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‘Moro é símbolo de processo histórico’ no Brasil, diz Barroso

Ministro disse que demissão de Moro indica ‘arrefecimento do esforço de transformação do Brasil’

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Ministro Roberto Barroso durante sessão plenária do STF. Foto: Carlos Moura/SCO/STF

O ministro Luís Roberto Barroso disse, nesta sexta-feira (24/4), que a Operação Lava Jato e a luta contra a corrupção simbolizaram uma sociedade que deixou de aceitar o inaceitável, e que o ministro Sergio Moro “é o símbolo deste processo histórico”. Para o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e próximo presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), há um certo arrefecimento da luta contra a corrupção no país.

O ministro Sergio Moro anunciou sua saída do Ministério da Justiça há pouco, durante coletiva de imprensa. A demissão ocorre após Jair Bolsonaro (sem partido) exonerar Marcelo Valeixo do comando da Polícia Federal, contrariando Moro.

Antes da coletiva em que Moro anunciou sua demissão, Barroso disse que “o juiz Sergio Moro representou a face da Lava Jato”, uma operação que “transcendeu o fato de ser uma operação policial-judicial e passou a ser um símbolo, passou a ocupar um espaço no imaginário social brasileiro”.

“A Lava Jato significou uma mudança de paradigma e mobilizou uma sociedade que deixou de aceitar o inaceitável. E há pessoas que gostam mais e há pessoas que gostam menos do ministro Sergio Moro, mas o fato é que ele é o símbolo deste processo histórico. E, portanto, eu acho que isso revela, como fatos já vinham revelando, um certo arrefecimento desse esforço de transformação do Brasil”, disse Barroso, em live realizada pela XP Investimentos nesta sexta. 

Porém, para Barroso, o Brasil já mudou sua relação com a corrupção, mesmo com a saída de Moro do governo. Disse que, mesmo com decisões recentes do Supremo Tribunal Federal – das quais o ministro discorda – que criaram limites para os processos realizados no âmbito da operação Lava Jato, “a sociedade já não aceita mais”.

“Já não é mais tão fácil acontecer de novo o que aconteceu na Petrobras, o que aconteceu no Rio de Janeiro, já não é mais tão fácil agentes públicos nos mais altos cargos venderem atos normativos. Já não é mais fácil acontecer de novo o que aconteceu nos fundos de pensão. Eu acho que, a despeito de decisões das quais eu discordo e de movimentos políticos imediatos que parecem ir na direção contrária, esse gênio não voltará para a garrafa. De modo que qualquer coisa que enfraqueça esse processo histórico de transformação, eu acharei ruim. Mas acho que a história seguirá o seu curso independentemente de A ou de B”, concluiu o ministro do STF.

Em relação a participação do presidente Jair Bolsonaro em atos que pediam o fechamento do Congresso e do STF no último domingo, Barroso disse que não gostaria de se manifestar. Entretanto, disse que manifestações como estas são uma ameaça para as instituições, ainda que não acredite que haja risco de golpe militar no Brasil atualmente. 

“Só pode desejar a volta do regime militar quem perdeu a esperança no futuro e tem saudades de um passado que não existiu. Ditaduras vêm com violência contra os adversário,s com censura, com intolerância e ainda quando possam produzir resultados imediatos e positivos, no médio e longo prazo são um fiasco. Mesmo o período do milagre econômico, hoje em dia economistas sérios e competentes já tem feito uma revisão da história para dizer que tampouco isso aconteceu”, disse Barroso.

E continuou: “nós superamos, no Brasil, felizmente, em uma geração, os ciclos do atraso. De modo que eu acho que não há risco de golpe, eu acho que não há risco desse retrocesso Porque nesse episódio de domingo, como no anterior, de invocação do AI-5, a reação da sociedade, a reação dos partidos políticos de um lado a outro do aspecto político, a reação da da imprensa, a reação geral de indignação das pessoas demonstraram o vigor da democracia brasileira. Embora eu detecte insuficiências democráticas em alguns espaços da vida brasileira, a verdade é que o Legislativo tem atuado com independência e altivez, o Supremo e o Judiciário em geral têm atuado com independência e altivez, e verdade seja dita, as decisões do legislativo e Judiciário têm sido cumpridas pelo Poder Executivo. Portanto, assim é uma democracia”.


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