Constituição, Empresa e Mercado

Empresas

O valor de tudo: argumentos centrais da obra de Mariana Mazzucato

A importância da reflexão sobre a geração de valor na economia e sobre a diferenciação entre quem produz (makers) e quem extrai (takers)

Mariana Mazzucato. Crédito: Flickr sfupamr (Universidade de Simon Fraser)

A coluna de hoje dedica-se a explorar os argumentos centrais da excelente obra de Mariana Mazzucato The Value of Everything1. O pano de fundo das suas preocupações é a crescente desigualdade, refletida na constatação de que, de 1979 até hoje, os salários dos trabalhadores americanos estagnaram ou até mesmo caíram, enquanto a elite econômica capturou praticamente todos os ganhos da economia em expansão. Daí a sua pergunta: isso ocorre porque a elite é composta pelos membros particularmente mais produtivos da sociedade?

Uma crítica comum que tem sido feita ao capitalismo é que ele vem premiando rent seekers mais do que criadores de riquezas. Por rent seeking, entenda-se todo tipo de ganho que é desvinculado da produção de riquezas, tais como os decorrentes de cobranças acima dos preços competitivos e exploração de vantagens indevidas. Daí a clássica oposição entre os makers (quem faz) e os takers (quem toma).

Segundo Mariana Mazzucato, muitos autores que se dedicam ao problema não abordam as causas principais. Seria o caso de Picketty, para quem a indústria financeira predatória gera desigualdade porque é taxada insuficientemente e permite que tais riquezas sejam herdadas por gerações, possibilitando que os ricos se tornem ainda mais ricos. Daí a proposta de que, por meio da tributação, tais distorções sejam corrigidas ou pelo menos atenuadas.

Para a autora, entretanto, é importante focar nas causas do processo e entender em que medida as compreensões sobre o valor, visto como fluxo ou processo pelo qual a riqueza é criada, influenciam em tais resultados.

Esse é o gancho que permite à Mariana Mazzucato ressaltar o papel das histórias que têm sido contadas sobre quem são os criadores de riqueza no moderno capitalismo, sobre que atividades são produtivas e também sobre de onde vem o valor.

Nesse contexto, a provocação de Mariana Mazzucato é a seguinte: mas e se forem apenas histórias? Se forem apenas narrativas criadas para justificar as desigualdades de riqueza e de ganhos, massivamente premiando os poucos que são capazes de convencer governos e sociedade de que eles merecem essas altas premiações, enquanto o resto fica com as sobras? Se Platão estava certo ao mostrar como as histórias formam o caráter, a cultura e o comportamento, não deveríamos submeter todas as histórias que nos são contadas a constante processo de supervisão, para o fim de descartas as inadequadas?

É sob essa perspectiva que a autora mostra como as narrativas atuais conseguiram fazer com o que o valor saísse da posição que ocupava no coração do pensamento econômico. Afinal, durante o século XIX, os economistas tentaram criar uma teoria objetiva do valor – propondo diversos critérios, tais como as condições em que bens e serviços foram produzidos, quantidade e qualidade de trabalho, tempo para a produção, etc. – e preocupavam-se com o crescimento econômico a partir do estímulo a atividades produtivas e do desincentivo a atividades não produtivas.

Entretanto, esse processo sofreu um reverso, a partir do momento em que os economistas começaram a defender que o valor de um bem ou serviço era o preço fixado pelo mercado, optando por uma teoria subjetiva do valor, de acordo com as preferências individuais e o mecanismo de preços definido pelo mercado.

Segundo a autora, tal reviravolta se explicava, no contexto de transição do século XIX para o XX, pelos riscos do socialismo, uma vez que, ao desvincularem o valor do trabalho, afastariam as acusações sobre a mais valia do empresário. Entretanto, tal pensamento é dominante até hoje, pois continuamos a ser doutrinados e levados a acreditar que o valor é função da dinâmica dos preços, das preferências e da escassez.

O empobrecimento intelectual da discussão sobre o valor permitiu que tal conceito fosse usado e abusado para os mais diferentes propósitos.

Afinal, se o valor é definido apenas pelo preço, qualquer atividade a que se pode fixar um preço será considerada dotada de valor. Acresce que, sob essa perspectiva, torna-se mais fácil justificar atividades de extração e mascará-las como atividades de geração de riquezas, confundindo lucros (earned incomes), com meras rendas (unearned incomes) e criando incentivos para o aumento da desigualdade e a diminuição do investimento na economia real.

Com isso, a autora pretende demonstrar que a discussão sobre o valor não é um debate meramente teórico, mas sim uma discussão com importantes consequências sociais e políticas, na medida em que afeta como nos comportamos na economia e também como medimos as performances dos diferentes atores. É o que os filósofos chamam de performatividade (performativity): o jeito que falamos sobre as coisas altera e afeta nosso comportamento e como teorizamos as coisas, tornando-se quase uma profecia autorrealizável.

Daí a importância de se ter uma análise crítica sobre as histórias que nos têm sido contadas sobre o valor, bem como de se resgatar os esforços para uma reflexão em torno de uma teoria do valor. Segundo a autora, uma teoria do valor importa por várias razões, dentre as quais:

  1. O desaparecimento do valor dos debates econômicos esconde o que precisa estar vivo, público e ativamente sujeito à contestação. Sem uma teoria do valor, algo pode ser considerado valoroso apenas porque alguém sustenta que o é, sem haver qualquer parâmetro objetivo para refutar a alegação ou submetê-la a algum tipo de escrutínio.

  2. A ausência de uma análise sobre o valor tem massivas consequências para a distribuição de ganhos entre os membros da sociedade. Quando o valor é determinado apenas pelo preço, o nível de distribuição parece justificável desde que haja um mercado para isso. Todo ganho é, pois, considerado legítimo, em uma análise circular: e legítimo porque tem preço e tem preço porque é legítimo. Nesse contexto, como se falar em ganhos que não decorrem de geração de riqueza?

  3. Para direcionar a economia em determinadas posições, os reguladores – quer reconheçam ou não – são inevitavelmente influenciados por alguma ideia de valor.

Como se pode observar, a ideia atualmente prevalecente sobre o valor está atrelada à confiança exacerbada nos mercados: nenhum ganho pode ser considerado muito alto, já que a própria economia de mercado impede que alguém ganhe mais do que merece. Todavia, Mariana Mazzucato lembra que, na prática, mercados são normalmente imperfeitos, de forma que preços e salários são normalmente fixados pelos mais fortes e pagos pelos mais fracos. Aliás, a autora demonstra que mesmo os defensores da teoria subjetiva do valor reconhecem a sua interdependência da livre concorrência e defendem a remoção dos impedimentos para a competição.

Outro insight importante é que as histórias sobre o valor, além de se apoiarem em uma visão idealizada dos mercados, vistos como sempre virtuosos e eficientes, também difundem a visão do poder público como lento, não criativo, ineficiente e burocrático. Para a autora, da mesma forma que o setor financeiro foi feito produtivo, o estado foi feito improdutivo. O pensamento econômico moderno mitiga a atuação do estado a resolver falhas de mercado, sem destacar o seu importante papel de criar e moldar os mercados.

Todas essas circunstâncias ajudam a entender a importância das narrativas para o embaçamento das próprias definições do que seriam atividades produtivas e não produtivas. Isso ocorre porque tal diferenciação dificilmente tem ocorrido apenas como o resultado de mensurações científicas; na verdade, deriva de perspectivas políticas, explícitas ou não, bem como de visões de mundo sobre como a sociedade e a própria teoria econômica devem ser construídas.

Tanto é assim que, no capítulo 3, a autora mostra como atividades tradicionalmente consideradas como rent seeking, passaram a entrar no cálculo do PIB, destacando o peso do lobby para que tais resultados fossem alcançados. O argumento principal é que os limites sobre o que é ou não produtivo não são mais explícitos ou ligados a uma ideia aberta sobre valor, já que atores econômicos podem, por meio do lobby, silenciosamente se colocar dentro das atividades produtivas sem muito alarde. Um dos exemplos nesse sentido seriam as finanças, que teriam passado por uma redefinição extraordinária, deixando de ser vistas como um setor improdutivo – mais voltado para a transferência de valor do que para a geração de valor – para se tornarem um setor produtivo e gerador de valor.

Todas essas questões desembocam no ponto fundamental do livro, mais desenvolvido no capítulo 9, em que a autora reconhece que o seu objetivo, longe de ser o de propor alguma teoria fechada sobre o que vem a ser o valor, é levantar a importância da discussão e da reflexão sobre o valor.

Para isso, precisamos entender que a teoria do valor, longe de ser uma força objetiva determinada pela oferta e pela demanda, é algo que está profundamente embutido nas formas como vemos o mundo e nas narrativas que dão sustentação a essas formas.

Conclui-se, assim, com a advertência da autora de que apenas com um debate aberto sobre valor, suas fontes e o que pode incentivá-lo poderemos conduzir nossas economias para uma direção que possa produzir mais inovação genuína, menos desigualdade e maior comprometimento do setor financeiro com geração de valor para a economia real.

Afinal, o valor não é um dado inalterável, mas sim algo que é moldado e criado, motivo pelo qual precisamos ficar atentos às histórias e teorias que dão sustentação às atuais concepções, bem como aos interesses a que servem.

—————————-

1 The value of everything. New York: Public Affairs, 2018.


Faça o cadastro gratuito e leia até 10 matérias por mês. Faça uma assinatura e tenha acesso ilimitado agora

Cadastro Gratuito

Cadastre-se e leia 10 matérias/mês de graça e receba conteúdo especializado

Cadastro Gratuito