Jazz

contemporâneo

Dave Douglas: o “som da surpresa”

Trompetista-compositor lidera trio com pianista Uri Caine em Devotion

Foto: divulgação

Dave Douglas, 56 anos, é um trompetista e compositor tão original, criativo e importante no panorama do que, em 2005, fundou o selo Greenleaf com o objetivo principal de registrar uma obra de concepção temática sempre surpreendente. São cerca de três dezenas de títulos que incluem duos, trios, um quinteto de metais e até um sexteto com efeitos eletrônicos, o Keystone.

Uri Caine, 62 anos, é um pianista de formação erudita e apurada técnica que concebe o jazz como o “som da surpresa”, não se contentando apenas com o conforto harmônico dos acordes de base em suas improvisações. É tão íntimo de Bach ou Mahler como de Thelonious Monk ou Cecil Taylor. E também aprecia os condimentos mais populares e até sacros da chamadaAmericana.

Douglas e Caine gravaram vários discos juntos como líderes ou colíderes, o último dos quais, em duo, tinha sido Present Joys (Greenleaf, 2014), com temática extraída do tradicional hinário protestante do Século XIX conhecido como The Sacred Harp.

Os reverenciados jazzmen retornam agora às lojas e plataformas virtuais – sempre no selo Greenleaf – no álbum Devotion, em trio com o master drummer e compositor Andrew Cyrille, 79 anos. Aquele mesmo baterista dos dois históricos registros da década de 1960 do pianista Cecil Taylor, gênio do free jazz, para a etiqueta Blue Note: Conquistador! e Unit Structures.

Agora, no novo lançamento de 10 peças, apenas a faixa-título (5m35) – baseada num hino religioso de 1818 – não é assinada por Dave Douglas. E quase todas as composições são inspiradas em pessoas das quais o trompetista-líder é devoto, interpretadas pelo excepcional trio em “cativante conversação plena de melodias memoráveis e digressões intrincadas”.

O trompete do compositor, curiosamente, não aparece na faixa inicial, Curly (4m15) – dedicada ao comediante Jerome Horwitz, um dos saudosos “Três Patetas” – na qual o piano febril de Uri Caine, à la Cecil Taylor, é aquecido ainda mais pela percussão de Andrew Cyrille. Em D’andrea (5m15) e Francis of Anthony (4m50) – esta com o líder usando a surdina – é homenageado o grande pianista italiano Franco D’Andrea. Por sua vez, Miljosang (4m50) e False allegiances (5m50) são tributos à jazz master Carla Bley (ainda ativa e brilhante aos 83 anos). Os icônicos Dizzy Gillespie (1917-1993) e Mary Lou Williams (1910-1981) são reverenciados, respectivamente, na balada We pray (4m15) e na festiva Rose and thorn (5m30). (29)

Nreview publicada no site Popmatters, Will Layman comentou, com propriedade, que a faixa-título Devotion é o destaque do álbum, nos seguintes termos: “Há uma combinação de harmonia aberta e pureza melódica, e os músicos são levados a tocar de maneira straight na maior parte do tempo, até que não queiram mais. Nesses momentos, surgem dissonâncias na melodia ou os acordes ficam de repente mais sombrios com a adição de alguma tensão sutil, e a música fica mais complexa por um instante. E então, no que parece ser um repentino raio de sol o conjunto libera essa tensão. A performance faz com que essas transições soem naturais, miraculosas”.

O comentário pode e deve ser estendido às demais faixas do novo registro de Dave Douglas.

(Samples de Devotion em: play.google.com/store/music/album/Dave_Douglas_Devotion_feat_Uri_Caine_Andrew_Cyrill?id=B5utjk4rpdtccr76pijrrnixoxe&tid=song-Tk6seejtxzhbpda2czfblxw4hza)


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