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A doutrina do choque

A obra de Naomi Klein nos ajuda a compreender o atual cenário econômico brasileiro?

Naomi Klein. Peoples Social Forum 2014. Crédito: Ben Powless/ Flcikr peoplessocialforum

Dedico a coluna desta semana a uma autora extraordinária, Naomi Klein, e mais precisamente a um dos seus livros – The Shock Doctrine. The rise of disaster capitalism1 -, cuja leitura pode nos ajudar a compreender muito do que vem ocorrendo em diversos países, incluindo o Brasil.

O nome do livro alude à própria terapia do choque, desenvolvida pelo Dr. Ewen Cameron para curar traumas e aflições psicológicas. A técnica, cujo nome decorre do fato de realmente se utilizar de choques elétricos, partia da premissa de que, para curar os pacientes com grandes traumas, era necessário primeiramente levá-los a estado de confusão permanente e apatia.

Em tais circunstâncias, os indivíduos estariam tão psicologicamente fragilizados e fisicamente esgotados que se assemelhariam a uma folha de papel em branco, abertos à reconstrução de uma nova e mais saudável identidade.

Por mais que a técnica fosse falha em relação à segunda parte, mostrou-se bastante eficiente no que diz respeito à primeira, ou seja, a desconfiguração das identidades. Ao se intensificar as técnicas, partindo para níveis próximos ou mesmo equivalentes à tortura, os indivíduos chegavam a um ponto em que não conseguiam mais entender o sentido das suas experiências. Não é sem razão que a técnica logo passou a ser utilizada por agentes e interrogadores da CIA, de forma a extrair informações e diversas formas de “cooperação” forçada em suas investigações, o que está documentado no famoso Kubark Manual2.

Naomi Klein parte desse exemplo para sustentar que crises e desastres econômicos podem estar sendo explorados por uma rica minoria em seu próprio benefício. Em outras palavras, há quem se aproveite dos problemas econômicos para, por meio de técnicas equivalentes às da terapia do choque, submeter as pessoas a tal estado de confusão mental e apatia que as impeça de reagir adequadamente a mudanças, mesmo quando estas trazem consequências negativas para elas.

Segundo a autora, embora a ideia de que uma ordem nova pode surgir da desintegração de uma civilização seja antiga, é recente a prática de intencionalmente destruir economias para depois reestruturá-las em benefício de uma elite econômica.

Nesse ponto, Naomi Klein refere-se especificamente ao poderoso grupo de economistas liderado por Friedman e seus colegas da Chicago School, afirmando que todos eles se inspiraram na terapia do choque, passando a utilizar as suas técnicas para justificar as reformas dolorosas que procuraram implementar. Aliás, o próprio Friedman se utilizava da expressão tratamento de choque econômico.

Como a operacionalização dos ideais do livre mercado não é fácil, na medida em que implica necessariamente redução de direitos, a solução seria a terapia do choque, por meio da qual os setores interessados se utilizam de crises econômicas ou turbulências para usar o choque e a confusão para forçar as reformas que eles pleiteiam.

Obviamente que a estratégia é muito mais sofisticada, pois igualmente se aproveita de tais momentos para converter o maior número de pessoas a suas doutrinas, por diversos mecanismos, incluindo programas de intercâmbio entre escolas latino americanas. A ideia central é que, se medidas liberalizantes forem aplicadas de forma rápida e decisiva, não haverá jeito de reagir a elas.

O problema é que, apesar de todo o potencial da terapia do choque, nem sempre se consegue atingir todos os objetivos pretendidos apenas por meio da geração de confusão mental e apatia. Como o preço da austeridade e das reformas liberalizantes é muito alto, a começar pelo desemprego e pela insegurança, muitas vezes se fazem necessárias medidas drásticas, como repressão de direitos.

Nesse sentido, a autora dá vários exemplos de ditaduras que, a exemplo do Chile e Brasil, foram utilizadas para a implementação dessa pauta econômica.

O exemplo chileno é particularmente importante, porque Friedman foi conselheiro de Pinochet. Segundo Naomi, não se pode imputar toda a brutalidade de tais regimes apenas aos ditadores, na medida em que se trata de um terror planejado, desenhado para forçar a população a aceitar e obedecer as novas regras, em estratégias que se associam igualmente à aniquilação de todos os que se coloquem como opositores no plano político ou ideológico. Afinal, o debate político rico cria um risco exagerado para que a terapia do choque atinja seus objetivos.

E todas essas estratégias são implementadas, segundo Naomi, para a realização de reformas em que os grandes perdedores são a maior parte da sociedade. Mais uma vez o exemplo do Chile é citado, onde as reformas em busca de austeridade foram acompanhadas de aumento no desemprego e na desigualdade. É por essa razão que, em 2006, o Chile, que é considerado um modelo de economia das reformas de Chicago, era considerado a oitava nação mais desigual do mundo.

Aliás, o modelo de crescimento do Chile é até hoje extremamente questionado, considerando a pouca diversidade da indústria, a dependência externa, problemas na saúde, educação e previdência, além da manutenção da desigualdade3.

É por essa razão que, analisando vários casos concretos, a autora chega à conclusão de que a pauta econômica inerente à terapia do choque beneficia uma elite econômica às custas do resto da população, que passa a ter que enfrentar desemprego, insegurança e a remoção de todo o seu arcabouço protetivo, tanto na esfera laboral como na esfera previdenciária.

Tais reflexões são de extrema importância nos tempos atuais, em que a terapia do choque pode se valer das mais sofisticadas estratégias de manipulação de opiniões, de que as fake news ou distorção de dados são apenas um exemplo. Se, como ensina Castells4, “a forma mais fundamental de poder está na capacidade de moldar a mente humana”, pois “a maneira como sentimos e pensamos determina a maneira como agimos, tanto individual como coletivamente”, é inequívoco que as atuais tecnologias da informação, ainda mais se utilizadas abusivamente, podem ser de extrema eficiência no objetivo de deixar a população atônita e confusa, ainda mais no contexto da pós-verdade.

Sobre tal ponto, a obra de Klein converge com várias das conclusões de Chomsky5, ao mostrar que as estratégias para a manutenção da hegemonia dos poderosos abrangem restringir a democracia, moldar a ideologia, atacar a solidariedade e fabricar o consenso, dentre diversas outras. Em outras palavras, não se trata propriamente de um debate de ideias, já que as ideias utilizadas pela terapia do choque não têm por finalidade fomentar qualquer tipo de discussão, mas tão somente serem utilizadas como instrumentos de dominação, a qualquer que seja o preço.

Daí as advertências de Naomi Klein de que negócios e ideologia são inseparáveis e de que, se realmente queremos entender o que motiva determinadas políticas, precisamos tentar identificar quem são os seus maiores beneficiários.

De igual importância é a conclusão da autora que aponta para o equívoco da ideia de que o capitalismo desregrado caminha de mãos dadas com a democracia. Na verdade, Naomi Klein mostra que a espécie mais fundamentalista do capitalismo decorreu das mais brutais coerções e violências.

É sobre isso que temos que pensar para avaliar as políticas econômicas que pretendem ser implementadas no Brasil e para refletir sobre a guerra ideológica que estamos vivendo. É importante lembrar que o êxito da disputa não depende do debate democrático nem do convencimento da população. A vitória é mais simples: basta deixar as pessoas desinformadas ou mal informadas, desorientadas ou apáticas, a fim de que não tenham condições de resistir ao que é dado como inevitável.

***

Confira o documentário sobre a obra de Naomi:

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1 New York: Picador, 2008.

4 CASTELLS, Manuel. O poder da comunicação. Tradução Vera Lucia Joyceline. Rio de Janeiro/São Paulo: Paz e Terra, 2015.

5 CHOMSKY, Noan. Requiem para o sonho americano. Os 10 princípios de concentração de riqueza e poder. Rio: Bertrand Brasil, 2017.


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