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Greve dos servidores

Cinco dicas para um café coado com qualidade

Da vida útil do coador de pano à temperatura da água

2h45 marcava o encardido Dimep, daqueles que o ponteiro de segundos sai pulando de casa em casa. Naquele caso, parecia que se demorava mais que esse tempo. No sertão da Bahia, o sol estava tão escaldante, que o ponteiro de segundos dava a volta no relógio, como se procurasse uma sombra. Uma casa mais fresca.

Mas não, faltavam 15 minutos para as três. Mais calor impossível. Meu avô sempre me dizia que em qualquer parte do mundo “a las tres menos cuarto, es siempre la hora del inferno”. Naquele mundo, distante 300km de qualquer lugar, parecia que os raios solares estavam enfiados, feito estacas, nas cercanias do posto de gasolina.

— Bom tarde, senhor. Em que posso ajudá-lo? Só não me peça para abaná-lo. Aqui, nem com abano — brincou Alex, o atendente da loja de conveniência.

— Três litros de água mineral. Dois com gás e um sem gás — pedi.

Tinha decidido que tomaria dois litros de água, de preferência de uma golada só, em um curto intervalo. Era só o tempo de trocar de garrafa. “A água sem gás é natural, por favor”, disse já com semblante de quem mostrava impaciência com aquele calor “de los diablos”.

Tirei o “rabo quente” da sacola, o “mergulhão” como se diz no interior da Bahia. O aquecedor 200 volts era uma das poucas certezas de eu não ficaria sem café naquela tarde.

DICA 1

ÁGUA SEM CLORO

A água para o preparo do café deve ser mineral ou filtrada. “Nada de torneira?” perguntou o curioso Alex. “Nem pensar”, respondi.

— Água de torneira, geralmente, vem adicionada de cloro. E esse produto químico vai, com certeza, interferir no sabor do café –  expliquei ao atendente.

– “Vixi”, danou-se. Essa daqui então, nem pensar — destacou o inquieto atendente que já tinha dado as costas para o balcão.

No posto de gasolina, naquele sertão de Lampião, a água era do poço artesiano. Sem tratamento, sem certificação. “Melhor não”, respondi.

DICA 2

TEMPERATURA DA ÁGUA

– Eu não sei por que, mas parecia que o aquecedor tinha sido mais rápido do que costumeiramente era. Antes que a água estivesse fervendo, desliguei o apetrecho da tomada.

– Sendo água filtrada ou mineral, a temperatura ideal, Alex, para que o seu café saia com qualidade, deve ser em torno de 94ºC, disse.

— E quando a gente não tem termômetro, como saber, só se for colocando o dedo na água — lembrou Alex.

— Simples, quando a chaleira começar a chiar é sinal de que já pode desligar o fogo — retruquei, enquanto tirava o boné da cabeça.

DICA 3

ESCALDE O COADOR

De pano ou de papel, antes de começar a passar o café. Alex achou que era por pura higiene. “Esse nosso aqui já fez aniversário”, apontando para um coador enrolado no cabo de madeira, corroído pelo tempo.

— Mesmo de papel, é importante esse processo de escaldar o coador, para tirar impurezas e evitar que o gosto do papel passe para o café.

— Na casa de mainha, na beira do São Francisco, lá em Petrolândia, nunca faltou um coador. É herança de família — recordou.

– Quando você for ao sertão do São Francisco leve para sua mãe, um coador de presente. Diga a ela, que coador de pano tem vida útil curta. Usando todo dia, dois meses depois já pode jogar fora.

DICA 4

MOA O CAFÉ NA HORA

— Por isso, carrego comigo café em grãos e um moedor manual, para momentos como esse, quando se está a esmo.

— Danou-se e se não tiver moedor, vai no dente — brincou Alex.

– Não. Na hora do aperto, um liquidificador dá conta do recado. Triture os grãos aos poucos, para não ficar uma “moagem” sem padrão.
Tirei o moedor da sacola, despejei quatro colheres de sopa, moí por 30 segundos, contados no relógio Dimep que teimava se arrastando em “slow motion”. Era um boa medida para meio litro de água.

DICA 5

DESPEJE A ÁGUA EM VOLTA DO COADOR

Depois, pelo centro onde se concentra o pó. E nada de apertar o pó no filtro, heim! Só assim, a água vai passar com uniformidade e extrair do café todas as propriedades, como o aroma, o sabor.

— Pronto Alex, uma xícara de café, moído na hora, passado na hora, feito com água mineral. Na medida certa — servi ao atendente. Ah, e se aceitar uma sugestão, pelo menos o primeiro gole é sem adoçar, viu?

Alex me olhou com um rabo de olho e se foi.

15 minutos depois, a Land estava abastecida até o primeiro disparo da bomba, os pneus calibrados com 30 libras, a mente reconfortada pela cafeína que ditava o ritmo da tarde. Seguimos viagem.

Café & Conversa


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