O crime e o homem

O crime e o homem

São Paulo, o motor contra o crime

Na cidade mais honesta do país, a culpa é sempre de alguém, alguém que invariavelmente não é de São Paulo

Fenalaw
Avenida Paulista, em São Paulo / Crédito: Flickr/@rootsneves

São Paulo é a minha cidade, cidade da garoa, das garotas bonitas (pros meus olhos que viam as meninas saindo do Dante), das pessoas simples que estão paradas estufando os ônibus quando o sol ainda desperta com os olhos de remela; dos multimilionários rasgando os céus com seus helicópteros a fugir do trânsito; do conservadorismo e do raro preconceito velado que tinge de branco o negro com sucesso; que se emociona como a arte potente pode nascer do nordestino retirante; sem contar, é claro, dos meninos do mercado financeiro que sonham em nunca mais vê-la.

São Paulo é uma cidade tão enorme, tão enorme, que ela vive de detalhes para sobreviver e se alimentar dos seres humanos que moram nela. É a grande boca de um rato com hálito de hortelã.  Também é a cidade dos maiores. O maior Ministério Público do país. É a cidade do maior Tribunal de Apelação do mundo. Dos maiores advogados do país e do maior número de advogados do país.

A maior faculdade da América Latina está aqui. Os três maiores hospitais. O maior número de policiais militares do país, de policiais civis, de Delegacias.

E é a cidade mais honesta do país, onde tudo sempre está tudo bem. E a culpa é sempre de alguém, alguém que invariavelmente não é de São Paulo.

Óbvio que as esquerdas nos trariam problemas e nossas anciãs cheias de sabedoria marcharam para nos avisar. Paulo Freire e Lula são pernambucanos, esse povo que só atrapalha nossos costumes perfeitos.

Vale lembrar sobre isso a podridão moral que é a obra de Nelson Rodrigues. Ou a de João Cabral, falando do problema de sua terra em forma de poesia, embora sem lembrar que o problema nordestino foi criado exclusivamente, repito, exclusivamente, por eles nordestinos.

Que grandiosa seria a São Paulo sem os pernambucanos, não é mesmo?

Lutamos sempre e vamos às ruas. A Avenida Paulista abrigou mais de milhão de pessoas pedindo o impedimento da Presidente por crimes de responsabilidade, ainda bem que com todos conscientes do que significa um crime de responsabilidade. Somos como já foi Varsóvia na década de 20, altamente cultural e intelectualizada.

Nunca São Paulo se corrompeu. Nenhum advogado de renome foi preso por crime de corrupção ou do poder, até porque jamais os praticou.

Nenhum promotor ou procurador jamais foi preso por corrupção, já que nunca a praticou.

Nenhum juiz ou desembargador preso ou condenado por corrupção, já que, obviamente…

Todos os empresários presos na Operação Lava Jato foram corrompidos apenas por pessoas de outros estados. Ainda bem, isso nos livra em moral e em nossa religiosidade cristã – religiosidade como a da patroa frequentadora da Igreja São José até a mucama vestida de branco, que frequenta o terreiro se tiver consciência de sua negritude e ainda escravidão, ou alguma igreja evangélica.

É impressionante como São Paulo é especial. Diferente. Única. Um exemplo para o país.

Aqui apenas o policial civil é corrupto, mas sem corruptor.  Apenas o Policial Militar é violento, mas a organização criminosa não é. Vivemos um mundo de Batman às avessas.

Certo moralismo que parece ter características de hipocrisia, mas que não é hipocrisia, circunda os altos círculos. Tudo pode ser feito, nada pessoal pode ser revelado, desde que freudianamente o silêncio permita respeitar a liturgia de nossa monarquia. Assim como a Nova Amsterdam fez nascer NYC, a Corte Lisboeta fez nascer São Paulo.

E em nossa Lisboa não tem louca, nem príncipes boêmios. Somos todos sãos. E com media training.

Nossos herdeiros, jovens rapazes e raparigas, são melhores que os pais. Sim, uma cidade como se o filho de Pelé jogasse mil vezes mais bola que o Deus da bola. Calcule-se, então, uma cidade com 400 mil homens e mulheres como Pelé – com três ou quatro herdeiros de cada um.

Não tem como dar errado.

Ainda bem que a Lava Jato é um problema curitibano, um pouco carioca, fundamentalmente brasiliense. E que não temos nada com isso.

A prova é simples: nossos empresários envolvidos estão em suas casas e nas ruas se reerguendo, pois vítimas.

O líder político nordestino julgado ao sul (interessantemente germânico), preso.

São Paulo é inocente, como sempre foi.

E se não fosse, ainda se absolveria. Por que somos São Paulo.


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