Opinião & Análise

Igualdade de gênero

Uma atividade de risco: mulheres que pesquisam sobre mulheres

Dossiê reúne fotos, prints de publicações em redes sociais e informações pessoais de bolsistas de produtividade do CNPq

Manaus (AM). 04/09/2019. Estudantes bolsistas do CNPq e da Capes, além de pesquisadores, deram um abraço simbólico no lado de fora do prédio do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em protesto aos cortes de orçamento promovidos pelo governo de Bolsonaro. Foto: Izabel Santos/Amazônia Real

No início de novembro de 2019, uma notícia acerca da articulação do governo federal no Congresso Nacional acendeu um alerta na comunidade científica: mulheres que pesquisam sobre mulheres e acadêmicos especializados em estudos de gênero podem estar em risco.

De acordo com a coluna do Estadão publicada no dia 9 daquele mês, emissários da Esplanada distribuíram entre parlamentares um dossiê contendo informações sobre pesquisadores que se dedicam a estudar gênero e ditaduras latino-americanas. O dossiê reúne fotos, prints de publicações em redes sociais e informações pessoais dos bolsistas de produtividade do CNPq e teria sido produzido como arma para convencer deputados e senadores a encampar o projeto do governo de fundir a CAPES e o CNPq.

O ponto levantado pelo governo para produzir o dossiê foi o desperdício do investimento público em áreas das humanidades consideradas não-prioritárias ou estratégicas.

Alegando o caráter não-científico do trabalho dos bolsistas incluídos no material, o governo almeja minar a destinação de recursos para o financiamento das pesquisas que sejam contrárias à ideologia ultraconservadora e ao programa do governo.

A postura do governo sobre as humanidades é, em si, um assunto interessante para refletirmos sobre aspectos que os estudos de gênero problematizam: representatividade, visibilidade e silenciamento.

A quem interessa silenciar as mulheres que pesquisam e produzem conhecimento sobre as mulheres? Que instituições estão legitimadas a definir as prioridades de investimento público em pesquisa científica?

Um dos impactos mais significativos da inclusão de mulheres no ensino superior foi a mudança lenta, mas irreversível, da agenda de pesquisa nas universidades. A formação de pesquisadoras aptas a atuar nos mais diversos campos de conhecimento levou para o interior da academia problemas sociais e políticos da vida das mulheres, indicando que há uma íntima relação entre representação e visibilidade: as prioridades e os temas de pesquisa mudam a depender da perspectiva de quem é o sujeito-pesquisador.

Seguindo uma tendência observada não só no Brasil, mas nas democracias ocidentais como um todo, os chamados estudos de gênero passaram a ocupar uma parte significativa da pauta das ciências sociais. A produção bibliográfica se multiplicou, e novas gerações de alunas e professoras encontraram um campo mais fértil para se dedicar ao estudo sobre sua condição histórica e questionar os discursos tradicionais acerca do lugar e destino social da mulher.

São estudos provocadores de tensões porque em seu âmago está explícito um questionamento sobre as assimétricas relações de poder que estruturam a sociedade e que se manifestam também nas hierarquias e sistemas de exclusão que operam no interior das universidades.

O trabalho do Grupo de Estudos e Pesquisa sobre Inclusão na Academia (GPEIA-USP) é um ótimo exemplo de como esse campo de reflexões pode apontar problemas estruturais na raiz das organizações curriculares. O livro “Interações de gênero nas salas de aula da Faculdade de Direito da USP: um currículo oculto?” provocou uma discussão ampla sobre as práticas docentes e a estrutura administrativa do curso de Direito mais antigo do Brasil.

É por essa razão que, para os mais puristas, os estudos de gênero, não raro, se confundem com uma “militância”: seu teor é declaradamente crítico e seu potencial é transformador.

A tentativa de asfixiar essa pauta no interior das universidades é preocupante, porque o resultado é o retrocesso das conquistas de igualdade em um campo politicamente estratégico: os espaços de produção de conhecimento científico institucionalmente legitimado.

Em documento produzido no Encontro Nacional de Pró-Reitores de Pesquisa e Pós-graduação, representantes de mais de 245 universidade manifestaram o repúdio às movimentações do governo federal referentes à produção do dossiê.

Na nota divulgada em 13 de novembro do ano passado, denunciaram o que seria um desrespeito à livre expressão da atividade intelectual, uma tentativa de desqualificar o trabalho científico dos bolsistas de produtividade e de provocar a exposição pessoal dos pesquisadores, com risco à sua segurança.

Como resposta institucional da academia, a nota de repúdio não poderia ter sido mais precisa ao avaliar a medida que busca desestruturar os estudos de gênero no Brasil.

Trata-se, segundo a nota, de “uma tentativa grotesca de intimidação”, que serve como péssimo de exemplo de falta de ética científica. Que a comunidade acadêmica possa definir seus próprios temas prioritários e sua agenda de pesquisa é fundamental não só para sua autonomia institucional, mas para a qualidade do que ela oferece como resposta à sociedade. A diversidade de pesquisadores e de interesses de pesquisa é o princípio verdadeiramente estratégico a se proteger: é garantia contra a invisibilidade, o silenciamento e a perpetuação da desigualdade.


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