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COVID-19

PIB poderia crescer até 5,5% com vacinação mais rápida, mostra projeção

Se 70% dos brasileiros fossem vacinados até agosto, economia conseguiria retomar aos patamares pré-crise

Vacina
Vacina / Foto: Tomaz Silva / Agência Brasil

Quase ninguém duvida da importância do programa de vacinação em massa para debelar os efeitos da pandemia da Covid-19. Mas um estudo produzido pela LCA Consultoria, a pedido do JOTA, ajuda a dimensionar, em números, os benefícios para a economia brasileira caso a campanha de imunização fosse conduzida com mais agilidade.

Segundo os dados, se 70% dos brasileiros estivessem vacinados em agosto de 2021, o PIB brasileiro poderia crescer 5,5%, bem acima dos 3,4% projetados atualmente pelos analistas de mercado. Isso porque, com a imunização de parcela significativa da população, se afastariam os riscos de colapso na saúde e, consequentemente, os setores da economia poderiam voltar a abrir.

Neste semana, o relatório do Mercado Focus, divulgado pelo Banco Central prevê alta de 3,4% para a economia brasileira em 2021 na comparação com o ano passado. Essa expectativa, entretanto, ainda é insuficiente para recuperar a queda de 4,4% estimada para 2020, além de representar uma redução de 1,2 ponto percentual em comparação com o resultado do PIB de 2019.

A estimativa do Boletim Focus leva em consideração um cenário de vacinação lento para o Brasil, com 70% da população imunizada apenas em novembro de 2021, e, portanto, com restrições de mobilidade se prolongando até esta data.

Em números reais, o cenário de alta de 5,5% do PIB do país representaria um crescimento de quase 1 ponto percentual a mais do que em 2019. De acordo com o economista responsável pelos cálculos, Bráulio Borges, esse resultado é semelhante ao que se deve observar nos países mais desenvolvidos, como Estados Unidos e algumas nações da Europa, que têm avançado no processo de imunização da população.

O economista também calculou um cenário hipotético mais semelhante ao que se observa em Israel, que já vacinou um quarto dos cidadãos. Nele, o Brasil conseguiria imunizar 70% da população até junho de 2021. Nessa estimativa, o PIB nacional poderia crescer até 7% (ou seja, expandiria 3,6 pontos percentuais a mais do que o projetado pelo Boletim Focus). Em números reais, isso significa dizer que a economia poderia crescer 2,2 pontos percentuais a mais do que em 2019.

Para chegar nos resultados, Borges partiu do cenário de consenso divulgado no Boletim Focus e, com um modelo matemático, calculou quanto os cenários hipotéticos de vacinação mais rápida agregariam para o PIB do Brasil de 2021.

O modelo leva em consideração o desempenho do PIB de 48 países, incluindo o Brasil, na primeira metade de 2020, além de variáveis como o índice de isolamento social calculado pela Universidade de Oxford, feito com base em medidas administrativas de restrição de mobilidade, e políticas de incentivos fiscais adotadas por países.

“Para o cálculo, considerei diversas variáveis para tentar chegar a uma ideia clara de quanto as restrições de mobilidade impactaram o PIB dos países. Com base nisso, eu fiz esse exercício de projeção para o Brasil”, explica.

O economista, entretanto, sinaliza que o índice calculado por Oxford é “de jure”, ou seja, capta as restrições adotadas a partir de ofícios dos gestores públicos. “Não sabemos qual é, de fato, a aderência da população às restrições”.

Veja os gráficos do cálculo:

Gráfico projetado pela LCA Consultoria sobre a redução nos índices de isolamento social a partir do avanço da campanha de vacinação no Brasil
Gráfico projetado pela LCA Consultoria com os resultados para o PIB do Brasil, a partir do modelo matemático, a depender do cenário de vacinação no Brasil e, consequentemente, de índices menores de isolamento

Um relatório econômico divulgado nesta quarta-feira (13/1) pelo Bradesco, assinado pelos economistas Thiago Angelis, Thomas Schreurs Pires e Fabiana D’Atri, caso a população do Brasil acima de 50 anos seja vacinada até junho de 2021, como prevê o governo federal, isso “deve ser suficiente para evitar o risco de colapso do sistema [de saúde], levando a uma reabertura segura e sem retrocessos a partir de meados do ano”.

Fim do auxílio e riscos de mais restrições

Apesar das expectativas para a vacinação, a data para início da campanha no Brasil ainda é incerta. Segundo informou o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, na “melhor das hipóteses”, a aplicação das primeiras doses pode começar em 20 de janeiro. Na pior, o prazo é março.

Mesmo com a divulgação das datas, o Ministério da Saúde ainda não apresentou um cronograma formal, com informações completas e detalhadas sobre as fases de vacinação no país, juntamente com os grupos prioritários que serão imunizados. Para serem aplicadas, as vacinas também precisam receber a autorização por parte da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o que ainda não aconteceu.

Soma-se a essa conjuntura, o fim do repasse do auxílio emergencial, que alcançou 67 milhões de brasileiros ao longo do ano passado e distribuiu mais de R$ 310 bilhões em nove meses, assim como as recentes altas nos indicadores da doença, que ameaçam novas restrições de circulação.

Nesta quinta-feira (14/1), a média móvel de mortes no Brasil nos últimos sete dias chegou em 1.000, de acordo com dados do consórcio de imprensa. A variação de óbitos foi de +42% em comparação à média de 14 dias atrás, o que indica tendência de alta nas mortes pela Covid-19.

Setores

Diante desse contexto, economistas consultados pelo JOTA apontaram dificuldades em fazer projeções sobre o que pode acontecer com setores da economia do país durante este ano. O setor de serviços, por exemplo, que representa 65% do PIB do Brasil, cresceu em novembro 2,6%. A alta representa o sexto mês consecutivo de recuperação do setor. O resultado, no entanto, ainda não foi suficiente para anular a queda de 19,6% sofrida entre fevereiro e maio do ano passado.

Em caso de novas restrições de mobilidade, que podem acontecer nas próximas semanas, haverá, novamente, um forte impacto para este setor, que corresponde às atividades de comércio de bens e à prestação de serviços.

“A ausência de um planejamento de vacinação, que nos permitiria calcular o que pode acontecer com os setores econômicos daqui para frente, é a grande presença neste momento. Isso nos preocupa”, diz André Perfeito, economista-chefe da corretora Necton, adquirida recentemente pelo BTG.

“O fim dos benefícios, como se a vida estivesse voltando à normalidade, pode custar mais caro do que a demora da vacina. Todo mundo que está recebendo auxílio fatalmente vai começar a procurar emprego quando o repasse acabar. Ou seja, o desemprego, que já atinge 14 milhões de brasileiros, vai subir fortemente. Como vamos resolver isso?”, completa Perfeito.

Em participação recente no evento virtual GZero LatAm Forum 2020, promovido pela Eurasia Group e transmitido pela B3, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, defendeu que vacinar a população é mais barato que prorrogar os programas emergenciais do governo. Segundo ele, não há espaço fiscal para prolongar gastos públicos.

A preocupação com a expansão fiscal, por causa da alta de óbitos e com o atraso na imunização, também aparece em relatório do Credit Suisse enviado no início do ano a seus clientes e ao qual o JOTA teve acesso. Nele, a economista-chefe do banco, Solange Srour, e o economista Lucas Vilela escrevem que esse cenário é desfavorável à economia brasileira, “uma vez que os governos estaduais provavelmente terão que implementar restrições à mobilidade, o que tem um impacto substancial na atividade econômica e no emprego”.

De acordo com a instituição financeira, eventuais medidas restritivas podem se traduzir em maior pressão para que o governo federal e o Congresso retomem a expansão fiscal para minimizar os impactos negativos na renda, no emprego e também nas receitas de Estados e municípios.

“Novas restrições sociais provavelmente terão efeitos não apenas no curto prazo, com menor crescimento econômico, maior desemprego e maior endividamento, mas também no médio prazo, adiando a discussão de reformas importantes para os próximos anos, como a reforma administrativa, que são necessárias para o cumprimento das regras fiscais em 2021 e 2022 e estabilidade da dívida nos próximos dez anos”, dizem os economistas.

Cristiane Quartaroli, economista do Banco Ourinvest, avalia que a conjuntura atual do país não permite nem mesmo melhorar a expectativa do mercado em relação ao desempenho da economia nos próximos meses. O índice de expectativa, de acordo com Quartaroli, é indispensável para se fazer planos de investimento de curto, médio e longo prazo.

“A partir do momento em que o governo falar: ‘amanhã vai começar a campanha de vacinação’, só isso já melhora a expectativa de que haverá soluções em breve. Índices mais precisos de expectativa de desempenho da indústria e do setor de serviços, por exemplo, permitem a toda a sociedade fazer planos de investimento”, explica.


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