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James Carter em Newport 2018

No novo álbum saxofonista recria temas de Django à frente de um organ trio

James Carter
James Carter / Crédito: Divulgação

No livrinho Guia de Jazz em CD (Jorge Zahar Editor, 2002, 2ª edição) apresentei o saxofonista James Carter, então com 33 anos, como o mais brilhante dentre os young lions do estilo neo-bop surgidos logo depois do ‘‘estouro’’ de Joshua Redman. E acrescentei: ‘‘Dominando com técnica excepcional todos os saxes, a flauta e o clarinete baixo, Carter logo ficou famoso com um discurso melódico incisivo, cheio de surpresas, efeitos inesperados de língua na palheta e referências às suas principais influências: John Coltrane e Ben Webster’’.

Da variada e sedutora discografia de Carter constam dois álbuns particularmente especiais: Chasin’ the Gipsy (Atlantic, 2000), com temas do canonizado guitarrista cigano Django Reinhardt (1910-1953) e a participação de Regina Carter, a violinista nº 1 do jazz, e que é prima de James; At the Crossroads (Emarcy, 2011), bem bluesy, em trio com o organista Gerard Gibbs e o baterista Leonard King Jr, mais convidados.

Neste ano já perto do fim, o selo Blue Note enriquece essa discografia com o lançamento de James Carter Organ Trio: Live from Newport Jazz, gravação feita ao vivo naquele afamado festival anual, em 2018. O registro é imperdível, a partir da ideia do saxofonista-líder de interpretar composições de Django na moldura daqueles organ trios de muito sucesso comandados, nas décadas de 60 e 70, por Jack McDuff, Richard ‘‘Groove’’ Holmes e Lonnie Smith.

Em Live from Newport Jazz, os acólitos do saxofonista são o acima mencionado Gerard Gibbs, 52 anos – craque do Hammond B-3, que foi aluno de ‘‘Groove’’ Holmes e protegido do grande Jimmy Smith (1928-2005) – e o emergente baterista Alexander White, de Detroit.

setlist de seis títulos da apresentação em Newport começa com as duas mais longas das faixas: Le manoir de mes rêves (11m30), na qual Carter sopra no sax tenor um solo de tirar o fôlego (ao pé da letra) de cinco minutos, seguido de solo de igual duração, também fervente, do tecladista Gibbs; Mélodie au crépuscul(10m45), com o líder no sax soprano, criando com seus pares um caleidoscópio rítmico-melódico de conotação até funky.

Carter volta ao sax soprano na segunda parte da (inicialmente) balada Pour que ma vie demeure (6m25). E ainda em La valse des niglos (7m10), na qual sublinha a atração pelas sheets of sound de Coltrane, a partir do terceiro minuto, num solo totalmente free, mas com referências explícitas à antológica versão de ‘‘Trane’’ do standard My favorite things, gravada pela Atlantic em 1960.

O incrível saxofonista – que completa 51 anos de idade em janeiro próximo – exibe-se no sax alto em Anouman (10m05) e em Flèche d’or (8m30). Nesta última faixa, o piloto do B-3, Gerard Gibbs, despede-se da audiência de Newport com um solo particularmente vertiginoso.

James Carter foi o personagem da matéria de capa da edição de setembro último da revista Downbeat. Ouvida pelo crítico Phillip Lutz sobre o primo, a celebrada violinista Regina Carter resumiu: ‘‘Todo mundo sempre viu James como (alguém) realmente especial, um trabalhador da pesada, sempre com o seu instrumento, sempre tocando. Quando ele bota o sax na boca sai fogo. Mesmo sem vê-lo a gente sabe que é ele quem está tocando’’. (36)

(Samples de James Carter Organ Trio em: https://www.prostudiomasters.com/album/page/40362)

UM DUO “ARMORIAL’’

Chegou a este colunista, via postal, o CD Carta de Amor e Outras Histórias (Tratore), do duo formado pelos notáveis Ana de Oliveira (violino) e Sérgio Ferraz (violão de 8 e de 12 cordas). No programa, nove faixas, das quais quatro constituem a Suíte Armorial, composta por Ferraz, que assina ainda outras três peças. Egberto Gismonti é o autor de Frevo e Lôro.

O maestro Ricardo Tacuchian apresenta o álbum como ‘‘um verdadeiro cordel musical, uma síntese do popular com o erudito, um encontro norte-sul, uma superposição temporal contemporâneo/medieval’’. Na linha daquele sonho de Ariano Suassuna de criar, com o movimento Armorial, ‘‘uma arte erudita a partir dessas raízes populares nordestinas’’ .

Não se trata de jazz propriamente dito, é claro. Mas o CD é uma ‘‘aula’’ para músicos (profissionais ou amadores) e um prazer para quem aprecia música instrumental de qualidade.

(Samples deste álbum em: https://music.apple.com/br/album/carta-de-amor-e-outras-hist%C3%B3rias/1487645656?app=music&ign-mpt=uo%3D4)


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