Mercado

Entrevista

Crise atual é diferente porque Economia ‘abandonou o barco’, diz Sérgio Vale

Economista-chefe da MB Associados avalia que Bolsonaro ‘queimou uma agenda liberal’, o que pode atrapalhar Sergio Moro

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Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados / Crédito: Divulgação

Inflação e desemprego em alta, aumentos na taxa de juros, moeda desvalorizada, crise na cadeia global de suprimentos e crises institucional e política são heranças do ano que passou para 2022. O cenário preocupa os economistas, com a soma de novas eleições polarizadas, que trazem incertezas sobre o horizonte.

Para entender as aflições e prognósticos do mercado para a economia brasileira em 2022 e o que esperar após as eleições, o JOTA publica uma série de entrevistas com economistas-chefe de consultorias e bancos de investimento. A conversa com Sérgio Vale, da consultoria especializada em análise macroeconômica MB Associados é a primeira da série.

“Estamos no pior cenário, um pesadelo para o Banco Central lidar com tantos choques”, diz ele sobre a combinação de inflação, baixo crescimento e alta nos juros que devem marcar os próximos meses. “O que é diferente na crise que enfrentamos agora de outras é que o Ministério da Economia, representante da política fiscal, abandonou o barco”, afirma Vale.

Temos visto movimentos do Banco Central (BC) de aumentos da taxa de juros e sinalizações de continuidade. Nos Estados Unidos, são esperados aumentos também. Quais as perspectivas diante deste cenário? Esse deve ser o tema para a economia no ano? 

Pelo menos no primeiro trimestre, todos os esforços devem ser concentrados na relação inflação e juros. Terminamos 2021 com inflação de 10% e ela deve cair para metade, mas ainda assim é alta. Agora, vemos o espalhamento dessa inflação, com 25% dos itens dentro do IPCA crescendo acima de 10%.

Serviços, que têm uma inflação mais difícil de lidar, estão acelerando também de forma perigosa, caminhando para 6% no começo do ano. A inflação é um cerne de preocupação e, consequentemente, para onde o Banco Central vai levar a taxa de juros.

O BC sinaliza uma agressividade que não adotava anteriormente. A quebra da regra do teto [alterações no cálculo orçamentário promovidas pela PEC dos Precatórios] foi uma virada importante para o BC. Juros devem ir para 11,75% pelo menos; é muito provável que vá para acima disso.

Esses movimentos de aumento das taxas de juros do BC devem ser suficientes para segurar a inflação? Ou dependemos ainda de outras políticas? 

Essencialmente, a queda da inflação esperada será pelo trabalho do Banco Central. Se não tivesse subindo juros, estaríamos vendo algo diferente. Temos uma inflação com componente de demanda, após estímulos monetários como o auxílio emergencial e a taxa de juros ter chegado a um patamar historicamente baixo. Mas também há componentes de oferta, com problemas na cadeia industrial, mundo afora, que estão jogando os preços para cima. Além disso, temos o estresse fiscal desse ano, que jogou a taxa de câmbio para cima.

É o pior cenário, um pesadelo para o Banco Central lidar com tantos choques. Ele está no caminho correto de acelerar a taxa de juros. Quando falamos de inflação de 5% é porque o BC está fazendo esse trabalho, que a principio pode parecer negativo, mas o pior seria deixar a inflação sair do controle.

O que significou o formato final da PEC dos Precatórios? Como isso deve impactar também o futuro? 

O elemento mais grave da PEC dos Precatórios foi quando ela deixou de ser uma PEC explicita dos precatórios e se transformou numa PEC eleitoral. Até existia razão para se discutir isso, porque apareceu um precatório de quase R$ 40 bilhões então precisava caber no orçamento. Mas com a PEC se perdeu confiança total na política fiscal, porque explicitamente quebrou uma regra constitucional fiscal recente por conta de um desejo puramente eleitoral e aí abriu uma caixa de Pandora para o mercado sobre o que mais será feito.

A impressão é que irá cortar gastos essenciais para focar em gastos que tenham perfil mais eleitoral, especialmente com as pesquisas de intenção de voto mostrando Bolsonaro muito fragilizado em relação ao Lula. Isso faz o mercado ficar muito apreensivo, com um governo que de fato sinalizou que não está preocupado com a questão fiscal, um ano eleitoral extremamente tenso, um presidente que pode vir pela frente também com descontrole fiscal. O mercado tende a antecipar que 2023 pode ser mais difícil ainda e o prêmio de risco, taxa de juros e câmbio sobem.

Crises econômica e política

O que é viável em 2022 do ponto de vista de política econômica, levando em conta o contexto político? 

Pouca coisa é viável. O que é diferente na crise que enfrentamos agora é que o Ministério da Economia, representante da política fiscal, abandonou o barco. Paulo Guedes sinalizou que o problema da inflação é com o Banco Central e não tem nada a ver com isso; quebrou a regra do teto, o que já em si é bastante negativo na véspera de eleição, não pelo valor envolvido, mas pelo que significou para a reputação.

O que foi diferente em outros momentos recentes de crise e inflação alta? 

Em 2003, quando o Lula virou presidente, houve um trabalho fiscal e monetário para combater a inflação e o Lula teve uma herança bendita: recebeu uma Lei de Responsabilidade Fiscal aprovada anos antes [Lei Complementar 101/2000], um superávit primário de 3% do PIB, a dívida absolutamente sob controle, então a situação fiscal se manteve muito sob controle.

Já em 2016, logo em janeiro o mercado entendeu que Michel Temer (MDB) entraria [com o início do processo de impeachment de Dilma Rousseff (PT)]. Ele havia sinalizado que teria reformas, então a taxa de câmbio começou a despencar, caiu cerca de 20% de janeiro a outubro de 2016, quando houve a consolidação do encaminhamento das reformas.

Há um conjunto de políticas econômica e fiscal, mas também de política mesmo, porque em 2003 e 2016 houve sinalizações políticas importantes. Quando olhamos para frente, o que temos é o Banco Central sozinho. A política fiscal do governo não está ajudando: o estilo de gastos vai no sentido contrário, para aumentar a pressão de demanda, vide o Auxílio Brasil, e a política totalmente mal resolvida. Temos um ano de Bolsonaro completamente alheio ao que está acontecendo ao seu redor, como tem sido o comum ao longo desses três anos, e uma preocupação extrema e total com a eleição.

Se em 2003 e 2016 se tinha um cenário para frente positivo, temos dificuldades de ver 2023 em diante, porque não está claro quem vai ser presidente, o que ele vai fazer de política econômica, e o mercado tende a adiantar um pouco as apreensões e vai antecipar isso para o ano que vem. É um ano muito difícil, o BC está absolutamente sozinho tendo que lidar com inflação não só de 2022, mas também de 2023.

Essa apreensão com a situação 2023 pode se estender também sobre a atuação do Banco Central? Preocupa que essa atuação poderia ser diferente se não houvesse a garantia de independência, por exemplo? 

Em 2023, será interessante observar o comportamento da Lei de Independência do Banco Central [Lei Complementar 179/2021] em um governo que eventualmente queira mudar completamente a gestão do BC, dado que o Roberto Campos vai ter mandato até 2024. Não parece que é um assunto que morreu totalmente. Há um longo caminho para ter de fato um Banco Central totalmente independente. Autonomia existe e acredito que ela vai continuar presente, mas ainda podemos ter alguns ruídos quando se trata de política.

Reputação e investimentos estrangeiros

Como deve ficar o cenário de investimentos para o Brasil com as sinalizações de aumento de juros em países desenvolvidos para conter a inflação, como nos Estados Unidos? 

No capital de curto prazo, temos um cenário de mudança na política monetária nos Estados Unidos, que já sinalizaram que tendem a ser mais agressivos nos juros. Sendo assim, veremos a saída de capital de países emergentes. Naqueles que estão com dificuldades internas, como o Brasil, vemos um efeito assimétrico, com mais capital saindo, que é um pouco do que estamos vendo hoje, com taxa de câmbio acima de R$ 5,70 por conta desse receio. A tendência é esse câmbio pressionado.

No longo prazo, ao mesmo tempo em que se vê movimentos microeconômicos positivos, como o Marco Saneamento, é preciso ter uma estabilidade macro, porque quem vai fazer investimento precisa ter horizonte de crescimento, inflação baixa, de juros sob controle. É nesse lado de estabilidade macroeconômica que estamos tendo dificuldade nesse momento. Junto a isso, um elemento recente é a questão ambiental. Hoje, os investidores olham para as questões ESG dos países. Para o investidor que vem para ficar no longo prazo, a governança, o social e o meio ambiente não só da empresa em si, mas do país também são olhada. Não está favorável para o Brasil em curto e longo prazos. Precisaremos esperar 2023.

Essa quebra de reputação deve se estender pelos próximos anos, ainda que haja mudança de postura? 

De 2023 para frente, qualquer presidente que entre, se não for o Bolsonaro, precisará ter um esforço muito grande diplomático e de ações concretas na questão ambiental, com investimentos para lidar com tudo o que foi destruído.

Em economia, sabemos que reputação demora a ser construída, mas é fácil de ser destruída e para ser retomada não é simples. Essa questão se tornou um elemento central e não vai ser simplesmente uma troca de governo que vai ter essa situação resolvida.

Para o mercado, ainda há expectativas de que alguns itens da pauta econômica, como as privatizações dos Correios, realmente caminhem em 2022? Quais agendas seriam factíveis? 

Medidas muito sensíveis no ano eleitoral estão fora de cogitação. Privatização, por mais que se tenha um interesse geral, já perdeu o timing. O governo se perdeu na discussão da privatização, fez uma mal encaminhada com a Eletrobras e agora chega às vésperas da eleição, em que privatizar vira um tema complicado.

As outras reformas, como administrativa e tributária, nem se fala. Olhando para 2023 em diante, quem entrar deveria focar na reforma tributária. Ela está amadurecendo assim como aconteceu com a reforma da Previdência; essa discussão deveria ser o centro de qualquer presidente em 2023. Esse seria o caminho mais interessante, sem solavancos, sem trazer muitos riscos para a economia. O mercado gostaria. Vai acontecer? Duvido, mas é o sonho do economista.

No ano eleitoral, o que traz apreensões, considerando 2023? 

Pode haver uma bagunça muito grande sobre qual será a política econômica, sem clareza sobre o que será feito. Isso o mercado não gosta. O cenário é fazer política expansionista de gasto público para tentar estimular a economia. Essa sinalização vem também dos Estados Unidos, que estão fazendo grandes políticas fiscais. Hoje, na liderança, temos um Lula diferente de 2003. O cenário é muito mais pró-política fiscal agora, com uma dívida muito maior e déficit primário. São números muito ruins que esse presidente vai herdar; se, já em 2022, ele não fizer uma sinalização fiscal bem rigorosa, muito concreta, o mercado vai estressar.

Então faz sentido pensar que o mercado preferiria um eventual governo Lula mais parecido com os dos primeiros anos? 

Lula provavelmente irá fazer uma agenda social de dez anos de crise, mas precisa ter uma preocupação com uma economia geral, porque sem ela o social desmonta.

O Lula de 2003 tinha um pouco disso. Mas hoje temos um Congresso diferente. Aquele trabalhou em conjunto com vários projetos que foram aprovados naquele momento; não teve jogo contra na reforma da Previdência por exemplo, Isso não existe hoje, há uma polarização muito grande. Essa necessidade de ter convergências é muito complicada, pois são reformas mais complexas.

Há um Congresso muito mais senhor de si, que não trabalha para o Executivo. Ele quer também ser protagonista. Em um governo fraco, o Bolsonaro aceitou. Agora, imagine um presidente que se quer forte. O Lula vai se colocar nessa posição. O risco de ter choques é muito grande, e, por consequência, não conseguir avançar com pautas importantes e paralisar a economia.

Cenário eleitoral

Em todas as pesquisas de intenção de voto recentes, Lula lidera, seguido por Bolsonaro, e depois por Sergio Moro. Em algumas, a vitória de Lula aparece até em primeiro turno. Já se lida com esse cenário nas análises econômicas? 

O mercado ainda não precificou totalmente a vitória do Lula, porque ainda temos um presidente com o poder da caneta e que pode estar no segundo turno. Não sabemos exatamente como estará o cenário. Há um candidato novo, que é o Moro, que também disputa votos com Bolsonaro e o mercado espera ver como vai ser. Precisamos ver se o Moro tem espaço para subir mais e o Bolsonaro continuará em queda. Por isso o mercado ainda não assentou que o Lula ganhou e acabou.

A maior preocupação é que as condições políticas dos candidatos hoje são muito mais complicadas do antes, no sentido de ter lideranças que sentem para conversar e façam a boa política econômica funcionar. A gente não tem isso agora.

Além disso, Bolsonaro queimou uma agenda liberal e isso pode atrapalhar a vida do Moro também, que terá de ter o cuidado de fazer uma agenda social bem forte para tirar um pouco essa pecha de que é liberal. Essa questão está queimando todos os candidatos que se apeguem a essa agenda e facilitando a vida do Lula.

Uma eventual chapa de Lula com Geraldo Alckmin como candidato a vice-presidente traria mais confiança do mercado para uma política fiscal mais liberal? 

Tenho dificuldade de ver a vice-presidência como um papel relevante. Os vices têm papéis muito secundários, se lembrarmos do Marco Maciel, do José de Alencar e até do Hamilton Mourão [vices de Fernando Henrique Cardoso, Lula e Bolsonaro]. Especialmente no caso de um presidente tão forte como o Lula.

Com certeza Alckmin traz essa percepção mais de centro, mas há todo o entorno que vai dificultar isso acontecer. É um papel simbólico e de imagem. Do ponto de vista internacional, a imagem é de as forças democráticas do Brasil estarem se juntando para ir contra o Bolsonaro.

Em 2018, alguns agentes acreditaram na indicação de Bolsonaro de que manteria uma política econômica liberal. Isso ainda pode acontecer? 

No caso do Bolsonaro em 2018, houve uma certa ingenuidade do mercado de acreditar que um candidato a presidente que pensou e agiu daquela forma a vida inteira, especialmente do ponto de vista de política econômica, sempre foi contrário às boas práticas e reformas, mudaria uma chave e o poder iria adequá-lo. O poder não adequa, piora, que é o que está acontecendo.

Se eventualmente Bolsonaro continuar presidente, após todo esse tumulto, o papel do Congresso deve crescer ainda mais e pode caminhar para impeachment; Bolsonaro está numa decrescente. O grau de insegurança vai ser maior do que era com Bolsonaro em 2018 porque naquele momento achavam que ele poderia ser domado e a agenda parecia ser liberal.

Já Lula também terá dificuldades muito severas em ter confiança. Não sei se o mercado vai ter a ingenuidade de acreditar que a política econômica proposta por ele vai de fato acontecer.

Com Moro, se tem desconfiança sobre a dificuldade de governo, porque é o Congresso inteiro contra ele. A esquerda e a direita contra ele. Teria uma vida muito difícil e mais ainda porque ele é novato e enfrentará um Congresso hostil.