Opinião & Análise

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De frangos a iphones

Sobre o movimento de alguns acionistas relevantes da BRF para tirar Abilio Diniz da posição de chairman

Pixabay

Muito tem se falado acerca do movimento de alguns acionistas relevantes da BRF, tais como fundos de pensão, para tirar Abilio Diniz da posição de chairman, bem como para alterar a composição do conselho de administração da companhia.

Alegam os acionistas insatisfeitos que Abílio e seus executivos, por terem um background respectivamente das áreas de varejo e finanças, apresentaram uma gestão que privilegiava resultados de curto prazo e tentativas de performar heróicos turnarounds, em detrimento de uma política de investimento em desenvolvimento da cadeia de produção e de um planejamento estratégico de médio e longo prazo.

Sem entrar no mérito de quem tem a razão na disputa interna da BRF, o fato é que a análise de diversas operações similares no mercado indica que gestões lideradas por executivos provenientes do varejo e do mundo financeiro realmente tendem a adotar posturas agressivas de “salvadores da pátria” com foco quase que exclusivo na maximização do valor das ações e no retorno aos acionistas a um curto prazo. 

Ora, concorda-se que o interesse social da companhia é a maximização do shareholder value, mas essa maximização para ser sustentável economicamente, garantir o investimento em inovação e atender ao interesse dos diversos tipos de acionistas da sociedade deve ostentar uma harmonização entre objetivos de curto, médio e longo prazo.  

Assim este autor se posicionou em recente livro:

(…) essa maximização de valor deve ser sustentável, não se limitando a uma pretensão de valorização imediata das ações, mas sim se ancorando em uma política que respeite e atenda aos interesses de lucro de médio e longo prazo da companhia”[1].

 A realidade empresarial contemporânea não deixa dúvidas de que o investimento em novas tecnologias e a aposta em um planejamento estratégico que priorize a inovação dos métodos de produção representam condições essenciais para a competitividade e o sucesso de qualquer negócio.

Imagine, por exemplo, se a diretoria de uma companhia como a Apple privilegiasse choques de gestão financeira em prol de retornos imediatos aos seus acionistas, e às custas de limitação do budget para o departamento de desenvolvimento de novos produtos. Faria algum sentido?

Só que isso não é uma exclusividade do mercado de alta tecnologia: de frangos a iphones, todo business nos dias de hoje deve possuir um espírito disruptivo, e disrupção demanda investimento e certa paciência dos investidores.

Em apertada síntese: empresas serão sempre negócios e, portanto, deverão sempre procurar maximizar o lucro de seus sócios/acionistas; mas essa maximização deve ser sustentável, e cada vez mais terá que estar conectada com o amanhã.

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[1] SINAY, Rafael. Abuso de Minoria na S/A. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2017, p. 29.


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