Justiça

12 tiros

Juiz encerra ação após funcionário ser morto em suposta encomenda do ex-patrão

Magistrado rechaça discurso contra direitos dos trabalhadores e questiona barbárie

Foto: reprodução Youtube

Uma ação trabalhista acabou em tragédia em São Leopoldo (RS) e foi encerrada pela 4ª Vara do Trabalho local após o indiciamento da família do patrão acionado por um ex-funcionário.

O caso envolve o assassinato com 12 tiros do açougueiro Maycon Douglas dos Santos Michel, de 27 anos, em 5 de setembro do ano passado, mesmo dia da citação da ação trabalhista que o homem movia contra os proprietários do Mercado Xurupita, em São Leopoldo, que se recusaram a contratá-lo com carteira assinada.

O site Gaúcha ZH noticiou, em março, o indiciamento da família dona do mercado Xurupita pelo crime do açougueiro: o casal Delvio Pinheiro Medeiros, 63 anos, e Dede Noal Medeiros, 55 anos, e o filho Cristian Fernando Medeiros, 31 anos. A família teria pago R$ 2 mil para encomendar a morte do jovem.

O juiz trabalhista Rodrigo Trindade decidiu pela extinção do processo porque não encontrou sucessores do trabalhador assassinado para dar continuidade à ação. No despacho, o magistrado afirmou que era preciso fazer um registro pessoal da profunda consternação com a tragédia e aponta que a tragédia pode ter relação com ataques aos direitos dos trabalhadores.

“Por que chegamos nesse ponto, na barbárie? Talvez tenha a ver com o discurso recente de haver direitos demais aos trabalhadores, que os órgãos estatais responsáveis por tratar de injustiças para quem trabalha pouco servem ao país, que podem ser diminuídos ou extintos ao soprar da selvageria ideológica de ocasião”, escreveu.

“Pode ser que a violência privada esteja em um crescente em todos os ambientes nacionais, que se deve resolver na bala problemas pessoais, que a brutalidade ignorante ocupou lugares e mentes onde jamais deveria passar perto”, afirmou o magistrado.

Segundo Trindade, “pouco mudou entre este último século e temos apenas mais um folhear de página na velha cultura de sonegação dos direitos sociais. A renovação do ‘coloque-se no seu lugar’; a persistência da noção de que pobres simplesmente não afrontam ricos”.

O magistrado disse ainda que o papel da Justiça Trabalhista será contundente para reprovar injustos praticados com os Maycons dessa comunidade”.

“Há pouco ainda a se fazer nesse processo, mas é necessário o registro pessoal da profunda consternação com a tragédia, da esperança que culpados serão encontrados, julgados e condenados conforme a lei. Mas, principalmente, a renovação do comprometimento de que a Justiça, especialmente a do Trabalho, seguirá inabalavelmente voltada a reprovar os injustos praticados com os Maycons dessa comunidade”.

 


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