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Martial Solal, o prodigioso ancião do piano

Recital solo My One and Only Love for gravado ao vivo no ano passado

Foto: divulgação

Quando do lançamento do CD Masters in Bordeaux (Sunnyside) – gravação de 2016 de um concerto em duo do pianista Martial Solal com o saxofonista Dave Liebman – escrevi nesta coluna que qualquer registro fonográfico do prodigioso mestre do teclado “é um acontecimento de repercussão geral reconhecida naquela parte do planeta jazz onde há vida inteligente e sensibilidade artística refinada”.

Portanto, reitero agora a afirmação em face do recém-lançado álbum My One and Only Love/ Live at Theater Güthersloh (Intuition Records), um recital solo do maior dos jazzmen europeus (já nonagenário!) gravado no fim do ano passado, na Alemanha. São 13 faixas perfazendo um total de quase 70 minutos de música. Mais uma entrevista de oito minutos de Solal ao jornalista especializado Götz Bühler.

Nas notas de apresentação da etiqueta distribuída pela Challenge Records lê-se a seguinte citação: “Martial Solal tem, em abundância, as qualidades indispensáveis dos grandes músicos: sensibilidade, criatividade e uma técnica prodigiosa”. A apreciação foi feita por ninguém menos do que Duke Ellington quando saiu, em 1963, o primeiro LP americano do pianista franco-argelino, em trio com o baterista Paul Motian e o baixista Teddy Kotick.

A admiração sempre foi mútua. E embora o principal instrumento de Ellington fosse a sua própria orquestra, Solal sempre procurou dar ao piano um impacto orquestral. Assim, não é por acaso que o ponto culminante do CD My One and Only Love, a meu ver, é a recriação (“desconstrução-reconstrução”), num medley de 7m45, de cinco famosos temas do Duke: Caravan, Prelude to a kiss, Sophisticated lady, Satin doll e Take the A Train.

Apesar da avançada idade, o “mestre da fantasia” continua a descobrir vias surpreendentes, com interpolações e mudanças de tempo inusitadas, a partir de material muito batido, como em Marche turque (2m45) – em cima da “marchinha” da Sonata nº 11 para piano de Mozart – e em duas versões de Sir Jack (5m45/3m40) – cujo tema é o de Frère Jacques, aquela antiquíssima canção de ninar.

O mesmo ocorre com os standards que Solal resolveu, na hora, revisitar e que são – além da faixa-título – All the things you are (6m), Tea for two (5m45), Body and soul (8m05), Have you met Miss Jones (4m55) e Night and day (5m30).

O crítico Kevin Whitehead observou com a acuidade de sempre: “Quando Martial Solal escolhe um tema que já tocou muitas, muitas vezes, como Body and soul, ele não tem na cabeça um ponto de partida mais ou menos preparado. Ele começa do nada, procurando fazer sempre algo novo. E é o que acontece neste recital solo. Solal inicia o perene All the things you arecomo se estivesse diante de uma tela em branco, reduzindo a melodia a um esboço mínimo”.

Nesse seu mais recente recital solo gravado, Sua Excelência nos brinda – também no mesmo processo criativo acima descrito – com uma interpretação incrível de Night in Tunisia (4m35), de Dizzy Gillespie, um dos “hinos” do bebop da década de 1940.

(Samples deste álbum: itunes.apple.com/us/album/my-one-only-love-live-at-theater-gütersloh-european/1347728944)


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