Coluna do Fábio Zambeli

Análise

‘Debandada’ na equipe de Paulo Guedes é triunfo da política

Centralização na Economia tende a aumentar

paulo guedes
Presidente da República Jair Bolsonaro durante reunião com o Ministro da Economia, Paulo Guedes. Crédito: Isac Nóbrega/PR

A debandada na equipe de Paulo Guedes consolida uma transformação no “mindset” do Ministério da Economia diante das demandas por gastos sociais e concessões à classe política, agenda que diverge frontalmente da cartilha liberal representada por atores que agora deixam a pasta.

As trocas efetivadas acabam por centralizar ainda mais as decisões no próprio Guedes. O ministro mantém linha direta (e franca) com Jair Bolsonaro, tomou as rédeas das tratativas com o Congresso e tem se mostrado disposto a enfrentar as resistências internas no governo — sobretudo entre os militares e desenvolvimentistas, entusiastas do crescimento via investimento público.

Os auxiliares, contudo, não têm a mesma disposição. Salim Mattar, embora próximo de Bolsonaro, não conseguiu avançar no programa de privatizações ambicioso que apresentou no início da gestão. E tampouco demonstrou apetite por construir politicamente as soluções para destravá-lo.

Paulo Uebel, ultraliberal que tinha como missão oferecer uma reforma administrativa ousada ao Legislativo, capitulou frente ao choque de realidade imposto pelos desejos do presidente e de sua base. Não faz sentido para quem recebe ofertas profissionais sedutoras do setor privado amargar sucessivas derrotas na não tão bem remunerada categoria dos cargos de confiança federais.

Foi o mesmo movimento feito pelo outrora guardião do “teto de gastos” Mansueto Almeida e outros assessores que têm alto valor no mercado financeiro, como Caio Megale e Rubem Novaes.

O jogo político é cada vez mais bruto num governo que dependerá do sucesso e da reformulação dos programas de transferência de renda para sobreviver e se mostrar competitivo em 2022.

O “Posto Ipiranga” de Bolsonaro terá de ser menos reformista e mais pragmático, alinhando expectativas com o chefe e redirecionando suas ambições conceituais, cultivadas desde Chicago, para um eventual segundo mandato.

Aumenta, nesse contexto, a responsabilidade do ministro na condução da espinha dorsal da reforma tributária, com especial ênfase nas fontes de financiamento para o Renda Brasil e nas soluções emergenciais para socorrer os trabalhadores informais.

Tudo isso dentro da desafiadora equação de preservar o teto e evitar aumento de carga tributária. A ideia difundida no governo é a de que um plano integrando a concepção do programa que substituirá o Bolsa Família, o segundo lote de mudanças nos impostos e uma nova versão do pacto federativo seja rapidamente divulgado, até o final de agosto. Seria o cartão de visitas econômica da segunda fase do mandato de Bolsonaro.

A gangorra da influência na Economia 

As recentes alterações na composição do “superministério” de Guedes empoderam os “profissionais do poder público”, servidores que têm destreza para se alinhar às demais estruturas da Esplanada e conseguem imprimir um ritmo mais acelerado aos programas, a despeito dos naturais entraves próprios do Executivo.

O Plano de Parcerias e Investimentos, por exemplo, está sintonizado com os Ministérios da Infraestrutura, das Minas e Energia e com o Planalto. A secretária Martha Seillier, com experiência na Casa Civil em governos anteriores, é vista como “executora” e aglutinadora.

Também na esteira das mudanças aumenta a responsabilidade do número 2 de Guedes, Marcelo Guaranys, outro especialista em gestão pública e com experiência em setores como o cipoal regulatório e os marcos legais da economia.

Outros personagens em ascensão são Bruno Funchal, que assumiu o Tesouro e passou pelo batismo de fogo na administração pública tocando o ajuste fiscal no Estado do Espírito Santo, e Bruno Bianco, técnico com trânsito na Esplanada que ocupa a Secretaria de Previdência e Trabalho, e vem ajudando na estruturação do novo colchão de suporte social — que inclui, além do Renda Brasil, o Carteira Verde-Amarela e a reformulação do BPC.

Também ganha mais protagonismo no xadrez estratégico da economia a assessora especial de Guedes, Daniella Marques, que acompanha o ministro desde a sua trajetória privada e goza de sua total confiança.


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