Coluna da ABDF

Direito

Sororidade é atitude

Nosso percurso ainda é mais desafiador, graças ao bias inconsciente, ao condicionamento social que sobrecarrega a mulher

Crédito: Pixabay

Nos vários debates sobre igualdade de oportunidades para homens e mulheres, muito se fala do papel fundamental que as próprias mulheres têm de se apoiar mutuamente. E é aí que a palavra sororidade entra numa boa parte dessas discussões. Apesar disso, nem todos estão familiarizados com o termo, tão oportuno nos tempos atuais. No ambiente jurídico, o assunto ganha ainda mais importância, considerando que 64% dos inscritos na Ordem dos Advogados Brasil, até 25 anos, são mulheres (Jota, 13 de janeiro de 2020). O futuro da advocacia parece ser, portanto, predominantemente feminino.

Não por acaso, tive a inestimável oportunidade de participar ontem de um evento organizado pela ABDF, reunindo mulheres profissionais para falar sobre “Adaptabilidade e resiliência em tempos de pandemia”. A verdade é que, mais do que dividirmos as nossas experiências nesse momento único e desafiador, ali estavam mulheres exercitando a mais pura e genuína sororidade: compartilhando experiências, vulnerabilidades, desafios, desejos e, até mesmo, planos para o futuro. Porque, acreditem, o futuro virá para todas nós.

Sororidade vem da palavra soror, que, em latim, significa irmã. A definição gramaticalmente mais próxima de sororidade é irmandade. Ou o feminino de fraternidade (frater=irmão). Portanto, é algo absolutamente afeito à dinâmica entre mulheres.

Quando se fala de sororidade, todavia, o grande desafio não é conceituar o termo ou achar o melhor jeito de defini-lo, mas sim encontrar a melhor forma de praticá-la, no dia a dia, especialmente nas situações mais improváveis, em relação às colegas mais distantes, nos momentos mais difíceis. Nas faculdades, nos escritórios, nas empresas, onde reconhecidamente já somos maioria. Onde quer que seja.

E, nessa perspectiva, sororidade é sinônimo de atitude. Atitude que podemos praticar em relação a mulheres que nos cercam, com quem convivemos diariamente e que, em muitas situações, se mostram invisíveis para nós. Por que não o esforço de enxergar e apoiar a mulher que está ao seu lado e que muitas vezes tem as mesmas questões e enfrenta os mesmos desafios que nós mesmas enfrentamos? Sororidade é levantar a cabeça, virar o pescoço, enxergar quem está ao nosso lado e estender a mão.

É o olhar diferenciado para as jovens profissionais, que tanta dificuldade encontram para entrar no mercado de trabalho, que têm dúvidas em como iniciar a carreira, por onde começar, quem procurar, o que desejar, como viabilizar seus sonhos, seus projetos, seus desejos. É ter em relação a essas jovens interesse verdadeiro, paciência, compreensão. Afinal, podemos ser bons modelos, dividir experiências, ensinar pelo exemplo e enxergar nessas mulheres a posteridade e o verdadeiro legado.

É a compreensão em relação às mães – ou aquelas que tantas dúvidas têm em assumir essa enorme responsabilidade – e que tantos questionamentos têm em relação à viabilidade de conciliar carreira e maternidade. É acolher as angústias, dividir as dores, relatar as nossas próprias fraquezas e vulnerabilidades e, o mais importante de tudo, se mostrar como um exemplo vivo de que essa composição, embora trabalhosa, é sim possível. E que não estamos em um concurso de “mãe do ano”, como se o objetivo fosse nada aquém do que a perfeição. Basta dar o melhor de si, ser a melhor versão de si mesma e realmente se importar.

É demonstrar sensibilidade com as mulheres já maduras, que muitas renúncias fizeram ao logo da vida, que experimentaram frustrações e dúvidas, que bateram a cabeça no “teto de vidro” – afinal, ele existe! –, que podem estar em busca de novas oportunidades ou procurando se reinventar, redirecionar a sua carreira. Que têm muito a oferecer, mas pouco tempo a esperar.

É apoiar mulheres em geral, com experiências tão parecidas e tão diferentes das nossas. É evitar os rótulos, os julgamentos, a soberba. É dar o feedback ainda que duro, ou o puxão de orelha quando merecido. É estar próxima, mas dando autonomia. É ser exigente, mas ao mesmo tempo compreensiva. É cobrar resultados, mas oferecer ajuda. É ensinar. É genuinamente exercitar a empatia.

É dedicar a amizade despretensiosa, é falar a verdade ainda que doa, é estar para o que der e vier. É confiar, quando não se tem qualquer razão para fazer diferente. É realmente se importar. É abrir caminho, é deixar passar, é dar espaço, é não julgar. Sororidade é união. União entre mulheres.

É acreditar que o melhor legado que se pode deixar é formar sucessoras (e porque não sucessores?) melhores do que nós, em todos os sentidos. E que tenham como ambição fazer o mesmo com as gerações que ainda virão, para que tenhamos uma sequência de círculos virtuosos.

É demonstrar por ações e atitudes que a tão propagada rivalidade feminina é coisa do passado. E que, se ainda existe, deveria ser posta de lado em prol do bem comum. É provar que 1 + 1 é bem mais do que 2, e que essa equação pode crescer à máxima potência se diferentes esforços forem reunidos.

Nem todas as mulheres que encontrarmos no nosso caminho terão competência, potencial, talento, realmente quererão estar lá. Mas todas, sem exceção, merecerão igualdade de oportunidades, é nisso que tudo se resume.

Sororidade para mim é tudo isso. É ação, não é retórica. É prática, não é teoria. Todas nós precisamos de alguma dose de sororidade. Aquelas que ainda não alcançaram seus objetivos ou que tropeçaram, precisam de apoio para continuar tentando. E aquelas que já chegaram lá, igualmente precisam ser apoiadas, porque normalmente o topo é um lugar extremamente solitário.

Sororidade faz bem às mulheres e faz bem ao ambiente profissional como um todo. Melhorando as mulheres estaremos melhorando as instituições às quais elas pertencem. O mesmo vale para os homens, evidentemente. Mas é inegável que o nosso percurso ainda é mais desafiador, graças ao bias inconsciente, ao condicionamento social que sobrecarrega a mulher com tarefas além do ambiente profissional, a desigualdade de oportunidades e a extrema exigência que temos em relação a nós mesmas.

Boas práticas relacionadas a diversidade serão boas práticas a serem exercidas no ambiente profissional como um todo, aplicáveis a qualquer um, inclusive e especialmente no ambiente jurídico. E, se nenhuma dessas razões for suficiente para praticá-la, tenha presente que a sororidade é uma via de duas mãos: quem pratica tem maiores e melhores chances de recebê-la de volta.


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