Carreira

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“Tenho 26 anos e um escritório de sucesso”, diz advogado

Criminalista desistiu de concursos públicos e já atuou nas Operações Métis, Zelotes e Miquéias

O advogado Ivan Morais Ribeiro tem apenas 26 anos, dos quais quase três de carreira, e já acumula atuações relevantes: foi ele o responsável por suspender a Operação Métis, da Polícia Federal, que resultou na prisão temporária de policiais legislativos do Senado. Representa clientes ainda nas Operação Zelotes – que investiga esquemas de corrupção no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais (Carf) -, e na Operação Miquéias, que apurou lavagem de dinheiro e má gestão de recursos em fundos de pensão.

Formado em Direito pela Universidade de Brasília (UnB), Ribeiro passou primeiro pela engenharia, onde ficou um ano. Abandonou os cálculos e, ao começar os estudos jurídicos, tinha certeza do caminho que trilharia. “Concurso público é o que todo mundo aqui em Brasília pensa quando começa a cursar Direito, não é?”.

Filho de uma dona de casa e de um auditor fiscal, queria estabilidade. Até que a perspectiva sobre a carreira mudou. Quando estava prestes a se formar, entendeu que precisava ser “corajoso” caso quisesse tomar o rumo que lhe daria maior satisfação pessoal. A palavra coragem é repetida por Ribeiro para contar sobre a escolha de seguir a advocacia. Mais ainda, de abrir o próprio escritório, quando ainda era recém-formado.

“Eu achava que poderia fazer a diferença caso fizesse as coisas do meu jeito. Pode parecer arrogância, mas vejo que foi coragem”, diz. Atualmente, o jovem advogado desenvolve o que ele convencionou chamar de “advocacia de estratégia”.

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Entre livros sobre o Vale do Silício e doutrinas jurídicas, Ribeiro conta que desde que abriu um escritório para chamar de seu, teve altos e baixos. Oscilava entre dias em que desconfiava da sua capacidade de empreender ou se perguntava se não teria sido melhor começar como força de trabalho em um escritório de renome.

“Não é só depois de dez anos num escritório grande que você pode ser um bom advogado. Tem que ter paciência e saber que cada dia é um degrau!”, afirma.

Aos poucos, o escritório foi ganhando corpo. Ele explica que, pelo fato de poder seguir um método próprio de trabalho, consegue se dedicar mais às questões que acha realmente importantes.

“Para mim, a advocacia que fazemos é a que vai prevalecer nas próximas décadas. Estamos sendo pioneiros no que chamo advocacia da geração Y, a da liberdade de criação. Uma advocacia extremamente especializada, técnica, criativa e com bastante energia”, conta.

Abaixo, a entrevista concedida ao JOTA em seu escritório – uma sala iluminada que aluga dentro de uma casa do Lago Sul, bairro de classe alta da capital federal. O local abriga também um escritório antigo, e os custos com a estrutura são divididos.

JOTA: Como você decidiu que o caminho era abrir seu próprio escritório?

Ivan Morais Ribeiro: Existem três caminhos a serem percorridos na advocacia caso você queira fazer sucesso. O primeiro deles é entrar num escritório médio-grande e tentar se destacar lá dentro. E aí, então, você passa cinco ou seis anos e sai para montar seu próprio escritório. O segundo caminho é ir para o serviço público conseguir uma credibilidade e, quando sair, fazer um certo sucesso porque você tem contato com alguns agentes. Você tem uma interface tanto com o serviço público quanto com a sociedade. Ficar cinco a dez anos para depois sair e ir a peso de ouro para um escritório. E o terceiro caminho é esse de sair da faculdade e montar seu próprio escritório.  Eu estava indo muito bem em vários concursos, o último deles era um certame para cartório, que eu larguei no meio.

Mas porque não começar atuando num escritório maior para ganhar experiência?

Você começa não sabendo nada. Você acha que sabe, mas na hora que vai para a prática é muito diferente. Nesses últimos três anos eu aprendi o que talvez demorasse dez para aprender. Porque a gente tem responsabilidades inúmeras com os clientes. É diferente quando você é o começo e o fim do escritório. Em um lugar grande, que não é seu, com várias engrenagens, não há o conhecimento da linha de montagem completa. Muitas vezes você atende o cliente, ou só cuida do contrato. Muitas vezes você não está no êxito. Muitas vezes você não está no trânsito em julgado. Ser dono do próprio escritório é essa trajetória toda.

Como tem sido o aprendizado?

A gente aprende desde o momento em que o cliente chega desesperado, com receio de ficar dez anos preso. Você tem que gerir aquele sentimento, aquela situação extremamente delicada, desde o momento do êxito, que é uma das coisas que a advocacia tem de mais brilhante, que é você conseguir ganhar alguma coisa. Procurador não ganha, juiz não ganha, advogado ganha. Poder contar isso para o cliente, sabendo de toda essa trajetória. E é o que dá energia para seguir. Como eu não tenho estagiário, não tenho sócio, sou eu que acompanho tudo. E isso pode ser bastante desgastante, mas é o que me motiva.

Qual é o perfil de pessoas que você atende?

Tenho que ser em grande parte empresário. Eu falo que hoje sou 50% empresário, 50% advogado. Então, eu tento definir o público-alvo. Estava lendo outro dia um livro do Vale do Silício [A garota do Vale, da Bel Pesce] e entendi que não posso ter medo de contar minhas ideias. Eu tenho a intenção de, daqui a alguns anos, ter um público de empresas, que me traria a atuação no direito penal econômico. Particularmente por ter esse lado empreendedor, eu gosto de defender empresas, já que pelo sim pelo não é a empresa que gera riqueza, e eu sei o quanto o empreendedor sofre para fazer dar certo.

Hoje, ainda não consigo atender empresas. Atendo pessoas, casos individuais, muitos funcionários públicos. Pessoas com renda média-alta a elevada. E já não tenho conseguido atender todo mundo que me procura. Mas também pego alguns casos pro bono, quando vejo que é algum caso de injustiça patente, como aquele caso do estupro no ano novo. [Em janeiro de 2016, uma jovem denunciou por estupro o segurança da festa de réveillon da qual ela participava, em Brasília. O caso ganhou grande repercussão na mídia local e nas redes sociais].

Porque advogar num caso de estupro?

Nesse caso, vários dados não batiam. Era perceptível que ali havia várias incoerências. A primeira, a meu ver, foi quando olhei o perfil da moça do Facebook e vi que que ela havia publicado a foto do suposto agressor. E eu nunca tinha visto isso. Porque a mulher que é estuprada não consegue ver o rosto do agressor, ela fica com mania de limpeza, entra em pânico. O que dirá publicar uma foto. Comecei a me interessar pelo caso, estudei e sinceramente acho que ela foi mal orientada por profissionais do Direito, que falaram pra ela que foi estupro já que ela estava alcoolizada. Mas eu acredito que a injustiça que fizeram com o meu cliente me perturbou muito.

E qual foi o resultado?

O próprio inquérito policial demonstrou que não havia elementos nem para denunciar. O Ministério Público não chegou a oferecer denúncia e ainda ofertou contra ela denunciação caluniosa. No final, o juiz acabou arquivando. Mas é porque realmente quando o inquérito foi sendo desenvolvido havia muita coisa errada.

Esse caso deu notoriedade para o seu trabalho?

Com certeza. Reafirmou tudo com o que a advocacia criminal trabalha e honra: primar para que não haja injustiça e seja assegurada a presunção de inocência. Nunca foi sobre mostrar que o homem estava certo e a mulher errada, nada disso. O que eu vi é que já havia uma condenação prévia do cliente, pela mídia, pelas pessoas. O que é natural já que estupro é um crime muito grave e, infelizmente, tão comum.

É normal que as pessoas se enfureçam. Mas não podemos esquecer que existe presunção de inocência. Não podemos esquecer que quem julga é o juiz, o Judiciário. Não é a mídia, não é a sociedade. A vida daquele homem foi destruída socialmente. Assim como posso imaginar que a da moça certamente ficou bastante comprometida. Por isso acho que ela não fez por maldade.

E como foi sua participação na Operação Métis?

Foi uma loucura! Fiz uma estratégia que ninguém estava esperando. E ainda bem que deu certo! Acho que pelo fato de trabalhar sozinho, tenho coragem de ousar. O cliente ligou e depois de passar do período da prisão do cliente, que é o mais complicado, eu passei o final de semana estudando. E aí eu percebi que poderia jogar esses autos da Justiça Federal para o Supremo. E foi a partir de uma petição minha que o saudoso ministro Teori Zavascki suspendeu a investigação que levou à prisão de quatro policiais do Senado, ordenada por um juiz de primeira instância e cumprida pela Polícia Federal.

Esse dia foi um dos mais corridos e emocionantes da minha vida. Teori revogou as prisões para, em posse de todo o material, analisar se houve invasão de competência. E com certeza foi o meu caso de maior sucesso.

Como é atuar nessas operações importantes da Polícia Federal sendo um advogado tão jovem?

Eu não estou como “cabeça” nessas operações. Comecei a perceber que faltava uma advocacia pessoal. Eu pego poucos casos, mas me desdobro para encontrar saídas criativas, tentar conhecer o cliente, o caso por completo. E isso me alavanca. Meu escritório sou eu sozinho, não sou filho de ministro nem de desembargador. Aqui em Brasília há um nicho de seis escritórios que dominam esse mercado do direito penal, dos advogados criminalistas de sucesso. Mas eu percebo que dá para fazer a diferença com a minha estratégia de trabalho.

Em quem você se inspira?

Aury Lopes Júnior! Alexandre Morais da Rosa também. Eu leio bastante coisa e as últimas que tenho gostado muito são deles. Ambos dizem muito bem sobre processo penal e teoria dos jogos. São criminalistas que estão adaptados à nova realidade de escrita.

Como é sua estratégia de trabalho?

A advocacia que fazemos é a que vai prevalecer nas próximas décadas. Estamos sendo pioneiros no que chamo advocacia da geração Y, a da liberdade de criação. Uma advocacia extremamente especializada, técnica, criativa e com bastante energia.

A tecnologia vem revolucionando o jeito de pensar o Direito. A implementação de um sistema digitalizado, provas obtidas por meio tecnologicamente sofisticado refletem algo que chamo de a revolução estrutural da advocacia e do próprio crime.

Como advogados de gerações passadas podem entender um cybercrime, métodos avançados de lavagem de dinheiro ou os mecanismos utilizados pelo COAF [Conselho de Controle de Atividades Financeiras]?

Temos uma estratégia baseada em tudo isso: em muitos despachos com assessores, juízes, desembargadores, sustentações orais, produção de provas periciais, tudo envolto por uma especialização cada vez mais profunda em busca de resultados. A principal estratégia processual é trabalhar muito.

Qual é o recado que você deixa para aquelas pessoas que estudam Direito e têm vontade de advogar?

Eu diria para não deixar o medo vencer. Que nem sempre é fácil, a gente tem contas para pagar e, às vezes, o mês não fecha. Você balança e pensa se é hora de fazer um concurso, seguir o caminho seguro. Nada contra, mas vejo que todo mundo está com muito medo de se arriscar. E acredito que seja possível. Não é só depois de dez anos num escritório grande que você pode ser um bom advogado. Tem que ter paciência e saber que cada dia é um degrau! Mas a vida do advogado criminalista é intensa, gratificante. Vale a pena tentar. Tenho 26 anos e um escritório de sucesso, não posso me arrepender.


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