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Empreendedorismo e Direito

Em 2015, 105 mil bacharéis entraram no mercado, o equivalente à soma de engenheiros e arquitetos

Em 2010[1] o número de novos estudantes de direito nos EUA chegou ao ponto máximo de 52.000. De lá para cá os números caíram para 37.000. Por que os números estão caindo se firmas prestigiosas de Wall Street como a Cravath Swaine & Moore aumentaram o salário de associados de primeiro ano para espetaculares 180.000 dólares/ano (R$ 561.998 ou R$ 47.000 por mês), conforme lembrou, indignado, um dos leitores de nossa coluna anterior?

A explicação, elaborada na coluna anterior, é uma mudança estrutural no mercado de serviços jurídicos. Desde a crise de 2008 as empresas cortaram custos o que fez com que o trabalho realizado por jovens advogados, como pesquisas jurisprudenciais e elaboração de documentos simples, fosse terceirizado para países como a Índia ou mesmo automatizado.

O aumento na concorrência levou várias faculdades a uma guerra criativa para atrair candidatos. Além de aceitar novos testes de entrada como o GRE, Harvard e outras também oferecem a possibilidade de dupla titulação MBA e direito. Outras oferecem prática jurídica em grandes cidades americanas e praticamente todas oferecem cursos de empreendedorismo.

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Uma busca no Google dos termos “law and entrepreneurship” produziu 87.5 milhões de resultados, sendo que as primeiras páginas estão repletas de ofertas sobre direito e empreendedorismo por universidades como Columbia, Michigan, Pepperdine, UPen, Chicago e até Harvard.

No Brasil a oferta de cursos de direito e empreendedorismo é bem mais tímida, mas a necessidade é maior. Com 853.211 estudantes em 1.172 cursos, Direito é a opção de ensino superior mais popular do país. Em 2015, 105.324 novos bacharéis entraram no mercado, número equivalente à soma de todos os engenheiros e arquitetos formados naquele ano[2].

Buscando sanar essa lacuna criamos um curso experimental de direito e empreendedorismo na Faculdade de Direito da UnB. A ementa (sempre em construção) da disciplina pode ser encontrada no link abaixo[3].

Montamos um curso estruturado em dois eixos: teórico, onde são apresentados estudos de casos de empresas que estão inovando o mercado jurídico (escritórios de advocacia, grandes empresas, startups) e prático, onde os alunos são desafiados a elaborar um projeto de um negócio jurídico inovador (uma legaltech).

No eixo teórico discutiremos:

1-) A abordagem da Glaxo Smith Kline para compra de serviços jurídicos[4]. A grande multinacional praticamente aboliu cobrança por hora trabalhada. A empresa centralizou todas as compras de serviços jurídicos, usa acordos alternativos de cobrança (alternative fee arrangements) em 84% de seus projetos[5] e a quase totalidade dos serviços jurídicos externos são adquiridos por meio de um leilão reverso similar ao pregão eletrônico utilizado pelo governo para adquirir produtos e serviços comuns.

2-) O caso do escritório americano Seyfarth Shaw que adotou para seus processos internos a metodologia Seis Sigma, uma técnica de padronização de processos usualmente utilizada em manufatura e divulgada pelo ex-CEO da GE Jack Welsh[6]. Quando o Seyfarth começou a utilizar padronização de processos em 2005 poucas empresas consideravam que essa abordagem funcionaria em serviços complexos como os serviços jurídicos. A abordagem teve tanto sucesso que o escritório criou uma consultoria própria para implementar a metodologia em clientes externos[7].

3-) Após discutir um grande consumidor de serviços jurídicos e um grande fornecedor passamos aos novos entrantes. O primeiro deles é a Axiom Law, uma firma americana de serviços jurídicos extremamente peculiar[8]: tem investimentos de capital de risco na sociedade, tem estrutura societária corporativa, faz uso intensivo de tecnologia, tem centros de prestação de serviços na Europa e na Índia e cresce anualmente a 25%.

4-) O próximo entrante é a Riverview Law, uma firma britânica que surgiu de uma agência de recursos humanos após a liberação do mercado jurídico britânico para não advogados em 2007[9]. De maneira similar à Axiom, a Riverview faz uso intensivo de tecnologia para oferecer serviços a preço fixo para seus clientes.

5-) Após tratar de duas empresas com forte viés tecnológico passamos à Paragon Legal[10], um novo entrante cuja característica diferencial não é tecnologia, processo nem gestão, mas uma abordagem que leva em conta o estilo de vida da advogada. Fundada em 2006 pela advogada Mae O’Malley em San Francisco, a Paragon tem a maioria de seus empregados composta por mulheres com filhos. As inovações introduzidas por essa firma que atende algumas das principais empresas de tecnologia do mundo, como Google e Oracle, é introduzir flexibilidade sem comprometer a excelência.

No eixo prático do curso os alunos (não só de Direito, mas também de administração, engenharia de produção, engenharia mecânica, engenharia de computação e engenharia de software) são desafiados, em grupos multidisciplinares, a elaborar um projeto de serviço jurídico inovador (uma legal tech) até o estágio de MVP (minimum viable product).

Nas próximas colunas falaremos mais do curso e deixamos aqui o apelo aos colegas professores que compartilhem sua experiência com cursos de empreendedorismo jurídico. Temos muito interesse em dividir essas experiências com os leitores da coluna.

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[1] https://www.ft.com/content/4ddb437e-9ace-11e6-8f9b-70e3cabccfae

[2] https://jota.info/carreira/brasil-o-pais-dos-bachareis-um-em-cada-dez-universitarios-estuda-direito-18102016

[3] https://drive.google.com/file/d/0B5-y3zGawkIMREpGSUthWDVlMVE/view?usp=sharing

[4]GARDNER, Heidi K.; SILVERSTEIN, Silvia Hodges. GlaxoSmithKline: Sourcing Complex Professional Services. Harvard Business School, 2016.

[5] http://www.jdjournal.com/2016/12/16/glaxosmithkline-says-no-to-billable-hours/

[6] ROHRER, Lisa; DEHORATIUS, Nicole. SeyfarthLean: Transforming Legal Service Delivery at Seyfarth Shaw. Harvard Law School, 2015.

[7] http://slc.seyfarth.com

[8] CONSTANTINI, James. Axiom – Law Redefined: Innovation in Legal Services. Harvard Business School/INSEAD, 2015.

[9] GARDNER, Heidi K.; SILVERSTEIN, Silvia Hodges. Riverview Law: Apllying Business Sense to the Legal Market. Harvard Business School, 2014.

[10] SOULE, Sarah A.; CORRELL, Shelley J.; SCHIFRIN, Debra. Paragon Legal: A New Model. Harvard Business School/Stanford, 2012.


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