Inova&Ação

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Quais são as melhores formas de se promover a inovação nos serviços públicos?

Um dos grandes desafios é mudar a cultura da sociedade

Imagem: Pixabay

No mundo atual, em que as informações são atualizadas em poucos segundos e os cidadãos estão cada vez mais exigentes, é fundamental investir em inovações no setor público. Os governos que não tiverem esse foco correm o risco de ficar defasados e até comprometer o nível de desenvolvimento de suas populações. No Brasil, esse processo ainda está caminhando a passos lentos.

Um levantamento do Núcleo de Economia Regional e Urbana da Universidade de São Paulo (USP) divulgado no fim de junho analisou 37 segmentos econômicos do país e constatou que apenas cinco deles ultrapassaram a fronteira tecnológica, conceito definido pela taxa média de investimento em pesquisa e desenvolvimento dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Um dos piores desempenhos, segundo a pesquisa, é no setor de serviços de informação e software, justamente o que lidera o avanço tecnológico no mundo e serve de base para a conectividade e o bom funcionamento dos órgãos públicos. Enquanto a média de investimento em pesquisa e desenvolvimento nesse setor nas nações da OCDE é de 29% do valor adicionado bruto, no Brasil esse percentual representa apenas 4,5%.

O que falta fazer, então, para que consigamos atingir níveis mais próximos de países como Estados Unidos, Austrália e Reino Unido? Um estudo recente da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) dá pistas de como chegar a esses índices.

Segundo o documento, um dos grandes desafios é mudar a cultura da sociedade.

Trata-se de uma tarefa árdua não apenas nas repartições públicas, mas também na iniciativa privada, pois exige esforços em todos os graus hierárquicos, do auxiliar administrativo ao diretor de departamento.

Em um painel realizado no início de junho durante o CIAB Febraban, um dos maiores eventos de tecnologia para o setor bancário, representantes de alguns dos maiores bancos do Brasil disseram reconhecer a necessidade de se implementar a cultura ágil das startups, mas encontram dificuldades para realizar transformações devido à resistência dos gerentes.

O estudo da OCDE aponta ainda outras três ações cruciais para que a inovação seja eficaz: criar mecanismos que garantam o acesso à informação; fechar parcerias entre governos e iniciativa privada para melhorar os processos; e repensar as regras e atividades internas das repartições a fim de reduzir os riscos e facilitar as mudanças.

Também é preciso que os governos invistam na capacitação de seus funcionários.

O órgão levantou as habilidades principais que precisam estar presentes nas equipes para que a inovação nos diversos setores seja bem-sucedida.

Uma delas é a iteração, ou seja, a criação de protótipos sucessivos, no esquema de tentativa e erro, com o objetivo de obter o refinamento dos processos. Alguns setores da economia já estão colocando essa medida em prática ao utilizar ferramentas tecnológicas como o sandbox, área virtual criada para testar programas sem o risco de danificar o sistema, para averiguar se há falhas e corrigi-las com antecedência.

No início de junho, a Secretaria Especial de Fazenda do Ministério da Economia, o Banco Central, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e a Superintendência de Seguros Privados divulgaram um comunicado conjunto no qual anunciam a intenção de implementar um sandbox regulatório para as fintechs no Brasil.

Essa determinação permite que essas startups operem, por período limitado, com um número reduzido de clientes e condições determinadas pelo órgão supervisor para checar se a regulamentação existente está adequada, ou se é necessário elaborar uma legislação específica para esse fim.

Outro ponto primordial é a criação de um banco de dados sólido e coerente, baseado em evidências, permitindo que todas as decisões sejam tomadas a partir dele. Para mantê-lo funcionando eficazmente, é preciso investir em um quadro formado por analistas de sistemas e cientistas de dados que, além de exercer a função técnica, também capacite outros empregados a se familiarizar e abastecer essa base.

Deve-se ainda manter o foco no público, com políticas voltadas exclusivamente às suas necessidades. Essa ideia não é nova, mas torna-se imprescindível nos dias de hoje, em que a população passou a ter acesso a informações novas na internet a cada minuto e os serviços online começaram a fazer parte do cotidiano. A estratégia, nesse caso, é descobrir o que o sujeito deseja, seja por meio de pesquisas ou da participação dos próprios usuários na experimentação de produtos a serem lançados.

A curiosidade, segundo o documento da OCDE, é peça-chave no andamento da inovação; portanto, é recomendável que seja priorizada e incentivada nos funcionários.

Essa qualidade pode ser obtida individualmente, quando se tem uma ideia extraordinária por meio de um insight, ou através da análise de pesquisas feitas com o público, buscando as opiniões que sugiram pensar os processos de maneira fora do convencional.

Para que essas descobertas saiam do papel, a insurgência é essencial. É ela que vai desafiar a rotina do trabalho, ao encontrar novas formas de se exercer as atividades do dia a dia. Nessa etapa, fazer aliança com parceiros que pensem de maneira diferente é muito útil para se chegar às mudanças.

Em todas as fases, a comunicação com a equipe e entre os usuários precisa ser didática e transparente. Isso pode ser obtido por meio de narrativas que expliquem o desenvolvimento das ações e prendam a atenção do público. A prática, conhecida como storytelling, já é bem conhecida em todo o mundo e passou até a ser realizada em universidades.

No fim de junho, a Rhodes University, na África do Sul, lançou em parceria com a União Europeia uma plataforma que vai incentivar as pessoas a compartilhar suas histórias no meio digital.

A ideia é trocar experiências acadêmicas, dividir trabalhos, levar a reflexões e desenvolver habilidades.

Apesar de valiosas, as sugestões contidas no documento da OCDE não garantem o sucesso da promoção da inovação no setor público. É imprescindível que haja esforços não só por parte dos governantes para colocar essas propostas em funcionamento, mas também da sociedade civil, que deve ajudar a fiscalizar e cobrar por mudanças.

Sair da zona de conforto não é tarefa fácil, mas é a única maneira de evoluir para acompanhar as transformações que acontecem mundo afora, garantindo o desenvolvimento de nosso país.


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