Jazz

Jazz

O Kaleidoscope de Cyrus Chestnut

No novo álbum, trio do pianista “jazzifica” Satie, Ravel, Debussy e Mozart

Aos 55 anos, Cyrus Chestnut é um consumado mestre do piano que logo se destacou naquela geração de young lions da década de 1980 que – sob a liderança intelectual do trompetista-compositor Wynton Marsalis – passou a reinterpretar a mainstream do jazz. Ele é da mesma fornada de pianistas da qual saíram os também brilhantes Marcus Roberts, Benny Green, Gonzalo Rubalcaba e Danilo Perez. E se impôs como líder em duas dezenas de álbuns, desde 1992, a maioria em trio. Os mais recentes foram Natural Essence (2015) e There’s a Sweet, Sweet Spirit (2017), editados pela HighNote, ambos com a dream section formada por Buster Williams (baixo) e Lenny White (bateria).

Pois a mesma refinada etiqueta de Nova York vem de acrescentar um novo e original item à discografia de Chestnut: Kaleidoscope, CD gravado em abril deste ano, contendo 11 faixas em trio (Eric Wheeler, baixo; Chris Beck, bateria) e duas sem acompanhamento.

Como se sabe, caleidoscópio é aquele brinquedinho, meio em desuso, constante de um cilindro de papelão com espelho embutido e um fundo cheio de pequenos cacos de vidro que, movimentados, compõem imagens coloridas inesperadas. E no Kaleidoscope de Cyrus Chestnut formam-se surpreendentes desenhos melódicos, sônicos, harmônicos e rítmicos, principalmente a partir da reinterpretação jazzística de peças para piano dos seguintes compositores “eruditos”: Erik Satie (1866-1925), seus contemporâneos impressionistas Debussy e Ravel, e até Mozart.

Satie era considerado um “minimalista” meio excêntrico na sua época, e suas composições pianísticas mais conhecidas são as breves Gymnopédies e Gnossiennes. Sobretudo a Gnossienne nº 1, que Chestnut e seus acólitos recriam, respeitando a bela e hipnótica melodia, durante quase sete minutos (o dobro do que seria a execução à la lettre). Eles reinventam também as Gymnopédies nº 1 (6m15) e nº 3 (4m5). E ainda Son binocle (4m05), originalmente uma valsinha, que é levada numa batida de bossa nova.

As outras composições clássicas escolhidas por Cyrus Chestnut para arranjos e improvisações em trio são: Jimbo’s lullaby (5m25) e Golliwog’s cakewalk (5m), da suíte para piano Children’s Corner, de Claude Debussy; Entre cloches (5m45), de Maurice Ravel; o conhecidíssimo Rondó alla turca (3m35), da Sonata em Lá maior de Mozart, que recebe um tratamento bop, depois da abertura bem fiel à partitura.

O trio interpreta ainda Darn that dream (5m05), balada de Van Heusen; Smoke on the water (4m35), da banda Deep Purple, dos anos 70; e Father time (5m30), original de Chestnut. O pianista escolheu duas peças meditativas para tocar a sós com o seu Yamaha Grand: Prayer for Claudine (5m15), de sua autoria, e o hino Lord, I want to be a Christian (4m30).

(Faixas de Kaleidoscopesoundcloud.com/highnote-savant-records/01-golliwogs-cakewalksoundcloud.com/highnote-savant-records/turkish-rondo-from-cyrus-chestnuts-kaleidoscope)


Faça o cadastro gratuito e leia até 10 matérias por mês. Faça uma assinatura e tenha acesso ilimitado agora

Cadastro Gratuito

Cadastre-se e leia 10 matérias/mês de graça e receba conteúdo especializado

Cadastro Gratuito