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Marina Silva: Brasil vai à cúpula do clima pedir dinheiro para cumprir obrigações

Ex-ministra do Meio Ambiente diz que governo brasileiro está na contramão dos interesses do resto do mundo

Marina Silva enquanto era candidata à presidência nas eleições de 2018 | Crédito: Marcello Casal jr/Agência Brasil

Organizada pelo governo dos Estados Unidos, a cúpula do clima da próxima semana, nos dias 22 e 23 de abril, reunirá 40 governos e chefes de Estado, entre eles Jair Bolsonaro. Evidentemente, a política ambiental brasileira, envolvendo sobretudo a Amazônia, será uma das pautas principais. Ex-ministra do Meio Ambiente no governo Lula, Marina Silva (Rede) fez críticas à postura nacional:

“O Brasil vai para a cúpula do clima que o presidente Joe Biden convocou na semana que vem com o pires na mão dizer que podemos fazer se pagarem. Se você tem recursos, você cuida para fazer não é porque alguém vai pagar”, afirmou Marina em entrevista na CASA JOTA nesta quinta-feira (14/4). “Não é só redução de danos, mas criar um novo paradigma. Temos a solução para boa parte dos problemas que o mundo está vivendo.”

Ela avalia que Jair Bolsonaro e o ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles devem fazer promessas em consonância com a preservação ambiental para garantir certo diálogo com o resto do mundo, mas continuar na contramão, sem reduzir desmatamento e emissões de gases de efeito estufa.

“Dentro do atual governo, não consigo ver saída rumo à economia verde, porque esse é um governo que não quer encontrá-la. O Brasil já foi parte da solução, era um interlocutor respeitável quando o tema era ambiental. Em menos de dois anos, nos tornamos um pária ambiental”, disse.

Além disso, os direcionamentos do governo brasileiro na política climática estariam indo na contramão do que tem proposto a maior parte das democracias ocidentais.

“O mundo está se organizando para taxar economias que são carbono intensivas. A Europa já fez essa equação, Estados Unidos e China também. O posicionamento do Brasil tem um custo e estamos pagando por ele. Quando a OCDE cria uma série de requisitos para admitir o Brasil já é uma demonstração que todo mundo está marchando para um lado, e o Brasil quer ir para a direção contrária”, avaliou.

Segundo a ex-ministra, mudar a imagem que se tem no exterior sobre a atuação do Brasil na preservação de florestas depende de soluções concretas que mudem o quadro enfrentado hoje.

“Na prática, o governo saiu do Acordo de Paris, porque está indo na contramão do que se comprometeu e está deixando o desmatamento sem controle”, disse. Assim, apenas mudando índices de desmatamento, matrizes energéticas e agropecuária saudável seria possível reverter as críticas. Esse tipo de ação também poderia ter origem em outros agentes: “É necessário e desejável que governos locais e empresas mostrem para o mundo que o Brasil não é a barbárie que o Bolsonaro apresenta, ou seja, uma diferenciação entre a sociedade e o governo de plantão”.

Por conta dos resultados na área ambiental desde o início do governo e da gestão da crise disparada pela pandemia, Marina Silva é uma das lideranças a defender a abertura de um processo de impeachment contra Jair Bolsonaro. Há, atualmente, na Câmara dos Deputados, cerca de 100 pedidos, sendo 30 deles a respeito da atuação diante da Covid-19.

“O que está acontecendo no Brasil é um crime de lesa humanidade. Bolsonaro é um grande mal para os interesses do país. Tem hora que é preciso fazer o que é certo, mesmo sem apoio popular”, disse sobre os deputados discutirem o impeachment ainda que haja a consenso de que um terceiro processo do tipo no país seria aprovado. “É traumático, mas mais ainda é chegar a situação em que chegamos, com tantas vidas perdidas”, completou, opinando que não ter aberto o procedimento será uma “mácula” na presidência de Rodrigo Maia (DEM-RJ) na Câmara dos Deputados.

Marina Silva e as Eleições de 2022

Em relação às eleições de 2022, ela entende que a construção de uma terceira via diante da eventual polarização entre Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva, só é viável se houver uma confluência de “projetos” em comum. Isso significaria haver diálogo para a escolha de uma candidatura forte. Haveria entendimento nesse sentido principalmente entre PV, PDB, PDT, Cidadania e o partido dela, Rede Sustentabilidade.

“Vamos ver o melhor projeto e depois a gente vê qual é a pessoa que melhor pode protagonizar. O mal do Brasil é que fazemos a disputa ou em torno da pessoa ou do partido”, disse, sem admitir ou descartar concorrer em alguma chapa, como a de Ciro Gomes (PDT).

Embora já tenha sido candidata à presidência nas três últimas eleições, Marina Silva não foi convidada a assinar carta defesa da democracia divulgada em 31 de março por potenciais presidenciáveis. Participaram do documento Ciro Gomes, Eduardo Leite, João Amoêdo, João Doria, Luiz Henrique Mandetta e Luciano Huck. “Obviamente que a mobilização de figuras que estão se colocando como candidatos é positiva, mas a democracia não é assegurada por mobilização de candidatos, e sim pela vontade de um povo”, ressaltou a ex-senadora pelo Acre.

“Como o recorte era de candidatos, e estou insistindo que deve ser por projeto, posso não ter sido convidada por isso. Se fosse uma reunião entre democratas, eu certamente assinaria, até porque uma das bases das democracias é a participação de mulheres”, completou. Esse último ponto foi levantado por ela ao falar sobre críticas e ataques que têm recebido nas redes sociais de ela estaria “sumida” do cenário político.

Marina Silva criticou o sexismo de que às vezes é alvo: “São os campos autoritários que tem me tratado como se eu não existisse. Quando eu tive que enfrentar jagunços, dos 19 aos 28 anos, eu me posicionava. Por que agora eu não faria? Aprendi que tenho que falar aquilo que eu acredito, mas nunca usei os métodos que usaram e usam comigo.  Não vejo ninguém dizendo que o Alckmin está sumido, o Aécio, o Mercadante. Fica mais fácil desqualificar uma mulher negra e de origem humilde”.


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