Opinião & Análise

Cultura

A crise das livrarias: evidências e possíveis lições

Pedidos de RJ de Abril, Cultura e Saraiva exemplificam que tradição e marca não são capazes de estancar revolução tecnológica

Crédito: Pixabay

A história da civilização ocidental demonstra que os livros são a grande chave de acesso ao conhecimento. Há entre o leitor e o livro uma relação de sedução e de descobrimento que, se bem compreendida e explorada, leva a um crescimento exponencial do primeiro enquanto torna o segundo objeto de desejo do púbico em geral.

O filósofo italiano Umberco Eco entendia que o valor de uma biblioteca estava nos livros não lidos, uma verdadeira fonte de conhecimento ainda não digerida; já o escritor argentino Jorge Luis Borges concebia a biblioteca como um modelo do universo, uma forma própria de moldar o mundo através do saber.

Tanto para um quanto para o outro, um dos maiores prazeres do leitor curioso, ao percorrer as vastas seções e galerias de bibliotecas e livrarias ao redor do mundo, é a possibilidade encantatória do acaso, melhor dizendo, a oportunidade de encontrar livros ao sabor do destino geográfico aleatório do leitor e do objeto da leitura[1].

Em termos de mercado, a invenção da imprensa no século XV, pelo alemão Johann Gutenberg, revolucionou a história da leitura e da circulação de ideias a ponto de expandir o acesso ao livro em escala mundial. Nesse particular, o modelo de negócio das grandes livrarias, com seus corredores charmosos de livros e suas seções de infinitas leituras, foi pioneiro na exploração da relação de consumo entre o leitor e seu objeto de desejo. Quem nunca se viu estupefato ao adentar as lojas da Barnes & Noble, em NYC, ou a Waterstone, em Londres?

Por décadas, esse modelo de negócio foi altamente rentável. Fato é que o advento da internet e tempo depois do e-commerce (comércio eletrônico) impactaram drasticamente a economia dos livros, seja por meio do surgimento da versão digital, seja pela criação de grandes livrarias virtuais, com especial destaque para a Amazon.

A bem da verdade, o impacto da tecnologia nesse mercado torna faz cada vez mais premente a constatação de Mike Campbell, personagem de Ernest Hemingway em “The sun also rises”: “How did you go bankrupt?” Two ways. Gradually and then suddenly.”

A crise não faz concessões. Os últimos meses mostraram que o mercado brasileiro é pródigo nesse assunto. Os pedidos de recuperação judicial da Editora Abril, da Livraria Cultura e da Livraria Saraiva são exemplos de que tradição e marca não são capazes de estancar a revolução tecnológica nem a mudança de hábitos do consumidor, muito menos redimir equívocos na condução das empresas, na perda de foco, na diversificação para segmentos de alta competitividade e baixa margem de retorno, na desvalorização de parceiros estratégicos e na demora em readequar seus negócios aos novos tempos.

O estopim da crise empresarial resulta em perda de valor e traz dificuldades para todos os envolvidos no seu entorno. Mesmo assim, o regime jurídico da crise empresarial (estabelecido, entre nós, pela Lei 11.101/05) não está fechado em si mesmo; há muito se discute a crise das editoras e a dificuldade de negociação das grandes redes varejistas de livros com determinados players.

As negativas das tratativas extrajudiciais entre o devedor e seus credores (por meio da recusa no oferecimento de períodos de carência (standstill) e/ou aceitação de recuperações extrajudiciais) evidenciam que a crise não se resume ao mercado em si, mas também ao relacionamento havido entre os seus principais participantes.

Tudo indica que o advento de pedidos recuperação judicial das principais livrarias (e varejistas) do país será uma grande oportunidade de aproximar editoras, fornecedores e credores financeiros, permitindo discutir práticas comerciais polêmicas, tais como o fornecimento em consignação, longos prazos para pagamento de encomendas, sem contar a possibilidade de ajuste do modelo de negócio, o aprimoramento de táticas de logística, o investimento em nichos específicos, entre tantos outros assuntos.

Parece que a implacável destruição criativa de Schumpeter direcionou sua atenção para o mercado das grandes livrarias. Há quem veja na crise uma oportunidade de saneamento do negócio e de mudança nas velhas práticas empresariais. Não há dúvida de que, entre mortos e feridos, os sobreviventes ditarão o ritmo do ressurgimento.

Em mercados altamente competitivos, por vezes, a solução está em aceitar os méritos alheios e explorar suas reais vantagens competitivas, focar no core business, retomar o conceito de livrarias especializadas, e assim por diante.

Entre otimismo e pessimismo, prefiro acreditar no progresso dos negócios, na curiosidade do ser humano por conhecimento, na capacidade do empreendedor de se reinventar, no interesse histórico pela leitura e na necessidade de estabelecimentos empresariais que estimulem o contato e o consumo de livros.

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[1] Como muito bem descreve Umberto Eco: “A função ideal de uma biblioteca é de ser um pouco como a loja de um alfarrabista, algo onde se podem fazer verdadeiros achados, e esta função só pode ser permitida por meio do livre acesso aos corredores das estantes (ECO, Umberto. A biblioteca. Lisboa: Difel, 1994, p. 3).


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