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O negócio das fake news e suas repercussões

Uma leitura do problema à luz do livro ‘As Origens do Totalitarismo’ de Hannah Arendt

Hannah Arendt (1906 - 1975). Crédito: flickr Ryohei Noda

O objetivo do presente artigo é resgatar alguns dos insigths da obra seminal de Hannah Arendt As Origens do Totalitarismo para que tenhamos uma melhor noção da dimensão do problema relacionado às fake news, especialmente no que diz respeito aos perigosos efeitos da sua utilização política, o que pode ser feito por diversos mecanismos, dentre os quais modelos de negócios cada vez mais sofisticados.

O livro de Hannah Arendt, como o título já anuncia, procura explorar os vários aspectos que possibilitariam a implantação de um regime totalitarista, atribuindo especial destaque para o papel da desesperança e da apatia de uma parcela da população – especialmente os mais pobres – que se sente excluída e esquecida pela sociedade e pelo sistema político.

Segundo a autora, a partir do momento em que as pessoas são atomizadas, isoladas de seus laços sociais e perdem qualquer tipo de perspectiva social ou comunitária, suas preocupações passam a ser puramente o próprio interesse. Isso faz com que fiquem vulneráveis e suscetíveis de serem cooptadas por movimentos nacionalistas, na medida em que estes lhes oferecem um senso de significado e de pertencimento que elas haviam perdido.

O segundo passo necessário para a implementação do projeto totalitário é a ausência de pensamento analítico e político autônomo por parte dos cidadãos, a fim de que apenas a visão do líder passe a importar. Daí o papel estratégico da propaganda, tal como foi vastamente utilizada pelo nazismo, a fim de atender a diversos objetivos, dentre os quais (i) a desconsideração da verdade, já que qualquer evidência fática que contrarie a visão do líder é considerada inimiga e, portanto, incorreta, (ii) a negação da história, que passa a ser distorcida para “caber” na ideologia e (iii) a propagação de mentiras ou narrativas falsas.

Todos esses elementos estiveram presentes para que o nazismo pudesse ser bem sucedido, valendo destacar a proliferação de histórias falsas sobre conspirações dos judeus e as ameaças que representariam, de um lado, e a narrativa da supremacia ariana, de outro. Tais narrativas precisaram ser veiculadas intensamente, muitas vezes reforçadas ou alternadas com técnicas de terror e violência, até que, de mero “conto”, passassem a ser “realidade pública”, por mais absurdas que fossem.

É lógico que esse tipo de propaganda precisa encontrar um solo fértil para florescer. Daí o diagnóstico de Arendt de que o projeto totalitário precisa levar as pessoas a estados mentais extremos a fim de que mesmo as ideias mais absurdas e estranhas possam ser prontamente aceitas. Outra estratégia fundamental, muito bem descrita por Arendt, é a desumanização das pessoas, o que possibilitou que os assassinos nazistas “tornassem-se” meros burocratas cumpridores de ordens enquanto os judeus assassinados eram desprovidos da sua condição humana.

Para Arendt, o objetivo final de todas essas estratégias e técnicas de propaganda e manipulação de massas é um só: reforçar o isolamento das pessoas e suprimir o pensamento livre, a espontaneidade e a capacidade individual de fazer escolhas, refletir sobre as consequências dessas escolhas e poder mudar de opinião.

Somente assim os cidadãos verdadeiramente deixariam de ter controle sobre suas vidas e se tornariam instrumentos de obediência ao líder, ainda que este as estivesse conduzindo para o genocídio e a barbárie.

É por essa razão que Arendt conclui não ser possível qualquer discussão razoável com as pessoas que passaram por esse tipo de “doutrinação”, já que elas foram desprovidas da sua própria individualidade, da sua consciência e da sua capacidade crítica. Nesse estágio, as pessoas simplesmente deixam de ter o direito e a responsabilidade para tomar decisões informadas e mesmo para avaliar suas ações.

É sob essa perspectiva que a autora conclui não haver nenhuma razão para acreditarmos que o horror de um regime assim não ocorrerá de novo.

Todavia, segundo ela, podemos aprender com a história e identificar o conjunto de sinais que iniciam tais processos, dentre os quais a solidão e o isolamento de uma parte significativa da sociedade que, ao se sentir excluída e “deixada para trás”, torna-se facilmente suscetível de captura por discursos populistas e totalitários.

Passados quase setenta anos desde a data da publicação do livro, as palavras de Hannah Arendt encaixam-se com tamanha perfeição a tantos aspectos da realidade atual que podem ser consideradas proféticas.

Em um mundo marcado pelo aumento crescente da desigualdade desde o final do século passado, é cada vez maior a massa de excluídos e descontentes que compartilham o sentimento de solidão, abandono e ressentimento em relação à sociedade e ao sistema político.

Assim como aconteceu na época do nazismo, líderes populistas têm também conseguido mobilizar grandes setores da sociedade, incluindo os mais pobres, mesmo com pautas e programas de governo que, a rigor, são direcionados apenas à elite. Entretanto, a base de apoio é mobilizada a partir da oferta de um senso de pertinência que é construído artificial e sistematicamente a partir da propaganda, da desinformação e da mentira.

Portanto, por mais paradoxal que seja, segmentos importantes das elites políticas e econômicas podem se beneficiar duplamente com o fenômeno, uma vez que, quanto mais as políticas estatais são excludentes e aumentam a pobreza e a desigualdade, mais os excluídos se tornam suscetíveis de manipulação, inclusive para o fim de apoiarem irrestritamente propostas e programas políticos que não lhes trarão nenhum benefício concreto e ainda poderão piorar a sua situação.

É esse o pano de fundo que nos permite analisar com maior alcance a questão das fake news, fenômeno que pode comprometer todos os pilares de uma sociedade democrática, na medida em que dificulta ou mesmo inviabiliza o debate entre ideias e qualquer possibilidade de diálogo, consenso ou soluções de compromisso. Aliás, sob esta perspectiva, até mesmo os pressupostos de um regime de mercado são comprometidos, pois os mercados também dependem de um fluxo informacional minimamente adequado, tal como já foi explorado em artigo anterior1.

Se a importância da informação já era crucial para as democracias e os mercados mesmo em tempos mais antigos, com maior razão torna-se ainda mais crucial na fase em que vivemos.

Afinal, a sociedade e a economia da informação não recebem esse nome por acaso, mas sim diante do reconhecimento claro de que a informação é hoje a forma mais importante de poder e pode ser exercida por meios até então impensáveis.

Com efeito, ao lidar com o tema das fake news, é fundamental entender o que torna a discussão realmente nova. Nesse sentido, não é a utilização política da mentira em si, pois tal estratégia é tão antiga como a humanidade. Também não é a propaganda em si, pois há muito tempo que se compreende os seus riscos, especialmente quando se rompe a fronteira da influência para se adentrar na zona da manipulação, o que é especialmente perigoso diante de técnicas que procuram trabalhar com o nosso subconsciente.

Portanto, mentira e propaganda são fenômenos que não têm nada de novo e, a rigor, já poderiam ser considerados grandes obstáculos à existência de um fluxo informacional de qualidade, com todos os comprometimentos daí resultantes para a economia, a sociedade e a política. E nem se afirme que a chamada “imprensa livre” resolveria os problemas do nosso tempo, pois também sabemos como a imprensa há muito é concentrada em torno de poucos e importantes veículos, sendo facilmente capturada pelos interesses dos grupos econômicos que as controlam ou de seus patrocinadores.

O que há de novo na atualidade é uma soma de circunstâncias que potencializa a disseminação da mentira e aumenta os seus efeitos nefastos, tais como:

(i) a crescente utilização da internet, o que possibilita que cada cidadão seja também uma mídia, no sentido de que pode divulgar publicamente suas opiniões e versões dos fatos e se sente à vontade para fazê-lo sem nenhum cuidado com a veracidade;

(ii) o crescente protagonismo de plataformas que, a exemplo do Google e do Facebook, acabaram tornando-se grandes gestores de conteúdo, na medida em que filtram, selecionam, classificam e ranqueiam as informações que chegarão a cada um dos seus usuários por meio de algoritmos que são mantidos em segredo;

(iii) a existência de aplicativos de comunicação que, a exemplo do Whatsapp, podem ser utilizados para disparos em massa com ampla penetração;

(iv) a presença de muitas pessoas que interagem na internet de forma anônima, por meio de perfis falsos, e também a presença crescente de robôs, o que pode subverter por completo a esfera pública.

De fato, a participação de robôs nas discussões públicas cria um debate público completamente artificial e distorcido, sem qualquer transparência sobre quem efetivamente participa e a que interesses serve. Cria-se uma falsa arena democrática, em que robôs, embora não votem, pautam as discussões e formam a chamada “opinião pública” com seus posts e likes.

Tem-se, portanto, um contexto muito favorável para a utilização da mentira como verdadeira arma política, especialmente quando a propaganda pode ser feita de maneira individualizada. Com efeito, em uma sociedade de vigilância, a coleta maciça de dados pessoais possibilita que agentes possam conhecer muito das pessoas, incluindo suas fragilidades, para explorá-las da forma mais adequada possível.

Portanto, a mesma propaganda política, que antes era feita de forma ampla e indiscriminada, agora é customizada e, consequentemente, passa a ter um poder de penetração muito maior, inclusive no que procura neutralizar a individualidade e a capacidade crítica das pessoas.

De fato, no contexto de uma economia movida a dados, os chamados mercados de atenção e de consciências são os dois lados da mesma moeda. Quanto mais um aplicativo consegue atrair o nosso tempo e a nossa atenção, mais dados pessoais poderá coletar e mais recursos terá para nos influenciar ou manipular ou para possibilitar que seus parceiros comerciais o façam.

É imperiosa, nesse sentido, a referência ao caso Cambridge Analytica, ao mostrar que a intenção de manipular pessoas e mesmo resultados de eleições tem propiciado a estruturação de importantes e lucrativos modelos de negócios que atuam nessa seara. As possibilidades de negócios são inúmeras e algumas bastante acessíveis, tais como o exemplo de Youtubers que, com poucos recursos e investimentos, conseguem manter canais para disseminação de fake news com milhares de seguidores, o que lhes assegura não apenas difundir o que lhes interessa mas também obter excelentes remunerações, já que estas são pagas pela plataforma de acordo com o número de visualizações.

Tais modelos de negócios mostram, inclusive, a crescente convergência entre os interesses econômicos e políticos que estão por trás da exploração das fake news. Aliás, no famoso inquérito que hoje tramita no Supremo Tribunal Federal para a investigação das fake news, vários indiciados são empresários que supostamente financiam a indústria da mentira em prol simultaneamente dos seus interesses econômicos e políticos. Não é sem razão que, a propósito das discussões sobre o projeto de lei das fake news, muito se tem falado sobre a importância de identificar as fontes de financiamento da indústria da mentira e da manipulação (follow the money).

O que precisa ficar claro é que a utilização da mentira como atividade econômica e como propósito político, qualquer que seja o modelo de negócio e qualquer que seja o grau de vinculação ou não com políticos concretos, apenas vem estimulando a polarização social e a segmentação do fluxo informacional em bolhas.

Se a existência de bolhas informacionais já é um fenômeno complicado por si só, o problema se torna ainda mais grave quando o processo de formação dessas bolhas não se dá a partir do livre convencimento e engajamento das pessoas, mas sim a partir da exploração sem limites de suas fragilidades e desencantos, retirando delas qualquer espírito crítico e manipulando-as deliberadamente a fim de que possam aderir a determinados valores ou orientações políticas.

A negação da ciência e da história é tão somente uma parte de processo muito mais intrusivo, que tem por objetivo a desumanização e a anulação do livre pensamento, tal como já havia sido diagnosticado por Hannah Arendt, ainda que a autora jamais pudesse imaginar, na época em que escreveu o livro, quão mais sofisticadas e eficientes poderiam ser as atuais técnicas de propaganda e manipulação. Daí por que, embora alguns afirmem que as pessoas mais pobres e ignorantes sejam as mais suscetíveis a esse tipo de manipulação, a rigor ninguém está a salvo dos atentados maciços que o meio virtual vem apresentando à própria individualidade em prol da adesão incondicional a determinados projetos políticos ou ideologias, por mais absurdos ou nefastos que sejam.

O que se observa, portanto, é que, embora a mentira, a propaganda e a parcialidade e as tentativas de manipulação da própria imprensa tradicional já fizessem parte da realidade pré-internet, o ambiente digital aumentou consideravelmente os riscos de todos esses processos.

Verdade seja dita que lidar com o problema não é fácil, a começar pelos próprios conceitos do que vem a ser mentira e desinformação e em que medida se deve separar o joio do trigo para não comprometer o exercício da liberdade de expressão. Por outro lado, muito do debate a respeito do projeto das fake news diz respeito à adequação das soluções regulatórias, a fim de avaliar em que medida são proporcionais e necessárias.

Entretanto, não obstante a complexidade do assunto, é importante não tergiversar e assumir que o que está em jogo é precisamente aquilo que Hannah Arendt já advertia há setenta anos: a ameaça concreta à individualidade e à própria democracia.

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