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Agrupamentos

Antipetismo aumenta apoio a Bolsonaro em 7 vezes, mostra pesquisa JOTA

Quem acredita que os direitos humanos atrapalham no combate ao crime tem 3,8 mais chances de apoiar o governo

Presidente da República, Jair Bolsonaro, durante Solenidade de Ampliação do Programa Educação Conectada nas Escolas e Comemoração do Dia da Bandeira / Crédito: Carolina Antunes/PR

O que faz o brasileiro apoiar o presidente Jair Bolsonaro ou se colocar frontalmente contra ele? Ou ainda, há um grupo de eleitores que concorda com uma parcela do que faz o governo (talvez na área econômica?), mas discorda de outras atitudes? Para tentar responder a essas perguntas e entender como o ambiente de polarização pode influenciar a política nacional, o JOTA criou uma série de 15 perguntas com o objetivo de agrupar as respostas em um índice de atitudes políticas dos brasileiros adultos. Por exemplo, a pergunta sobre o Foro de São Paulo, que faz parte da lista, não tem a intenção de medir a visão específica sobre esse tema, mas agrupar em uma lista maior de atitudes que permitam entender o que leva os brasileiros a apoiar ou não Bolsonaro.

Esse tipo de técnica é comum especialmente na Ciência Política norte-americana. As pessoas são multifacetadas, mas o que a literatura mostra é que é, sim, possível agrupar os eleitores em algumas dimensões. Isso porque existem tipos de atitudes constantes. Desde a década de 1950, pesquisadores americanos mostram que muitos eleitores são incapazes de ligar “o que vai com o que”, mantendo pouca lógica entre respostas. Mesmo assim, quando se consegue medir um número satisfatório de atitudes, padrões emergem. 

Uma dúvida comum é se a elite política influencia esses padrões (a ideia de que são os líderes políticos que fazem a população tomar certas atitudes, o que o professor Gabriel Lenz chamou de follow the leader), se os padrões dos eleitores é que modelam o comportamento dos políticos ou se há uma combinação das duas coisas. Em outras palavras, Bolsonaro influencia seus apoiadores ou são as atitudes dos apoiadores que moldam a visão do presidente?

Para fins dessa análise, as respostas consideram os dados brutos, sem qualquer ponderação ou correção da amostra coletada. O JOTA continuará a medir esses grupos nas próximas pesquisas, assim como atitudes em relação ao ex-presidente Lula. O cálculo faz parte do pacote especial para assinantes Pro Poder sobre o que esperar para 2022.

Fundamentos da técnica de agrupamento

A análise de clustering é uma técnica de aprendizado de máquina não supervisionada, na qual não existem variáveis dependentes e independentes definidas. Assim, os padrões encontrados nos dados são usados para identificar e agrupar os elementos semelhantes.

O objetivo de qualquer técnica de clustering é garantir que a distância entre os pontos de dados em um agrupamento seja muito baixa em comparação com a distância entre dois grupo. Portanto, os membros de um grupo são mais semelhantes que os membros de grupos diferentes. 

Usou-se a técnica de Cluster hierárquico divisivo: também é conhecido como DIANA (Divise Analysis) para identificar segmentos de indivíduos com base em suas respostas no suplemento de atitudes da Pesquisa Nacional JOTA.

O algoritmo iterativo DIANA e o parâmetro de validação de silhueta foram usados para classificar agrupamentos de respondentes em um número ideal de clusters com base na similaridade/dissimilaridade das respostas de cada entrevistado. 

A solução para o número de cluster encontrados nos dados é k = 3, mas visivelmente uma solução com 2 clusters também poderia ser utilizada para representar os respondentes sem muita perda de informação. Isso significa que a separação em três grupos é a mais eficiente encontrada pelo modelo de machine learning – mas a divisão em dois grandes grupos também é boa.

Figura 1: Resultado da análise de agrupamento em 2 Dimensões

Na maioria dos casos, uma melhor visualização da distribuição dos elementos em duas dimensões é alcançado plotando o mesmo gráfico em três dimensões (3D) porque aumenta a percepção da distribuição espacial dos elementos no plano. Não é possível saber exatamente o que cada dimensão representa (podemos apenas supor que petismo e antipetismo, por exemplo, é uma dessas dimensões). O importante é notar que a primeira dimensão é responsável por 26,3% da explicação na variação das respostas dos brasileiros. A segunda dimensão já tem um poder explicativo menor, de 7%.

Figura 2: Resultado da análise de agrupamento em 3 Dimensões

Atitudes em relação à esquerda e antipetismo e apoio ao governo

Nenhum tema é tão decisivo para explicar a polarização entre governo e oposição como a opinião sobre os partidos de esquerda e em especial em relação ao PT –  Partido dos Trabalhadores. Aproximadamente 38% dos respondentes na pesquisa JOTA concordaram com a afirmação: “Todos os partidos tradicionais são corruptos, mas o PT é pior”. Além disso,  quando os entrevistados eram perguntados sobre se “a incompetência do PT afundou o país”, o nível de concordância aumentava para 51,3% dos entrevistados.

Focando nos respondentes que concordaram com a afirmativa que os partidos tradicionais são corruptos, mas o PT é pior deles, a grande maioria, 69%  avaliaram o governo com os conceitos “bom/ótimo”, 14% como “regular” e outros 15% como “ruim/péssimo”. Em termos de chances,  quem concordava com essa afirmação tinha 7,5 mais chances de avaliar positivamente o governo.

Atitudes em relação a armas de fogo e apoio ao governo

O tema sobre a liberação, ou restrição, do acesso a armas de fogo para a população, é um daqueles que divide a população. A última pesquisa realizada pelo JOTA, apontou que 68,8% concorda com a afirmação que possuir uma arma de fogo representa uma ameaça à vida de outras pessoas. Porém, quando os mesmos entrevistados foram perguntados sobre se possuir uma arma legalizada deveria ser um direito do cidadão para se defender, surge uma divisão muita mais clara: apenas 46,8% concordaram com essa afirmação, outros 47,5% discordaram.

São muitos aspectos envolvendo esta discussão e uma análise também do ambiente em que essas pessoas estão inseridas seria necessária para compreender os motivos de seu posicionamento. Mas como pessoas que pensam de forma semelhante, ou oposta, sobre este tema avaliam o governo do Presidente Jair Bolsonaro?

Dos respondentes que concordaram que possuir uma arma legalizada deveria ser um direito do cidadão, a maioria, 62%  avaliaram o governo com os conceitos “bom/ótimo”, 17% como regular e outros 19% como “ruim/péssimo”. Em termos de chances, quem concordava com a afirmação tinha 6,2 mais chances de avaliar positivamente o governo do presidente Jair Bolsonaro.

Atitudes em relação a leis mais rígidas e apoio ao governo

O uso instrumental dos direitos humanos é amplamente mencionado nas redes sociais por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro como sendo um entrave às ações do estado no combate ao crime. Na pesquisa, cerca de 55,3% concordaram com a afirmação de “os direitos humanos atrapalham no combate ao crime”. O número dos que concordam sobe para 84,2% quando são chamados a opinar sobre se “precisamos punir os criminosos com mais tempo de cadeia”.  Há claramente uma aceitação mais generalizada entre os brasileiros de que mais tempo na prisão poderia impactar os níveis de violência.

Analisando os brasileiros que concordaram com a afirmação de que os direitos humanos atrapalham no combate ao crime, 56%  avaliaram o governo com os conceitos “bom/ótimo”, 16% como regular e outros 24% como “ruim/péssimo”. Em termos de chances, quem concordava com a afirmação tinha 3,8 mais chances de avaliar positivamente o governo do presidente Jair Bolsonaro.


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