Entrevista

Arranjos colaborativos em favor da cultura

Na coluna desta semana, Milton Seligman entrevista o professor do Insper Sandro Cabral

07/09/2020|07:00
Atualizado em 07/09/2020 às 13:01
Professor do Insper, Sandro Cabral fala sobre relação entre cultura e Estado. Imagem: Youtube do JOTA

No Brasil não se morre de tédio. Basta você pensar em um problema e levantar hipóteses sobre como superá-lo, para uma autoridade ocupar a cena com uma afirmação categórica. Terá ela refletido? Terá se aprofundado nas evidências? Considerou o bem comum?

Nesta semana, o presidente Jair Bolsonaro usou suas redes sociais para comparar com uma doença às Organizações Não Governamentais (ONGs) que atuam na área ambiental. "Você sabe que as ONGs, em grande parte, não têm vez comigo. Boto para quebrar em cima desse pessoal lá (sic), não consigo matar esse câncer, em grande parte, chamado ONG".

O presidente não faz esta afirmação em um ambiente de estabilidade. Muito ao contrário. O mundo vive uma grande revolução no modo de produção, com a internet se transformando na mais importante infraestrutura. O regime político consagrado, a democracia, regime das leis e da maioria está sob ameaça. Os governos estão sob enorme pressão e devem se reinventar. Há fortes indícios que deveremos buscar mais colaboração, mais arranjos entre as administrações públicas, as entidades da sociedade civil e o setor privado, para fazer frente aos desafios.

target="_blank" rel="noopener noreferrer">Conversei essa semana com o professor Sandro Cabral, professor titular do Insper. Sandro é engenheiro, doutor em administração e especialista em estratégia organizacional. Homem de dupla cidadania, como afirma, pois nasceu em São Paulo e é radicado na Bahia. Torce com igual fervor para o Palmeiras e para o Esporte Clube Bahia.

Nossa conversa girou em torno de cultura como área capaz de nos dar pistas para o mundo que está vindo e também como fator de transformação social, de grande calibre e envergadura, para ajudar senão a curar, ao menos atenuar, as dores que as mudanças profundas estão provocando.

Ambos acreditamos que a área cultural tem uma importância que vai muito além de apoiar as manifestações artísticas em todas as suas presenças, sejam nas artes plásticas, na música, na arquitetura, na fotografia, na dança, no artesanato e onde mais a beleza romper o esperado e se mostrar surpreendente.

A cultura tem uma importância que vai além da expressão artística. Compartilhamos o pensamento do baiano Glauber Rocha, para quem “cultura é o estilo de uma civilização, através do comportamento e da produção significativa da ciência e da arte”.

Desse modo, admirando de dentro e com grande preocupação o quadro presente do estilo civilizatório brasileiros, perguntei a Sandro sobre como encontrar um fio condutor que nos permita recuperar um país que já foi sonhado algumas vezes, como certamente na semana de 22, em maio de 68, em meados dos 90 e na década inicial do século 21? Onde está aquela sociedade que foi admirada pelo seu poder brando de criar um processo de inclusão social e chamar isso de progresso?

Talvez esse fio condutor possa estar nas grandes manifestações populares brasileiras, como o carnaval, e em especial na maior festa de rua do planeta, o Carnaval de Salvador, Bahia.

O que pode nos falar de carnaval da Bahia esse craque em estratégia organizacional? Segundo Sandro, essa festa é um espetacular arranjo colaborativo, uma excepcional parceria entre administrações públicas ocupadas por partidos adversários, por organizações policiais que competem por orçamento, por empresas privadas que buscam o seu lucro, por ambulantes informais, por gente rica, de classe média, gente pobre e muito pobre e por ONGs, essas mesmas que o presidente Bolsonaro gostaria de acabar. Mesmo em meio a tanta rivalidade e interesses antagônicos, além de moldar a própria identidade dos soteropolitanos e de gerar emprego e renda por meio da ativação uma enorme cadeia na indústria de entretenimento, o carnaval de Salvador é fonte de alegria para turistas e baianos.

Vale a pena escutar o que pensa o Sandro Cabral. Por favor, tome assento:

logo-jota