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Livre-arbítrio é a nossa única escolha?

Quando os algoritmos escolhem por nós

Arte fractal. Imagem: Pixabay

Você escolheu o que vestir. Escolheu o que comer. Escolheu como realizaria o trajeto entre sua casa e o trabalho. Talvez esteja, neste momento, escolhendo o que irá fazer depois de ler este artigo. Somos criaturas de fazer escolhas e somos criaturas dos quereres. Será?

Temos livre-arbítrio?

Poderíamos aproveitar nossa liberdade de decisões e passar o resto de nossas vidas dialogando se realmente somos livres para tanto ou se algo nos condicionou para que parássemos tudo e nos dedicássemos integralmente para essa discussão.

A pergunta se há ou não livre-arbítrio é velha. Ainda, a questão ganha ares restritos quando o debate é se o mundo é de natureza determinística ou probabilística, abrindo pouco espaço para que o mundo seja aquilo que o humano opta. Em um mundo determinista, os eventos do passado determinam completamente os resultados de todos os eventos no presente e no futuro. Por outro lado, se o mundo é probabilístico, pelo menos alguns resultados de eventos atuais não são nem determinados nem causados ​​por eventos no passado.

O determinismo é o inimigo livre-arbítrio: há mais de 2.000 anos atrás, Epicuro se sentiu obrigado a emendar o determinismo do quadro atômico de Demócrito adicionando um ocasional desvio probabilístico ao movimento dos átomos, em parte para preservar a liberdade da vontade.

Séculos mais tarde, entre XVII até XX, a maioria dos cientistas sustentavam que o mundo era determinista, como um espelho de todas as leis da física conhecidas (como as de Newton e as equações de Maxwell) expressas em termos de equações diferenciais determinísticas. Nestas teorias, o comportamento aparentemente probabilístico surge da falta de conhecimento. O Demônio de Laplace, por sua vez, é forte porque possui conhecimento exato do passado, e apoiando-se na física determinista, usa as leis da física para prever o futuro inteiro.

Depois, em contraste com a mecânica clássica, emergiu no início do século XX a teoria da mecânica quântica, como estrutura física fundamental, e a ideia do mundo como intrinsecamente probabilístico. Apesar de Deus não jogar com dados [1], o experimento e a teoria confirmaram repetidamente a natureza probabilística dos eventos na mecânica quântica.

Seriam então as decisões “livres” simplesmente porque são probabilísticas? Lançar uma moeda para tomar uma decisão é normalmente a apelação dos decisores que são incapazes de tomar a decisão em si: o resultado do sorteio determina a decisão, não você. Com o passar do século XX, ficou claro que apenas adicionar aleatoriedade não resolvia o problema da dicotomia.

Atualmente, o problema do problema do livre-arbítrio parece ser menos uma questão do determinismo versus probabilidade, mas a necessidade existência de uma descrição mecanicista do sistema que está tomando a decisão. Talvez, uma simulação computacional. Neste momento, somos entendidos como uma máquina que segue a relações de causalidade necessárias, automáticas e previsíveis, constituídas pelo movimento e interação de corpos materiais no espaço.

No entanto, independente do fato de possuirmos (ou não) livre-arbítrio, nós ainda somos moralmente responsáveis por nossas escolhas e ações.

Mas, por que nos sentimos livres?

Como resultado desses dois teoremas, a sensação de que nossas decisões são indeterminadas ou livres é totalmente natural. Mesmo que nossas decisões sejam determinadas de antemão, nós mesmos não podemos prevê-las.

Além do mais, qualquer um que deseje prever nossas decisões tem que colocar, em média, pelo menos tanto esforço computacional como o fazemos para chegar a nós mesmos.

Quem escolheu: você ou o algoritmo?

Já deve ter acontecido com você: um simples comentário ou pesquisa sobre algo virou um bombardeio de informações sobre por todas as páginas que acessou e em e-mails que recebeu. Pode ser uma breve consulta no valor de passagens para Fortaleza que virou uma chuva de promoções por todos os cantos da internet ou a busca sobre um tema que foi capaz de te colocar em um Complexo Baader-Meinhof [2].

Considere estes fatos: 80% das horas de exibição transmitidas no Netflix se originam de recomendações automatizadas. [3] 35% das vendas na Amazon se originam de recomendações automatizadas [4]. E a grande maioria dos jogos em aplicativos de namoro como o Tinder são iniciados por algoritmos. Dados esses números, muitos de nós claramente não têm a liberdade de escolha que acreditamos que fazemos.

Outra razão pela qual não estamos verdadeiramente no controle de nossas escolhas é que estamos vendo apenas uma pequena fração de todas as informações potencialmente relevantes disponíveis. Imagine o tamanho da lista se uma busca retornasse todos os hotéis de São Paulo ou pessoas solteiras no raio de 20 km interessadas em um relacionamento! A ilusão de escolha é restringida ao pequeno universo de dados selecionados por compatibilidade com nossos perfis. O fato é que 99% de todas as alternativas possíveis foram excluídas para aquele 1% que nos parece útil.

Além disso, muitos de nós experimentamos uma câmara de eco. Apesar das manifestações políticas adversas à nossas próprias posições e que eventualmente aparecem no nosso feed, a proporção de posições equivalentes nos dá a sensação de serem maiores.

Também, estamos inseridos numa cultura de gamificação e prazer instantâneo, e com um medo estranho de perder qualquer momento. Somos notificados e recebemos com rejubilo uma nova curtida e caímos na armadilha de dizer que será o último vídeo, mas a próxima música é justamente daquela banda que gostamos, logo após dez segundos de propaganda de um produto ou serviço que, curiosamente, é de nosso espectro de interesse.

A razão pela qual esse comportamento é tão comum, como alguns designers de produtos notaram, é que abordagens populares de design – como o uso de notificações e gamificação para aumentar o engajamento do usuário – exploram e amplificam vulnerabilidades humanas, como nossa necessidade de aprovação social ou nossa incapacidade para resistir à gratificação imediata. Ou seja, tantas escolhas livres não passam de uma indução.

Enquanto a conjunção de algoritmos e o grande volume de dados podem nos guiar para escolhas melhores, inclusive prevenindo doenças e desastres, mas podem gradualmente assumir nossas vidas e controle, substituindo o que entendemos por livre-arbítrio e a intuição. A busca pelo minimax fará com que cada indivíduo tente otimizar suas escolhas, minimizando as chances de falha, maximizando a assertividade e, de alguma forma, tirando o esplendor de experimentar algo novo pelo acaso do erro. Como sintetizou Kundera em A Insustentável Leveza do Ser, a beleza é, de alguma forma, um erro.

O livre-arbítrio (ou seja lá aquilo que temos) é um direito?

Com a chegada da Lei Geral de Proteção de Dados, conceder -ou não- os nossos dados para uma análise automatizada é opção nossa. Sem consentimento não há análise e temos também o direito a solicitar a revisão de decisões tomadas unicamente com base em tratamento automatizado de dados pessoais.

Porém, nem a LGPD, nem outras regulações sobre proteções de dados pelo mundo, possuem uma previsão do quanto as decisões tomadas podem afetar nossa vida. Se consentimos com a presença delas, não importa o número. Não há nada que impeça que moldem nossas vidas, até porque, se há consentimento, seria uma espécie do usufruto de nossa liberdade de delegar que tomem uma decisão por nós, o que é algo confuso: muitos não sabem -ou sequer percebem- os impactos dos algoritmos e, que após a primeira decisão de permitir o controle de um algoritmo, podemos causar uma espécie de suicídio de Camus nas decisões seguintes: não vamos tê-las. Não argumentaremos sobre elas. Serão tomadas por nós porque puxamos o gatilho contra nós mesmos e tudo que ocorrer depois, ocorrerá em um momento que estaremos “mortos” para a tomada de decisão.

As discussões sobre o que é “livre-arbítrio” podem não nos levar à uma conclusão ou fazer com que constatemos de que é uma ilusão. Neste contexto, é muito difícil declarar que algo tênue é um “direito humano natural”, por exemplo.

No entanto, se pensarmos em direitos humanos, as coisas são um pouco diferentes. Se definirmos direitos humanos como aqueles que abrangem todos nós, independente de nossas origens, gênero e opções, então um dos mais fundamentais é o direito de fazer nossas próprias escolhas sobre o que fazemos e quem fazemos. É a liberdade pessoal. E que também está coberta pelo celebrado artigo 5º da Constituição Federal.

Olhe ao teu redor e pergunte o que impulsiona suas vontades e escolhas. Exceto se você for um neoludita -e, neste caso, não sei como está lendo este texto- os algoritmos estão organizando tua vida silenciosamente. E não necessariamente tomar decisões rápidas e assertivas seja algo sempre positivo. O livre-arbítrio pode até ser uma ilusão, mas o direito de exercer essa ilusão é um direito humano básico.

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[1] Albert Einstein.

[2] https://www.dw.com/pt-br/complexo-baader-meinhof-%C3%A9-visto-por-autor-como-reprodu%C3%A7%C3%A3o-da-realidade/a-3657225

[3] https://mobilesyrup.com/2017/08/22/80-percent-netflix-shows-discovered-recommendation/

[4] https://www.forbes.com/sites/blakemorgan/2018/07/16/how-amazon-has-re-organized-around-artificial-intelligence-and-machine-learning/#16904aa47361


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