Mercado

Entrevista

‘Contas públicas são calcanhar de Aquiles do país’, diz economista-chefe do Ourinvest

Desgaste nas contas públicas deve manter baixa atração de investimento e taxa de câmbio depreciada em 2022

Contas públicas são 'calcanhar de Aquiles' do país, diz economista
Fernanda Consorte, economista-chefe do Banco Ourinvest / Crédito: Divulgação

Diante da ascensão dos gastos públicos em meio à pandemia de Covid-19, o mercado financeiro teme uma debandada na cena fiscal. O receio é de que, com o foco nas eleições gerais, o governo pode largar o freio em 2022 e deteriorar as já fragilizadas contas públicas brasileiras. Para Fernanda Consorte, economista-chefe do Banco Ourinvest, o país dá a largada neste ano novo com a perspectiva de baixa atração de investimento e manutenção de uma taxa de câmbio depreciada.

A política expansionista, explicou Consorte, alavanca a inflação e empurra todo o trabalho ao Banco Central, cuja parte sendo feita. A autoridade monetária elevou o ritmo do ciclo de altas da taxa básica de juros nas últimas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom) e disse que faria o necessário para encontrar a meta de inflação de 2022. Na avaliação da economista, a solução não está em deixar de lado os programas assistenciais, mas na construção de um plano de compromisso fiscal: gasta aqui e corta lá.

Existe uma luz no fim do túnel para encerrar o mal-estar: as eleições de 2022, em outubro. De acordo com a especialista, o país carece de investimento estrangeiro e, para recuperá-lo, o governo precisará de jogo de cintura para tratar de assuntos polêmicos, de responsabilidade fiscal e de uma cabeça antenada na pauta ESG. As eleições são o passaporte do Brasil para não seguir o caminho da Argentina.

Leia a entrevista com Fernanda Consorte:

Quais são as previsões para 2022, falando de cenário econômico e fiscal?

Por conta de um ano fiscal extremamente desgastado, a perspectiva de atração de investimento em 2022 deve ser baixa e, consequentemente, devemos continuar com uma taxa de câmbio bastante depreciada.

Temos visto movimentos agressivos do Banco Central, no Brasil, bem como sinalizações de aperto monetário na Europa e nos Estados Unidos. Na última ata do Copom, inclusive, o comitê disse que poderia elevar esse ritmo. Como a senhora enxerga o tom?

2022 é um ano eleitoral. O governo quer ser eleito, com a situação difícil dada a popularidade em baixa, e sabemos que virá um adversário de peso para Bolsonaro. Possivelmente, veremos o governo armado de medidas populistas, tal qual um aumento exagerado do Auxílio Brasil. Fica com o Banco Central realizar o trabalho sozinho. Ter uma taxa de juros mais alta é voltar a ter jabuticaba no Brasil. Acredito que a taxa Selic chegará perto de 12% já no primeiro trimestre deste ano. A partir desse momento, o Banco Central para e espera. O cenário é ruim para inflação e juros. E mais taxa de juros, menos crescimento econômico.

A senhora disse que hoje toda a carga fica com o Banco Central. É uma das indicações que os comunicados do Copom. Sabemos que a Selic é a principal ferramenta para controlar a inflação, mas não é a única. O que podemos fazer para tentar reduzir a alta de preços?

Política monetária ajuda, mas expansão fiscal é na veia, é assinar cheques e entregar. O primeiro instrumento para conter a expectativa tinha de ser uma política fiscal mais contida. Não estou falando que não se pode dar o Auxílio Brasil, não se deve ajudar os mais necessitados, é fazer cortes. Precisamos de uma expansão fiscal de tal forma que o Brasil ainda tenha um rating pelas agências de risco bom o suficiente para o gringo querer investir no país. Uma das grandes armas hoje para controlar a inflação seria via fiscal, por ser o principal gatilho para a inflação. O Banco Central ajudará, mas à custa de atividade econômica.

O Brasil está há quase uma década em crise. O país enfrenta um processo de “argentinização” ou existe uma luz no fim do túnel?

A Argentina está bem fragilizada. Ainda tem uma luz, porque temos eleições e uma chance de mudança. Estamos há muito tempo em crise, mas este governo colocou uma pazinha de cal na história, não só por conta da pandemia e das contas públicas — esse é um movimento mundial —, mas pela imagem Brasil. O governo atual causa um mal-estar institucional e, dado que somos um país emergente, precisamos de investimento estrangeiro. Não adianta virar e ignorar a situação. A esperança para não irmos a um cenário tão grave quanto o da Argentina é estarmos em ano de eleição.

Outro fato importante é que o mercado consumidor brasileiro, mesmo em um momento de crise, ainda é muito grande. O Brasil tem um papel de destaque no mercado consumidor mundial. Isso ameniza alguma coisa. A China precisa muito da gente por conta de commodity. Isso também suaviza o cenário de piora generalizada.

Embora não possamos cravar, as pesquisas colocam Lula à frente, com Jair Bolsonaro em segundo lugar e Sergio Moro em terceiro. O mercado já tem precificado isso? 

Há uma preferência do mercado, principalmente quando falamos de mercado financeiro, por uma terceira via, alguém mais de centro, daí, portanto, o nome de Sergio Moro. Mas penso ser difícil, porque não sabemos o que acontecerá nos próximos meses. A eventual aliança entre Alckmin e Lula aproxima o ex-presidente do centro. Isso pode melhorar a leitura de mercado, caso continue em primeiro. Por outro lado, quando conversamos com pessoas do governo, a sensação é de que o Bolsonaro está crente que conseguirá muitos votos a partir do auxílio emergencial. Não tem nada precificado.

Há o Auxílio Brasil de R$ 400 e articulações no Congresso para tentar pressionar o ministro Paulo Guedes para jogar esse valor a R$ 600. Sabemos que a rejeição ao governo está acima de 50%. Quais são os gargalos da área fiscal?

Onde não tem gargalo? A pressão está realmente muito forte. As contas públicas brasileiras são hoje o calcanhar de Aquiles do Brasil. É necessário um olhar atento a isso, que não haverá. No Congresso, estão espremendo o que dá para espremer para conseguir recursos para a eleição. Não é só o governo federal, também são os estados e os municípios. Os gargalos vêm de todos os lados.

Qual a análise do mercado em relação à PEC dos Precatórios? 

Foi de ruim para boa. Quando se falou na PEC dos Precatórios foi: “que absurdo, uma medida populista, vão querer fatiar a PEC dos Precatórios para sobrar dinheiro no teto e gastar com auxílio emergencial”. Chegou um momento que era o melhor a ser feito. Estava claro que o governo daria um all-in e ignoraria o teto de gastos. Hoje, o mercado entende que foi positivo, mas a análise fria é negativa.

Outras pautas do governo, como a reforma tributária, a reforma administrativa e a agenda de privatizações, vão avançar?

Não saem. As atenções e as energias do Congresso estarão voltadas à corrida eleitoral. Historicamente, anos de eleições não têm grandes aprovações, grandes reformas. Neste ano atípico, que terá uma corrida eleitoral difícil, teremos menos espaço ainda.

A reputação do Brasil está fragilizada. O que o novo governo tem de realizar para recuperar a credibilidade internacional? 

Primeiramente, pegar o fiscal pelo chifre e conseguir traçar um plano. Não mudaremos de uma hora para outra, mas traçar um plano de compromisso fiscal já ajuda. Não entrar em assuntos polêmicos, não dizer que não vacinará crianças, para não usar máscaras, não xingar esposas alheias. Isso dará uma controlada na temperatura. O terceiro ponto é uma preocupação com o meio ambiente. Um próximo governante que tiver uma preocupação adicional com isso será importante para o Brasil. Ficamos queimados com isso. Essa combinação deve favorecer a imagem do Brasil.