Inova&Ação

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Insurgência: inovar em governo é desafiar um sistema

A atitude de questionar o status quo, propor novos processos e novas soluções e buscar parceiros não convencionais

Imagem: Arquivo pessoal dos autores

Na nossa coluna anterior falamos da importância de se cultivar o ecossistema de inovação pública como forma de garantir terreno fértil para que iniciativas inovadoras tenham sustentabilidade e ‘paridade’ em relação às iniciativas tradicionais. Como explicamos, o conceito de paridade foi adotado pelo Observatório da Inovação no Setor Público da OCDE (OPSI) para explicar um contexto em que as iniciativas que desafiem o status quo recebam tanta consideração quanto a opção pela manutenção das coisas como estão. Se não houver paridade entre iniciativas “inovadoras” e “tradicionais”, o processo de promover transformações fica restrito a ação de indivíduos ou equipes – que empreendem apesar de tudo e de todos – e a inovação não alcança o nível sistêmico.

Portanto, é parte de um ecossistema de inovação saudável que o próprio sistema seja receptivo a revisão, bem ao gosto da destruição criativa de Schumpeter. Quando uma solução tradicional vem dando sinais de desgaste é preciso que haja espaço político e institucional para sua substituição. Por isso, a capacidade de renovação de um sistema será de fato colocada à prova quando as atividades regulares – por terem se tornado tradicionais, apesar de terem sido respostas eficazes ao tempo de sua implementação – dispõem de um status que dificulta a mudança.

Vale compartilhar um pouco a nossa realidade e nossos dilemas aqui no Gnova, o Laboratório de Inovação em Governo sediado na Escola Nacional de Administração Pública (ENAP). Atualmente, o GNova é responsável por um dos maiores patrimônios da escola: o Concurso de Inovação no Setor Público. Com mais de duas décadas de existência, o Concurso falava da centralidade da inovação no setor público before it was cool.

No entanto, com o passar do tempo, percebemos que a fórmula utilizada – centrada no Governo Federal e com prêmios concedidos exclusivamente por uma comissão de especialistas – poderia ser aprimorada e ganhar novo fôlego. Atenta a isso, a ENAP promoveu uma mudança incremental e desde 2017 os governos estaduais foram incluídos e os prêmios finais são concedidos por uma votação entre pares, a partir das iniciativas finalistas. Também foram criadas novas formas de disseminação das iniciativas, como vídeos curtos de animação explicando as iniciativas vencedoras.

Mas – buscando um olhar mais inovador – nos perguntamos se para os próximos anos devemos concentrar o esforço apenas em conceder honrarias públicas. Será que não devemos partir para um modelo ainda mais horizontal de reconhecimento, incluindo – claro – a comunidade de servidores públicos mas também abrindo o debate para incluir o ecossistema de inovação pública e o conjunto da sociedade? Ou ainda: que esforços adicionais podem ser empreendidos para transformar um banco de dados de iniciativas premiadas numa guia nacional de soluções replicáveis, de grande utilização por servidores públicos?

Pode ser que, para além de prêmios, o fomento à inovação no setor público deva caminhar para a construção de redes e comunidades. Inovação e governo aberto andam de mãos dadas e debater inovação entre quatro paredes, com um punhado de especialistas apenas, pode parecer meio antiquado, possivelmente desperdiçando o conhecimento difuso que usuários e servidores dispõem sobre as realidades que os afetam e os possíveis caminhos para transformá-la.

Voltamos então às publicações de nossos colegas do OPSI. Desta vez para o excelente levantamento de competências essenciais para a inovação no setor público lançado em 2017. Segundo a publicação (que é bem curta e vale a leitura; se preferir, há uma versão em português traduzida pelos colegas da WeGov) para alcançar bons níveis de inovação uma organização deve ter servidores que desenvolvem conhecimento, habilidades e atitudes relacionadas às seguintes competências:

  • i) foco no usuário, colocando o cidadão e não a burocracia no centro das preocupações;
  • ii) iteração, ou seja desenvolvimento incremental, ágil e experimental de políticas, serviços e produtos;
  • iii) capacidade de criar narrativas, ou seja, comunicar a mudança de uma forma que crie coalizões de apoio;
  • iv) “letramento em dados” (data literacy), ou seja, basear as decisões em evidências;
  • v) curiosidade para buscar novas alternativas e soluções; e, por fim:
  • vi) a insurgência.

A insurgência é exatamente a atitude de questionar o status quo, propor novos processos e novas soluções e buscar parceiros não convencionais para implementá-las.

Está relacionada também a testar alternativas que efetivamente podem dar errado e entender que isso é parte do jogo. Não é a rebeldia como um fim em si mesma, mas uma postura de desafio embasada nas outras competências – capacidade de narrativas, uso de evidências, foco no usuário, etc.

Para inovar, então, precisamos por um lado cultivar um sistema que seja forte e múltiplo, mas que seja também flexível e receptivo à sua própria revisão. E precisamos que servidores e cidadãos entendam e apoiem atividades de experimentação. Precisamos, por fim, experimentar, de forma propositiva, questionadora, e em busca de aprendizados e resultados – o que será objeto de nossa próxima coluna!

Em tempo – junto com a OCDE, a ENAP vem conduzindo alguns estudos sobre o contexto de inovação no setor público brasileiro. Um deles busca aplicar justamente essas competências essenciais para inovação no setor público para o contexto brasileiro. O estudo ainda está em elaboração, mas suas conclusões preliminares já estão disponíveis para o público.


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