imagine vê-la romantizada pelas mãos de um bom roteirista e colocada na tela por um nome como David Fincher – de “O Curioso Caso de Benjamin Button” e “Clube da Luta” –, que abordou os serial killers nos filmes “Zodíaco” e “Seven”.

A primeira temporada de “Mindhunter”, com dez episódios, é simplesmente sensacional. A atração segue os agentes do FBI Holden Ford (Jonathan Groff) e Bill Tench (Holt McCallany) que, nos anos 1970, iniciam uma cruzada na Unidade de Análise Comportamental para classificar os assassinos violentos para ajudar na captura desses criminosos e, quem sabe até prevenir crimes. Os personagens são baseados nos agentes John E. Douglas e Robert K. Ressler que escreveram os livros “Sexual Crime: Patterns and Motives” e “Crime Classification Manual”, a “Bíblia” da análise forense até hoje. Douglas já foi fonte de inspiração para outros personagens da ficção como os agentes David Rossi (Joe Mantegna) e Aaron Hotchner (Thomas Gibson) de “Criminal Minds”.

O “Manual de Classificação de Crimes” é construído por meio de entrevistas com os mais notórios assassinos americanos como Ted Bundy, David Berkowitz, Charles Manson, Edmund Kemper, entre outros. A atração mostra esse trabalho de entrevistas aos assassinos em série – termo primeiramente usado por Ressler – e a criação dessas duas obras em parceria com a psicóloga Ann Burgess que, na ficção, ganha o nome de Wendy Carr e é interpretada por Anna Torv (de “Fringe”).

Na série, Holden Ford, um agente do FBI especialista em negociação com criminosos quando há situação com reféns, vai a Quantico dar aulas e se depara com a Unidade de Análise Comportamental, onde conhece o agente Bill Tench. Juntos, eles começam a desafiar algumas regras do FBI na tentativa de traçar o perfil psicológico de criminosos violentos. O trabalho, que começa de forma quase amadora, começa a ganhar força à medida que a dupla começa a aplicar os novos conhecimentos para ajudar policiais a desvendarem crimes. Na contramão do que acontece nas séries policiais, a solução dos crimes não é o que mais se destaca. As investigações são apenas um tempero usado para comprovar, ou não, as teorias dos agentes.

Além deste, outros temperos são usados para apimentar a trama, que foca também na vida pessoal de Holden e Bill e mostra como trabalhar com um tema tão pesado afeta suas vidas. Holden não tem nem 30 anos. Ele tem uma namorada universitária libertária, mas ele próprio é bem careta. Já Bill é um homem mais velho, casado, que adotou uma criança. O problema é que o filho adotivo não tem um comportamento considerado padrão. Entrevistar serial killers e lidar com crimes tão violentos causa uma mudança na vida dos dois de forma irreversível. Até porque Holden se deixa envolver por esses assassinos de forma imprevisível, por tentar falar a língua deles. Ele se aproxima demais e essa ligação causa problemas em sua vida pessoal e, principalmente na vida profissional. Qual é o limite?

“Mindhunter” não é uma série de ação nem de suspense. Ela tem momentos de tensão, mas trata-se de um drama policial. Ao terminar os dez episódios que compõem a primeira temporada, o espectador não vê a hora de continuar. Os personagens, bem construídos que são, entram na vida de quem assiste e causam profunda impressão. Impossível não se envolver na vida desses dois homens. Impossível não ficar intrigado com o que se passa na cabeça da doutora Wendy Carr. O roteiro é intrigante e a direção de Fincher nos dá a dimensão da complexidade do tema e da seriedade e cuidado com o qual ele é abordado.

Que venha a segunda temporada! Mas que venha logo, por favor!


Cadastre-se e leia 10 matérias/mês de graça e receba conteúdo especializado

Cadastro Gratuito