Constituição, Empresa e Mercado

Economia

Novas perspectivas para a regulação jurídica dos mercados – Parte IX

O que temos a aprender com o livro ‘Arguing with Zombies’, de Paul Krugman

Paul Krugman. Crédito: Flickr Commonwealth Club

Dando seguimento à série sobre as obras recentes que devem ser lidas, não poderia deixar de mencionar Arguing with zombies. Economics, Politics, and the Fight for a Better Future, de Paul Krugman (New York, W.W. Norton & Company, 2020), prêmio Nobel de Economia e provavelmente um dos economistas mais respeitados e admirados do mundo.

O livro consiste em reunião de vários dos seus artigos sobre diversos temas, muitos dos quais escritos para a sua coluna do New York Times, agora reunidos por assunto e precedidos de uma breve apresentação.

A introdução já vale o livro, a começar pelo título instigante: “The Good Fight”. Nela, Krugman mostra como, nos Estados Unidos do século XXI, tudo se tornou um ato partidário, inclusive aceitar o que a evidência diz[1]. Aliás, perguntar certas questões já é considerado um ato partidário, como é o caso da desigualdade: “If you ask what is happening to income inequality, quite a few conservatives will denounce you as un-American. As they see it even bringing up the distribution of income, or comparing the growth in middle-class incomes with those of the rich, is ‘Marxist talk’”. [2]

O problema dessa excessiva polarização é que torna tudo unidimensional[3]. Isso é extremamente problemático porque, embora a economia não nos diga que valores devemos ter, pode colocar luz sobre o que se deve esperar de políticas que refletem determinado conjunto de valores.

Sob essa perspectiva, o problema dos conservadores não é apenas o de defenderem que um maior papel do governo na economia é imoral e que a tributação de ricos para ajudar os pobres é um roubo. O problema é defenderem que isso é contraproducente ou mesmo destrutivo, mesmo quando a evidência é contrária às suas opiniões, hipótese em que eles atacam tanto a evidência quanto aqueles que a produzem[4].

Krugman reconhece que, embora esse tipo de politização possa vir tanto da esquerda como da direita, tem sido alimentado atualmente pela direita: “But given the realities of the money and power, in modern America most or the politicization of everything reflects pressures from the right.” [5]

Afinal, como a direita é formada pelos mais ricos, eles têm todo o interesse em promover suas visões de mundo e difundir o que o autor chama de zombie ideas, ou seja, ideias que já deveriam estar mortas, diante das inúmeras evidências em contrário, mas que persistem em razão dos interesses, nem sempre bem intencionados, daqueles a quem aproveita a sua permanência[6]:

“And monetary support from right-wing billionaires is a powerful force propping up zombie ideas – ideas that should have been killed by contrary evidence, but instead keep shambling along, eating people’s brains.” [7]

A zombie idea mais persistente é a de que a tributação da riqueza é destrutiva, de forma que a redução de tributos incidentes sobre as altas rendas iria produzir milagroso crescimento econômico[8]. Tal estratégia precisa se associar a outras zombie ideas, tais como a de que o Estado e seus programas são sempre ruins: “If you want a low-tax, low-benefit state, you want to claim that safety-net programs are harmful and unworkable.” [9]

Cria-se, assim, uma agenda única contrária a qualquer tipo de intervenção do Estado, mesmo diante daqueles assuntos que, como é o caso do aquecimento global, não deveriam despertar controvérsias.

Krugman atribui esse cenário provavelmente ao efeito halo, uma vez que, admitida a legitimidade de um tipo de intervenção estatal, abre-se a porta para que outras atuações estatais possam vir a ser discutidas também: “A lot of the answer is that political players believe – I think rightly – that there is a kind of halo effect that links all forms of government activism. If people are persuaded that we need a public policy to reduce emissions of greenhouse gases, they become more receptive to the idea that we need public policies to reduce inequality. If they are persuaded that monetary policy can fight recessions, they’re more likely to support policies that expand access to health care.” [10]

O efeito halo e a polarização são também as prováveis razões pela qual homens brancos da classe trabalhadoras apoiam os republicanos, mesmo que os programas destes sejam contrários a seus interesses em vários aspectos.

Todavia, interesses contrários são agregados a partir da convergência no que diz respeito aos valores racistas, homofóbicos e discriminatórios: “Instead, the economic right has sought to win over working-class whites, even as it attacks programs they depend on, by catering to their racial animosity. So racial tolerance, and other forms of social liberalism like gender equality and LGBTQ rights have been caught up in the same political divide as everything else.” [11]

Segundo Krugman, essa polarização sempre aconteceu. Prova disso é luta da direita contra o keynesianismo nos anos 40 e 50, inclusive com tentativas de impedir que ele fosse ensinado nas universidades, ainda que a doutrina de Keynes tenha sido corretamente descrita como moderadamente conservadora, uma vez que pretendia preservar o capitalismo.

Porém, o real problema do keynesianismo era deixar a porta aberta para a intervenção do governo: “(…) they saw [referindo-se aos conservadores] it [referindo-se ao keynesianismo] as the thin edge of the wedge for bigger government in general.” [12] A diferença para os tempos atuais, de acordo com Krugman, é que estamos muito mais polarizados agora, pois as pessoas acham que tem direito não apenas a suas próprias opiniões, mas também aos próprios fatos[13].

Um dos principais pontos de Krugman é que a vasta maioria das disputas econômicas no mundo real são a respeito de questões fáceis e para as quais existe claramente uma resposta correta, mas que interesses poderosos não querem aceitar[14]. Um exemplo é a questão da dívida pública em tempos de depressão: “For example, when it comes to the effects of government debt, what the public needs to know is that trying to balance the budget in a depressed economy makes the depression deeper, ant that fears of a runaway debt spiral are vastly exaggerated.” [15]

Se muitas das questões econômicas são simples, o que justifica tanta controvérsia a respeito de tantos assuntos é, segundo Krugman, a má-fé dos que sustentam teorias contrárias às evidências: “And as result, many public arguments, in economics and everything else, are being made in bad faith.” [16]

O exemplo da desoneração tributária das classes altas é perfeito para mostrar a desonestidade intelectual a que se refere Krugman: “To take the most obvious example, people arguing that we should cut taxes on the rich may pretend to have arrived at that position by looking at the evidence, but that’s not true: there is no evidence that would persuade them to change their view. In practice, they deal with contrary evidence by shifting goalposts – for example, the same people who predicted that Bill Clinton’s tax hike would cause a depression now claim that the Clinton-era boom was part of the long-run payoff to Ronald Reagan’s 1981 tax cuts. Or they simply lie, making up numbers and other supposed facts.” [17]

Daí a importância de se confrontar esse tipo de atitude: “When you’re confronting bad-faith arguments, the public should be informed not just that these arguments are wrong, but they are in fac being made in bad faith.” “In other words, we should be honest about the dishonesty that pervades political debate. Often, the mendacity is the message.” [18]

Nesse sentido, argumenta Krugman que, nos mais importantes debates do século XXI, o lado que está discutindo constantemente de má-fé é a extrema direita, representada pelo G.O.P (Grand Old Party) e todas as suas conexões e redes de contato com think tanks e outras instituições que servem aos interesses dos bilionários da extrema direita: “This network – “movement conservatism”- is what keep zombies ideias, like belief in the magic of tax cuts, alive.” [19]

Daí por que a proposta do livro, segundo Krugman, é contar a história da luta pela verdade e pela justiça, em uma perspectiva “anti-zombie”: “I don’t know if that fight can ever be fully won, although it can be lost. But it’s definitely a cause worth fighting for.” [20]

No que diz respeito ao aspecto metodológico, talvez o capítulo mais importante do livro seja o 6 (The crisis in economics), no qual encontramos artigos muito famosos, destacando-se “The cost of bad ideias”e “How did economists get is so wrong?”.

Neste último, Krugman mostra como apenas poucos economistas viram a crise de 2008 se aproximando, uma vez que a cegueira profissional impede que se vislumbre a própria possibilidade da existência de falhas catastróficas na economia de mercado, em razão da crença nos mercados como inerentemente estáveis, de forma que ações e outros ativos são sempre precificados da maneira correta.

Por mais que haja diferenças entre os salt water e os fresh water, Krugman adverte que nenhum dos lados está preparado para lidar com uma economia que pode sair dos trilhos apesar de todos os melhores esforços do banco central. Daí a sua famosa conclusão de que os economistas confundem a beleza dos modelos econômicos com a verdade: “(…) the economics profession went astray because economists, as a group, mistook beauty, clad in impressive-looking mathematics for truth.” [21]

E prossegue mostrando como o apego à teoria pode levar a uma verdadeira cegueira para os problemas do mundo real: “Unfortunately, this romanticized and sanitized vision of the economy led most economists to ignore all the things that can go wrong.

They turned a blind eye to the limitations of the human racionality that often lead to bubbles and busts; to the problems of institutions that run amok; to the imperfections of markets – especially financial markets – that can cause the economy’s operation system to undergo sudden, unpredictable crashes; and to the dangers created when regulators don’t believe in regulation.” [22]

No artigo “How did economists get it so wrong?”, Krugman insiste na ideia de que, desde a criação da ciência econômica a partir da obra de Smith, um extenso corpo de teoria econômica foi desenvolvido a partir da mensagem de que se deve confiar nos mercados.

Por mais que se soubesse dos casos em que os mercados falham ou geram externalidades, como a poluição, a premissa central utilizada pela economia neoclássica é a de que temos que ter fé nos mercados. Daí a tendência de que, especialmente para os monetaristas, o papel da intervenção governamental seja bastante circunscrito, pois se limita a instruir os bancos centrais a prover a demanda de dinheiro da nação.

Enquanto Keynes via os mercados de capitais como verdadeiros cassinos, a hipótese dos mercados eficientes procurava demonstrar o oposto, ou seja, que os mercados sempre levavam à precificação correta diante da informação disponível. A famosa teoria de Fama inundou o pensamento econômico, motivo pelo qual Michael Jensen passou a entender que, se os mercados financeiros sempre levam aos preços corretos, a melhor coisa a se fazer pelo bem da economia seria que as corporações buscassem a maximização dos preços de suas ações.

Daí a importante conclusão de Krugman: “Economics, as a field, got in trouble because economists were seduced by the vision of a perfect, frictionless market system.”[23] Não é sem razão que o autor acaba o artigo com um sugestivo tópico (“Re-embracing Keynes”), no qual dá dicas sobre o que os economistas devem fazer: (i) em primeiro lugar, encarar a realidade de que os mercados financeiros estão longe da perfeição e estão sujeitos a extraordinárias desilusões e à loucura das massas, (ii) admitir que o keynesianismo continua sendo o melhor arcabouço teórico para lidar com recessões e depressões e (iii) fazer o seu melhor para incorporar as realidades das finanças na macroeconomia. Ao fim e ao cabo, arremata: “This seems, however, like a good time to recall the words of H. L, Mencken: “There is always an easy solution to every human problem – neat, plausible and wrong.” [24]

Não bastasse a cegueira intelectual, no artigo “Bad faith, pathos and G.O.P. Economics”, Krugman retoma o ponto principal da sua introdução, mostrando como a má-fé passou a caracterizar a economia da direita conservadora: “What explains this epidemic of bad-faith? Some of it is clearly ambition on the part of conservative economists still hoping for high-profile appointments. Some of it, I suspect, may be just the desire to stay on the inside with powerful people.” [25]

E prossegue com a crítica contundente à atual política econômica do governo Trump, assentada em economistas que venderam a sua propria integridade:

“It’s not just that Trump has assembled an administration of the worst and the dimmest. The truth is that the modern G.O.P. doesn’t want to hear from serious economists, whatever their politics. It prefers charlatans and cranks, who are its kind of people. So what we’ve learned about economics these past two years is that many conservative economists were, in fact, willing to compromise their professional ethics for political ends – and that they sold their integrity for nothing.” [26]

Como se pode observar, a introdução de Krugman e o seu capítulo 6 impressionam pela intensidade da crítica e pela forma direta e clara com que o autor diagnostica ora a cegueira intelectual do mainstream, ora a desonestidade intelectual de muitas de suas propostas e de seus defensores. Trata-se, portanto de complemento interessante para a obra dos diversos autores anteriores, que procuraram demonstrar que muitas das teorias do mainstream econômico estão embutidas de valores e interesses que procuravam ser disfarçados sob a perspectiva da neutralidade e da cientificidade.

A obra de Krugman também apresenta claros pontos de convergência com o pensamento de Piketty, ao mostrar a importância das narrativas, das ideologias e dos jogos de poder para a compreensão das ideias econômicas, ressaltando a necessidade de um olhar mais abrangente do processo de produção do conhecimento econômico.

Entretanto, pode-se dizer que Krugman vai além de Piketty, tendo em vista que este, ao tratar das ideologias, pelo menos as considera como explicações aprioristicamente viáveis para justificar determinados arranjos de poder ou mesmo desigualdades.

O texto de Krugman, entretanto, ao desnudar o que vem ocorrendo com a extrema direita norte-americana, cuja influência obviamente se projeta em todo o mundo, inclusive o Brasil, mostra que a questão não mais se justifica nem mesmo sob a perspectiva ideológica: trata-se de pura má-fé.

Por essa razão, diante da mentira, da desonestidade intelectual e da má-fé, não se está nem mais no debate científico nem no debate ideológico. Está-se simplesmente diante de um projeto inescrupuloso de poder, que não tem outra finalidade senão de manter vivas ideias que já deviam estar mortas, a fim de beneficiar pouquíssimos às custas dos interesses de muitos.

E o livro é precisamente é alerta para o problema e um convite para o enfrentamento direto dessas zombie ideas, muitas das quais serão mais bem desenvolvidas na próxima coluna, em que se continuará a explorar a obra de Krugman.

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[1] Idem.

[2] Op.cit., pp. 1-2.

[3] Op.cit. p 2.

[4] Op.cit., p. 3.

[5] Idem.

[6] Idem.

[7] Idem.

[8] Op.cit., p. 4.

[9] Idem.

[10] Idem.

[11] Op.cit., p. 5.

[12] Op.cit., p. 4.

[13] Op.cit., p. 5.

[14] Op.cit., p. 6.

[15] Idem.

[16] Op.cit., p. 7.

[17] Idem.

[18] Op.cit., p. 8.

[19] Idem.

[20] Op.cit., p. 10.

[21] Op.cit., p. 131.

[22] Op.cit., pp. 131-132.

[23] Op.cit., p. 145.

[24] Op.cit., p. 147.

[25] Op.cit., p. 151.

[26] Idem.


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