Opinião & Análise

Corporate Crime Stories

O passado problemático das corporações alemãs na América Latina

Interesses econômicos de empresas privadas foram o principal fator para o apoio a regimes ditatoriais

Fábrica de Volkswagen em Wolfsburg, Alemanha. Pixabay

Lúcio Bellentani tem hoje 72 anos. De 1964 a 1972, trabalhou na fábrica da Volkswagen em São Paulo. Assim como seu pai, ele era um membro do Partido Comunista e também ativo no sindicato trabalhista. Conforme seu relato, ele tinha 28 anos quando sentiu uma arma encostada em suas costas enquanto trabalhava.

Isso ocorreu em 1972. Ele teria sido imediatamente algemado e levado para uma sala no departamento de segurança da empresa, onde mais tarde foi pego pela polícia política. Bellentani foi levado da fábrica da VW diretamente para o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), onde foi torturado nos primeiros quatro meses. Segundo Bellentani, ele foi então transferido para o centro de tortura da OBAN (Operação Bandeirantes, mais tarde conhecida como DOI-CODI) e posteriormente levado para a prisão, onde permaneceu por dois anos.

Cooperação com a ditadura militar

De acordo com um estudo realizado por Christopher Kopper, historiador da Universidade de Bielefeld na Alemanha, o departamento de segurança da fábrica teria monitorado as atividades políticas de oposição de seus funcionários e facilitado a prisão de pelo menos sete empregados.

Isso, segundo Kopper, teria acontecido em um momento em que o uso da tortura pela Polícia Política era de conhecimento público tanto no Brasil quanto na Alemanha. Em dezembro de 2017, o Grupo VW reconheceu publicamente sua responsabilidade e pediu desculpas por sua cooperação com a ditadura militar brasileira.

Os relatos de testemunhas como Bellentani ou Hector Ratto, que teve experiência semelhante na fábrica da Mercedes-Benz em Buenos Aires em 1977, sugerem que as empresas estrangeiras, dentre elas empresas alemãs, nem sempre se abstiveram de cooperar com os regimes ditatoriais na América Latina.

Histórias como essas podem ser encontradas em inúmeras empresas nacionais e internacionais que operavam no Brasil e na Argentina naquela época. Milhares de pessoas desapareceram por causa de sua filiação partidária, atividades sindicais e oposição a regimes autoritários.

Segundo estimativas de organizações de direitos humanos, um total de 30.000 pessoas desapareceram na Argentina durante a ditadura militar (1976-1983). No Brasil, os números ainda não estão claros, pois somente a partir de 2014 que a chamada “Comissão da Verdade” começou a examinar o arquivo nacional. Atualmente, 1.843 casos de tortura e 434 mortes ocorridas entre 1964 e 1985 foram documentadas. As investigações mais recentes trazem à luz, além dos já conhecidos atos brutais cometidos pelo regime militar, a cooperação de empresas privadas tanto na assunção do poder como no estabelecimento de regimes militares. O assunto tem sido examinado mais de perto no contexto de uma ação coletiva de reparação.

Contabilidade para o passado problemático

Não é de surpreender que os estudos científicos apontam, acima de tudo, para os interesses econômicos das empresas privadas, independentemente de sua nacionalidade, como o principal fator para o apoio a regimes ditatoriais.

Nem todos os ex-empresários e gerentes querem falar sobre suas conexões com os militares; no entanto, alguns confessaram o envolvimento ativo da elite econômica empresarial. Por exemplo, Ayres Filho, ex-presidente de uma empresa estrangeira no Brasil, revelou em uma entrevista em 1987 que a revolução teria sido planejada em 1964 em sua sala de estar: “[…] os militares não queriam participar. Eles só participaram porque a comunidade econômica os implorou. Sei disso porque eu implorei a eles por sua ajuda”. Em muitos casos, as empresas teriam atuado por meio de consórcios e associações que representam seus interesses industriais, como, por exemplo, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) no Brasil ou a CGE (Confederación General Económica), na Argentina.

Segundo o estudo de Kopper, o ex-presidente da fábrica brasileira da VW, Schultz-Wenk teria escrito uma carta ao ex-CEO do Grupo VW Nordhoff em 16 de abril de 1964, na qual expressou sua opinião positiva sobre a “mudança política” no Brasil e deu as boas-vindas à prisão de lideranças sindicais e de membros do partido comunista. Atualmente tem-se conhecimento de que empresas estrangeiras também apoiaram financeiramente as atividades da OBAN no Brasil.

Entrelaçamento entre negócios e política

Para empresas privadas, a agitação política teria significado um “resgate” contra a alta e constante inflação. Em 1961, a taxa de inflação no Brasil era 34,7%, em 1963 ela havia subido para 78,4%. Além do problema da estagnação econômica, o governo em exercício teria ameaçado a elite econômica com reformas sociais que iam desde a reforma agrária até políticas trabalhistas mais rigorosas.

Outro ponto crucial para a atratividade de um golpe militar teriam sido as restrições previstas à transferência direta de lucros para a controladora, o que afetaria principalmente as empresas estrangeiras. Em contraste com esta posição, o regime militar sugeria uma política de industrialização em favor das grandes empresas industriais. Em troca, companhias privadas financiavam as atividades políticas que eram cruciais para a manutenção e a legitimidade do governo militar.

Empresas nacionais e estrangeiras se beneficiaram de uma política favorável ao empregador que permitiu a fácil demissão e a proibição de greves, ao mesmo tempo em que enfraqueceu significativamente os sindicatos trabalhistas. Além disso, estratégias econômicas específicas foram desenvolvidas para a promoção de grandes empresas industriais, o que possibilitou melhor acesso ao mercado de capitais e opções de financiamento internacional.

A atitude das empresas reforçou o vínculo entre política e organizações empresariais na América Latina. Isso é reputado como um fenômeno do “capitalismo clientelista” (crony capitalism), em que ambos os setores se beneficiam de uma relação informal e desviante. Uma atitude historicamente preservada e cujas consequências podem ser sentidas repetidamente, como mostram as investigações da “Operação Lava Jato”.

A “economia moral”, que os líderes daquele tempo abertamente defendiam para o mundo exterior, obviamente não se aplicava às ditaduras militares na América Latina. Independentemente das violações de direitos humanos, a única coisa que guiou o comportamento empresarial foi a economia de sucesso através da “compra de regimes” (regime shopping).

O termo “regime shopping” refere-se à ideia de que as empresas multinacionais escolhem suas localizações de acordo com regras institucionais favoráveis ​​aos negócios. No caso das ditaduras militares latino-americanas, poder-se-ia então presumir que os governos foram ajudados a assumir o poder a fim de criar regulamentações favoráveis ​​aos negócios.

Este artigo foi traduzido e adaptado do inglês, versão original disponível em: https://heigos.hypotheses.org/8825

Referências

Bellentani, Lucio (2015): „Manchmal, wenn du in einer Menschenmenge bist, fühlst du dich allein”, Testimonio Nummer 497. Lateinamerika Nachricht, accessed on 09.03.2018.

Centro de Estudios Legales Y Sociales: Empresas y dictadura, accessed on 09.03.2018.

Kopper, Christopher (2017): A VW do Brasil durante a Ditadura Militar brasileira 1964-1985. Uma abordagem histórica. For Corporate History Department of Volkswagen, accessed on 09.03.2018.

Lima, Wilson (2014): Comissão da Verdade confirma 434 mortes e desaparecimentos na ditadura, accessed on 09.03.2018.

Marusczyk,  Ivo: VW entschuldigt sich für Zusammenarbeit mit Militärregime. Deutschlandfunk vom 15.12.2017, accessed on 09.03.2018.

Payne, Leigh A. (2014): Cumplicidade Empresarial na Ditadura Militar. Revista Anistia Política e Justiça de Transição / Ministério da Justiça, n. 10, p. 260-297.

Staas, Christian (2013): Argentinische Militärdiktatur. Mord auf Bestellung? Zeit-Online vom 10. Januar 2013, accessed on 09.03.2018.

Wermus, Paulo (2016): La clase empresarial y el golpe de estado de 1976. MIRÍADA. Año 8 No. 12, p. 231-242, accessed on 09.03.2018.


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