<> at Old Post Office on July 23, 2014 in Washington, DC.

Fake news tiveram impacto limitado nas eleições americanas

Pesquisa apontou que leitura de notícias falsas costuma ficar restrita a grupos de posição política mais extrema

No último ano, as fake news, notícias falsas disseminadas principalmente pelas redes sociais, passaram a ser vistas por parte da opinião pública como as grandes vilãs do processo político e um risco à democracia. Nos Estados Unidos, especialistas as apontaram como peça fundamental para a vitória do presidente Donald Trump nas eleições de 2016. A preocupação se espalhou mundo afora – e chegou ao Brasil. 

Um estudo da universidade norte-americana Dartmouth, elaborado por Brendan Nyhan, Andrew Guess, da Universidade Princeton, e Jason Reifler, da University de Exeter, mostra que talvez essa preocupação seja um pouco exagerada. A pesquisa, a mais completa já realizada até hoje sobre a leitura e o impacto das fake news, indica que as notícias falsas tiveram um impacto limitado sobre as últimas eleições americanas.

Eles analisaram os dados de tráfego online e respostas a questionários de mais de 2.500 americanos de outubro a novembro de 2016 – semanas finais das eleições americanas. Outras pesquisas foram baseadas apenas nas respostas das pessoas, o que deixou os resultados sujeitos à memória dos indivíduos.

Os pesquisadores identificaram, com a base de dados mais robusta até hoje, que 27,4% dos americanos acima de 18 anos visitaram ao menos uma notícia falsa durante o período do estudo. Essa proporção representa cerca de 65 milhões de eleitores do país.

Apesar disso, os autores argumentam que o consumo de notícias falsas ficou bastante focado em pessoas que se localizam nas extremidades do espectro político.

Para demonstrar isso, eles dividiram a amostra em 10 partes com base no alinhamento das pessoas a ideias conservadoras. Os 10% de pessoas mais conservadoras realizaram 65% das visitas a sites de notícias falsas pró-Trump, por exemplo.

+JOTA: Mercadores da mentira: a epidemia das notícias falsas nas redes sociais

“No total, 58,9% de todas as visitas a sites de notícias falsas (que inclui notícias falsas pró-Trump e pró-Clinton) vieram dos 10% de leitores mais conservadores”, diz o estudo.

Nos Estados Unidos, o debate sobre a influência das fake news para a eleição de Trump foi guiado por quatro fatores. Em primeiro lugar, 67% dos adultos leem notícias nas redes sociais, segundo o Pew Research Center. Além disso, as notícias falsas mais populares foram mais compartilhadas no Facebook do que as mais populares notícias da “mídia tradicional”

Some-se a isso o fato de que muitas pessoas que viram notícias falsas reportaram acreditar no conteúdo e que a maior parte do conteúdo era favorável ao atual presidente Donald Trump.

A associação destes fatos levou a uma série de sugestões de que as notícias falsas foram fundamentais para a eleição de Trump.

Essas sugestões talvez não levassem em conta o fato de que o consumo de fake news é associado à leitura voraz de notícias verdadeiras. Segundo o estudo, as notícias falsas representaram apenas 2,6% de todos os artigos lidos em sites noticiosos – sejam produtores de fake news ou veículos de imprensa tradicionais.

“O consumo de fake news parece ser um complemento, em vez de um substituto às notícias”, diz o estudo.

Facebook, o veículo

A pesquisa destaca ainda que há uma associação direta entre o uso do Facebook e o consumo de fake news. Ao dividir a amostra em três partes a partir do uso da rede social (baixo, médio ou alto), viu-se que os usuários com atividade mais intensa no Facebook representaram 62% das visitas a sites de notícias falsas pró-Trump. Esse padrão foi semelhante em páginas falsas pró-Clinton.

Outra forma de analisar o papel da rede social na veiculação de fake news foi verificar quais foram os três sites visitados por cada indivíduo imediatamente antes de acessar uma notícia falsa. 

O Facebook esteve nesta situação em 22,1% das notícias falsas acessadas. Em outras plataformas, a taxa foi bem menor: no Gmail, 6,7%; no Google, 1,9%; Twitter, 0,9%.  “Nossos resultados fornecem a evidência independente mais convincente até hoje de que o Facebook foi um vetor-chave da distribuição de notícias falsas”, ressaltam os autores. 

Na prática, o que os pesquisadores acabaram por demonstrar é que, apesar das recentes especulações sobre a influência das notícias falsas, esses conteúdos acabaram se retroalimentando em setores da sociedade americana, especialmente naqueles muito partidarizados.

Esse resultado já havia sido apontado em outro estudo, feito pelos economistas Hunt Allcott, da Universidade de Nova York, e Matthew Gentzkow, da Universidade de Stanford. A pesquisa causou alvoroço no início de 2017 ao revelar que 115 notícias falsas pró-Trump foram compartilhadas 30 milhões de vezes no Facebook.

Apesar disso, os economistas não encontraram evidências para sustentar que as notícias falsas foram fundamentais para a vitória do atuam presidente americano.

Para que as notícias falsas tivessem mudado o resultado da eleição, diz o estudo, uma única notícia falsa teria que convencer 0,7% dos eleitores e não-eleitores de Hillary Clinton a mudar os votos para Trump. Tal nível de persuasão seria equivalente ao de assistir a 36 propagandas eleitorais, no cálculo dos pesquisadores.

Checagem de fatos

Para tentar barrar o avanço das notícias falsas, a principal iniciativa da imprensa tradicional foi lançar plataformas ou se associar a agências especializadas em checagem de fatos.

Para Nyhan, Guess e Reifler, essa tentativa falhou. Segundo eles, só 25% das pessoas leram, ao menos uma vez, alguma checagem de notícia durante o período da pesquisa.

O problema, de acordo com os autores, é que nenhum dos participantes da pesquisa que caiu numa notícia falsa, leu posteriormente a checagem daqueles fatos.

Apenas metade dos americanos que acessaram notícias falsas também leram alguma verificação — que não tinham nada a ver com a fake news que eles haviam consumido.

Debate público

Apesar de não terem definido o pêndulo nas eleições dos Estados Unidos, como mostram estes estudos, a exposição às fake news – ou conteúdo similarmente duvidoso e inflamatório – pode prejudicar a qualidade do debate público, promover percepções errôneas, maior hostilidade em relação a adversários políticos e corroer a confiança no governo e no jornalismo.

“Relativamente poucos americanos estão profundamente interessados nessas extremas formas de desinformação, mas as notícias falsas são consumidas em grande quantidade e disseminadas de forma ampla nas redes sociais”, dizem os autores do estudo.

“Esses pequenos grupos podem, assim, impulsionar alegações fabricadas de suas ‘câmaras de eco’ para ampla visibilidade, potencializando a polarização e afetando negativamente candidatos opostos. Esse padrão representa um importante desenvolvimento no consumo de informações políticas”.

Mais censura

No Brasil, em dezembro do ano passado, o ministro do Supremo Tribunal Federal Luiz Fux, que presidirá o Tribunal Superior Eleitoral a partir de fevereiro, destacou a importância do combate às “fake news” na disputa eleitoral deste ano. A ideia é evitar que elas “derretam” candidaturas país afora.

Na última semana, a Polícia Federal informou que criará um grupo de trabalho com  técnicos do TSE e da Procuradoria Geral da República (PGR) para reprimir o espraiamento dessas notícias falsas.

A Folha de S. Paulo revelou também que a PF pretende apresentar uma nova legislação específica para combater as notícias falsas. Em entrevista ao jornal, o delegado federal Eugenio Coutinho Ricas, chefe da Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado, disse que a nova lei “tipificaria algumas condutas criminais, para dizer o que pode ou não ser feito” e, ao mesmo tempo, “forneceria uma ferramenta útil para o trabalho da PF.

Para Ronaldo Lemos, advogado e diretor do ITS-Rio, a abordagem sugerida pelo delegado é “absolutamente equivocada”.

“A forma ideal de se combater fake news é com mais informações. Não é possível criar mais mecanismos para supressão de conteúdo. Devemos criar formas de enriquecer o acesso à informação e deixar que cada pessoa decida por si”, afirma.

O advogado vê ainda outro problema na intenção das autoridades: a ideia de que seria atribuição do Judiciário distinguir o que é notícia e o que é fake news. “Isso é absurdo”, critica. O Judiciário, diz Lemos, deve se restringir à sua função: decidir o que é legal ou ilegal, não o que é verdade ou o que é mentira.

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