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CORONAVÍRUS

Mercado Livre: “estados precisam entender importância do serviço de entrega”

Para Leandro Bassoi, empresa tem facilitado isolamento e mantido ativas 300 mil famílias que vendem por plataforma

Crédito: divulgação/Mercado Livre
Crédito: divulgação/Mercado Livre

A quarentena faz com que o comércio fique de portas fechadas, mas não necessariamente inativo. O e-commerce é uma alternativa à exposição das pessoas nas ruas e permite manter aquecida a atividade de lojas, reduzindo os danos do coronavírus na economia. No Mercado Livre, maior portal de comércio eletrônico da América Latina, a pandemia aumentou em 50% a busca por itens de primeira necessidade, como alimentos e itens de higiene e limpeza. Já bens duráveis e de maior valor, como produtos eletrônicos, tiveram queda nas vendas online, revela Leandro Bassoi, vice-presidente do Mercado Envios para a América Latina. O Mercado Envios é a unidade de negócios de Logística do Mercado Livre.

“Além dos bens essenciais, nossa situação exige outros itens além do arroz, feijão e do papel higiênico. No meu caso, tenho dois filhos e é preciso achar uma forma de mantê-los entretidos”, diz Bassoi. “Um jogo educativo, por exemplo, é uma forma de evitar que eles fiquem somente na televisão.”

“O Mercado Livre tem um impacto social nas duas pontas, no isolamento social e também ajudando as pessoas a manterem uma fonte de renda nesse momento de incerteza”, avalia o vice-presidente do Mercado Envios para a América Latina.

A empresa tem encontrado dificuldades com as diferentes políticas restritivas de circulação, principalmente nas estradas estaduais. “Em Santa Catarina houve bastante impacto na circulação de pessoas, inclusive de entregadores. Também houve dificuldades nesse sentido no Rio de Janeiro”, aponta Bassoi.

Em entrevista ao JOTA, Leandro Bassoi fala da importância do serviço de entrega no contexto de quarentena e de quais ajustes podem ser feitos para garantir que os produtos cheguem de forma ágil na casa das pessoas.

Confira abaixo a íntegra de entrevista concedida ao JOTA:

Quais ajustes na operação tiveram que ser feitos pelo Mercado Livre por causa do coronavírus?

Já fizemos muitos ajustes e eles continuam sendo aperfeiçoados. A primeira medida foi estabelecer, há três semanas, um comitê diário para falar somente desse assunto. Chego a ficar seis horas por dia nessas tratativas. Antes mesmo de começar as discussões sobre o que fazer, ligamos para os principais players de e-commerce da China e da Coreia do Sul para saber o que tinham feito para estancar o problema nas operações deles. Coletamos as informações e começamos a trabalhar inspiradas nelas.

Na parte operacional, mudamos a rotina de nossos colaboradores, tanto aqueles que trabalham no centro de distribuição como aqueles da parte logística.

Aumentamos o número de ônibus fretados para nossos colaboradores. Os ônibus circulam com 50% de ocupação dos assentos para que as pessoas sejam transportadas sempre com a poltrona ao lado vazia, garantindo o distanciamento. E no refeitório as pessoas estão sentando em zigue-zague para manter o distanciamento.

No nosso processo de logística, adotamos a ideia de uma empresa da Coreia do Sul que faz com que cada pessoa tenha contato com, no máximo, oito pessoas durante a operação. Com isso, conseguimos traçar quem foram as pessoas que cada um teve contato no dia a dia. Assim, se alguém for diagnosticado com a Covid-19, sabemos quem necessita de quarentena de forma preventiva, evitando uma disseminação do vírus.

Além disso, todos estão usando luvas anticorte, que são higienizadas de forma constante.

E na operação de entrega, retiramos a obrigação da assinatura no celular. Capturamos somente os dados do recebedor, como nome e RG. Assim, nossos entregadores ficam menos expostos.

Não tivemos até o momento nenhum caso de colaborador infectado com o coronavírus, mas já adotamos isolamentos por causa de sintomas como febre, coriza e dificuldade para respirar.

Como o coronavírus tem influenciado a operação em relação à demanda?

Como marketplace, temos milhões de anúncios em nosso site. Temos visto uma estabilidade no volume, mas uma mudança muito drástica nas categorias de venda.

A nossa categoria de bens essenciais, que é de consumo massivo, como produtos de higiene, limpeza e alimentação, cresceu 50% nas últimas semanas por causa do coronavírus.

Já nas categorias de bens mais duráveis ou secundários, temos visto o consumidor um pouco mais precavido. E faz todo sentido nesse momento um consumo consciente, até porque acho que são tempos de incerteza.

Como cresceu a busca por bens essenciais, mudamos a forma de navegação no nosso site para que o consumidor possa achar esses itens com mais facilidade.

O serviço de entrega ajuda a evitar que as pessoas circulem. Qual papel social vocês avaliam ter neste momento de quarentena?

Temos dois papéis importantes. O mais óbvio é a questão do isolamento social, no qual ajudamos fazendo entregas. E acho que vale uma ressalva, porque além dos bens essenciais, nossa situação exige outros itens além do arroz, feijão e do papel higiênico. No meu caso, tenho dois filhos e é preciso achar uma forma de mantê-los entretidos. Um jogo educativo, por exemplo, é uma forma de evitar que eles fiquem somente na televisão.

As entregas têm um papel fundamental e temos visto alguma evolução na forma como o governo tem se colocado. O decreto 10.282/20, por exemplo, coloca o comércio eletrônico e a entrega de encomendas como algo essencial. Infelizmente, não vemos tanta clareza na execução disso na ponta, seja no estado ou na cidade, porque há várias esferas governamentais envolvidas. Há várias situações no dia a dia que dificultam a operação, mas estamos no caminho correto para fazer com que o comércio eletrônico tenha um papel social importante para as pessoas ficarem mais tranquilas em casa.

O segundo ponto que gostaria de destacar é que temos hoje cerca de 300 mil famílias no Brasil que vivem da atividade de vender no Mercado Livre, seja como fonte complementar ou fonte principal de renda. Se parte dessas pessoas está tendo que manter a loja física fechada, a forma de continuar com renda é seguir fazendo vendas pela internet. Esse papel social de continuar democratizando a forma de vender é essencial, porque não sabemos o tamanho do impacto econômico que o coronavírus vai ter na vida das pessoas.

Então o Mercado Livre tem um impacto social nas duas pontas, no isolamento social e também ajudando as pessoas a manterem uma fonte de renda nesse momento de incerteza.

O Mercado Livre já enfrentou alguma dificuldade logística por causa de restrições interestaduais?

Sim, a gente encontra dificuldades todos os dias, mas elas estão diminuindo gradativamente. Está havendo um consenso maior sobre a importância das entregas nesse momento.

Mas, na semana retrasada, quando começaram as quarentenas, com redução de circulação, alguns estados tiveram entendimentos diferentes. Em Santa Catarina houve bastante impacto na circulação de pessoas, inclusive de entregadores. Também houve dificuldades nesse sentido no Rio de Janeiro.

As associações de classe, como a Associação Brasileira de Logística (Abralog), têm feito um papel importante de tentar transitar nos governos estaduais para clarear a importância das entregas nesse momento.

O que vem nos preocupando é a restrição de transporte público. As pessoas que trabalham nos Correios ou em uma operação logística dentro de uma cidade precisam chegar ao trabalho. Do contrário, teremos um efeito cascata, porque elas não conseguem chegar ao trabalho, os produtos não são despachados, não são entregues e a pessoa que quer ficar em casa vai ser obrigada a sair para fazer compras. Entendemos que é possível encontrar um caminho alternativo para garantir que essas pessoas cheguem ao trabalho para que os demais possam ficar em casa.

Quais medidas o poder público poderia tomar para melhorar a operação do serviço de entrega?

A primeira coisa é garantir que nas esferas estaduais a gente não tenha nenhuma divisa interrompida. Tem uma questão de compreensão de nível estadual, não podemos ficar em uma situação em que cada um entende algo diferente.

O pior cenário é as empresas terem que se adaptar para conseguir prestar um serviço que nesse momento é essencial. Por isso, a interlocução na questão das estradas é super importante.

Outro ponto de melhoria poderia ser a adoção de uma etiqueta no lado de fora dos produtos de e-commerce ao invés do papel embalado no plástico que temos até hoje e que é mais um local de risco de infecção. Toda a informação da negociação eletrônica está em um arquivo eletrônico, não faz sentido continuarmos trabalhando com papel em um ambiente que deveria ser 100% digital.