Opinião & Análise

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Ruas cheias e espaço político vazio

Para 2022, se Bolsonaro cai e Lula não sobe, quem ganha?

Bolsonaro
Manifestação a favor do governo Bolsonaro na Esplanada dos Ministérios / Crédito: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Nem bem o mês de maio do primeiro ano do governo de Jair Bolsonaro terminou e os dois grupos mais aguerridos da política brasileira já tomaram as ruas. Em tempos normais, tudo isso seria precoce. Mas os tempos não são normais. O país vive a continuidade de um filme iniciado em junho de 2013, quando as ruas tomaram corpo e passaram a ocupar o cotidiano e desfizeram, aos poucos, a balança de poder da política brasileira. O equilíbrio desde então é absolutamente instável.

O fato é que hoje há dois lados que reivindicam posse sobre as multidões nas ruas. A oposição social que foi às ruas em 15 de maio garante que representa a maioria da população; o governismo que ocupou as avenidas igualmente crê expressar a voz do povo. O presidente Jair Bolsonaro, evidentemente, vê no primeiro grupo manipulação e militância; no segundo, espontaneidade e expressão da democracia. Sua empolgada releitura do 26 de maio induz a crer que a sociedade está ao seu lado.

É bem possível que Bolsonaro esteja errado nas duas pontas. Afinal, presidentes da República jogam de acordo com seus interesses e não cabem no módulo analítico. Idem para a oposição. A guerra de versões e narrativas está dada; as disputas pela paternidade e legitimidade das ruas é inevitável. Mas o ponto não é esse: ninguém comanda as ruas.

A questão realmente importante é o que isso representa e quem, no médio prazo, pode se favorecer das circunstâncias. São vários elementos que merecem consideração.

Em primeiro lugar, é fundamental olhar e compreender aqueles que não foram às ruas, nem num caso como no outro. Formam a tal “maioria silenciosa”, hoje sem os canais de intermediação de partidos e sindicatos. O mais provável é que não se sintam representados nem por uns quanto por outros.

À parte disto, sofrem todos os problemas que afligem o país: o desemprego, a deterioração das relações do mundo do trabalho, a queda de renda, a insegurança pública. Há desalento e descrença; poucos revelam esperanças na capacidade de recuperação econômica no curto prazo. Em virtude disto, pesquisas demonstram que a popularidade do presidente Bolsonaro, eleito a meros seis meses – em que pese seus militantes nas ruas — cai acentuadamente.

As manifestações de 26 de maio e, mais, a releitura otimista que o bolsonarismo faz e ainda fará delas têm por objetivo reavivar um clima de otimismo; pelo menos a impressão de que Jair Bolsonaro ainda representa a maioria que lhe deu a vitória eleitoral e, quem sabe, colocar um calço em sua popularidade. Algo que iniba a queda continuada e quem sabe possa produzir alguma recuperação.
Esse processo está em curso. Conseguirá a narrativa direitista inverter as curvas de popularidade?

É possível que isto seja muito pouco, quase nada, se a crise política não cessar, se o governo continuar emaranhado nas teias de suas confusões, se a economia não demonstrar resultados rápidos, se a sensação de bem-estar não der algum sinal de ânimo. Como se sabe, propaganda não basta; bater palmas não faz com que o carro ande, é preciso combustível.

Assim, penso que serão as medições de popularidade – muito mais que as ruas – que darão o tom da racionalidade e do cálculo político no Congresso Nacional nos próximos meses.

Recentemente, alguma dessas pesquisas apontava que a queda na popularidade de Jair Bolsonaro não implicava no fortalecimento de seu antípoda por excelência, o ex-presidente Lula. Lula e o PT continuam no labirinto particular em que se meteram; o ex-presidente, ao contrário do que ainda podia expressar em 2018, não parece mais alternativa para 2022. Tampouco, o PT parece ter um quadro à sua altura para colocar no lugar.

De modo que se Bolsonaro cai e Lula não sobe, quem ganha?

O Congresso Nacional desde sempre funciona embalado por projetos de poder, agora e mais adiante: conquistar e manter o poder num processo continuado. Foi assim com FHC, em 1996 – o que fez com se implantasse a reeleição — e foi assim com Lula, em 2002.

Mas, hoje, quem seria capaz de expressar alternativas já em 2020, nas eleições municipais, com vistas a 2022? Quem, por seu potencial político-eleitoral e por sua capacidade de articulação, seria capaz de aglutinar na sociedade e no Congresso setores desgarrados?

Difícil afirmar desde já, embora já existam postulantes: João Doria, Rodrigo Maia, Luciano Huck e Ciro Gomes, de um modo ou de outro, já se mobilizam e buscam se dissociar tanto de Bolsonaro e do bolsonarismo quanto do PT. Expressar, assim, a possibilidade de diálogos ao centro, expandindo-o.

De fato, parece haver um espaço amplo para que se afirme um novo campo – não mais sob o controle do MDB – com capacidade de reordenar as forças políticas na Câmara e no Senado. O movimento não está maduro por vários motivos, mas principalmente porque ainda não definiu um rosto. Ainda que os partidários de Jair Bolsonaro colaborem bastante para deixar Rodrigo Maia em evidência, está indefinido.

Será esse reordenamento, tão logo se configure, que dará o tom da política. Uma força autônoma, na Câmara e no Senado, se impondo no parlamento ao mesmo tempo em que buscará referências na sociedade, de modo a se consolidar como alternativa de uma nova hegemonia. Tão estável e perene quanto PT e PSDB, como os conhecemos um dia, já não são; mais capazes do que Jair Bolsonaro jamais conseguiu expressar. O tempo dirá. Mas, é bom ficar de olho.


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