Regulação

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Estado deve mirar sustentabilidade para beneficiar cidadão

E se o Brasil flexibilizasse seus conceitos com a utilização dos avanços da telemedicina?

Imagem: Pixabay

Como o consumidor reagiria se, de um dia para o outro, fossem abolidas as caixas de embalagem das pastas de dente? Iria se sentir órfão das informações contidas na embalagem de papelão? Afinal, historicamente houve muita luta para a indústria em geral utilizar rótulos esclarecedores.

O problema é: a quantidade de papelão, tinta e energia usados na fabricação daquelas embalagens já se caracterizam como incompatíveis com a nova era de sustentabilidade – considerando ainda que o próprio tubo dos dentifrícios contêm informações.

Esse exemplo serve apenas para remeter a uma questão maior: com recentes e futuras mudanças de costumes, mentalidades e exigências da sociedade, o Estado brasileiro está pronto para liderar a substituição de alguns conceitos por outros, emergentes?

Pode-se dizer que, do lado das empresas (principalmente) e de boa parte dos cidadãos, existe predisposição para admitir que órgãos públicos revejam certas exigências em nome de novas necessidades. Qualquer pesquisa de opinião revelaria que brasileiros abririam mão das embalagens de papelão de produtos com baixíssimo ou nenhum risco à saúde, como pastas de dente, para obter ganhos relativos a meio ambiente – e, de quebra, preço. Ainda mais considerando as facilidades de smartphones na busca de mais informações sobre os produtos, por meio de leitura de código de barras e QR Code.

Ressalte-se que sempre o objetivo será o bem coletivo. Significa uma ação de Estado sobre o mercado que proporcione gerar menos lixo, demandar menos energia, desburocratizar e facilitar negócios, ampliar número de pessoas beneficiadas com serviços e produtos. Tudo isso se resume a uma palavrinha já totalmente incorporada à realidade empresarial, mas nem tão aplicada na seara pública: sustentabilidade.

As necessidades das pessoas no dia a dia requerem o raciocínio da sustentabilidade pelos órgãos públicos, por isso coisas óbvias devem ser ditas, como o gargalo de atendimento primário pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Atualmente, a maioria dos mecanismos e premissas do SUS se mostram anti-sustentáveis. As filas para o procedimento de baixa complexidade geram transtornos diversos (burocráticos, sociais, econômicos etc) e, geralmente, agravamento do estado de saúde dos pacientes.

Mas e se o Brasil flexibilizasse seus conceitos com a utilização dos avanços da Telemedicina?

China, Estados Unidos e França já partiram para esse modelo e acumulam êxitos: ampliação do atendimento às suas gigantescas populações, agilização de processos e redução de custos.

Muitos ainda torcem o nariz para uma pré-análise via recursos tecnológicos, mas não será melhor ter isso que o atual caos? Não seria mais seguro do que a corriqueira automedicação, prática perigosa e comum entre brasileiros?

Especialistas apontam que isso decorre, em boa medida, da ojeriza das pessoas em serem largadas dias inteiros em corredores de postos de saúde e hospitais.

Outro exemplo recai sobre exames de rotina. Quantas e quantas pessoas deixam de ser atendidas pelas dificuldades logísticas e burocráticas para o acesso a laboratórios… e se o poder público estudasse formas de democratizar aqueles serviços – os rápidos e de baixa complexidade – em farmácias e drogarias? Com tantos desses estabelecimentos Brasil afora, não poderiam ser mais bem aproveitados? Isso não precisa necessariamente implicar perda de segurança para a saúde.

Aqui passo a usar tom pessoal de gestor público. Enquanto escrevia esse artigo num café, perguntei ao guardador de carro se ele faria alguns testes clínicos na farmácia ao lado, se ele estivesse disponível a preços bem convidativos, em torno de R$ 30. A resposta foi afirmativa. O quanto não se reduziriam custos (e sofrimento) de tratamento com diabetes diagnosticada tardiamente, por exemplo? Sem contar a menor pressão no SUS por exames simples.

Mais do que inteligência, todas essas mudanças iriam requerer coragem do gestor público. Talvez o encorajamento devesse vir dos problemas de meio ambiente, inacessibilidade a produtos e serviços e, principalmente, milhões de brasileiros sofrendo física e psicologicamente por carências diversas.


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