Opinião & Análise

Lava Jato

Lula de Schrödinger

Como a mais polêmica nomeação do governo Dilma afeta os mercados

Em 1935, o físico austríaco Erwin Schrödinger formulou um experimento hipotético para tentar descrever o que seriam os chamados “estados superpostos”, uma das mais fundamentais características da então nascente Mecânica Quântica.

Em seus escritos, Schrödinger imagina a seguinte situação: um gato dentro de uma caixa opaca, junto a um mecanismo que pode (ou não) liberar um veneno letal, a depender de um evento aleatório quântico. No momento em que se fecha a caixa com o gato e o mecanismo dentro, já não é mais possível saber se o gato está vivo ou morto. Só saberemos o resultado, se abrirmos a caixa, interrompendo o experimento. No universo quântico, Schrödinger indica que, enquanto não abrirmos a caixa para matar a curiosidade (ou o gato), o bichano estará vivo e morto simultaneamente, ocupando todos os resultados possíveis do experimento. Daí o nome “estados superpostos”.

O paradoxo dos estados superpostos parecia-me restrito ao mundo da física teórica. Até a nomeação do ex-presidente Lula para assumir o ministério da Casa Civil.

Em um intervalo de apenas uma semana, Lula foi nomeado ministro da Casa Civil, mas teve a nomeação suspensa por liminares em diversas regiões do país. À medida que as liminares eram reformadas em segunda instância, surgiam notícias de novas liminares expedidas. Na última sexta-feira, foi a vez do STF suspender a nomeação do ex-presidente Lula para a Casa Civil, mas a decisão provavelmente será submetida a um reexame em plenário.

Como o mercado financeiro lida com essa confusão sem precedentes? Já não é nenhum mistério que situações que enfraquecem o governo aumentam o apetite dos investidores. Por outro lado, vitórias do governo aumentam a aversão ao risco, retraindo a atividade econômica. Mas o caso de Lula é particularmente interessante. Sua nomeação à Casa Civil é desafiada por um volume de eventos simplesmente impossível de acompanhar, ou prever. Torna-se quase aleatório. Analogamente aos estados superpostos, Lula assume, simultaneamente, todas os resultados possíveis. Lula é e não é ministro, ao mesmo tempo.

Os mercados parecem precificar exatamente essa terceira situação – de estados superpostos – , como se os investidores aguardassem a definição de uma variável quântica, completamente aleatória. Se o Lula ministro representa uma vitória do Governo (mercados caem) e o Lula não-ministro representa uma vitória da oposição (mercados sobem), Lula em estados superpostos (sendo e “não sendo” ministro ao mesmo tempo) provoca uma terceira reação inteiramente diferente. A correlação é tão forte que, ouso dizer, é quase um caso inequívoco de causalidade. Vejamos:

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Se pudéssemos resumir toda a situação a uma só palavra, não haveria melhor candidato do que incerteza. Incerteza gerada puramente por fatores políticos e pelo uso do Judiciário como palco para testar forças entre governo e oposição. No meio da mais grave crise econômica, política e moral da história da república, a política tornou-se o elemento preponderante dos rumos do mercado e juízes de direito penal são os novos queridinhos do inside trader. A economia real nunca esteve tão em segundo plano.

Nesse cenário, a tentativa de nomeação a qualquer custo do ex-presidente Lula à Casa Civil é dinamite pura. Ela mantém o mercado comprimido em um canal de falsa estabilidade (euforia contida, na verdade), como a calmaria que antecede a tempestade. E enquanto a tempestade não vem, os investidores montam suas posições, pois se há uma certeza nesse ambiente de incerteza absoluta é que em algum momento, abriremos a caixa de Lula. Mais cedo ou mais tarde saberemos se ele, afinal, é ou não o próximo ministro da Casa Civil e daremos fim ao paradoxo vislumbrado por Schrödinger.

Possivelmente com um rompimento explosivo da atual indefinição dos mercados, para cima ou para baixo. Em que lado você apostará suas fichas? Ou, que tal apostar simultaneamente em todos os cenários possíveis, para ganhar independentemente do resultado final? Lembrem-se, em um mercado de estados superpostos, é preciso ser um investidor-quântico para sobreviver ao futuro.


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