Regulação e Novas Tecnologias

Regulação e novas tecnologias

O Super Bowl 2020 e a ascensão dos veículos elétricos

Temos um mercado incipiente, mas que representa indubitavelmente o futuro da indústria automotiva

JLo e Shakira – Foto: Reprodução/NFL

O Super Bowl LIV foi um grande espetáculo dentro e fora dos campos. O desempenho excepcional do QB Patrick Mahomes levou o Kansas City Chiefs à uma vitória inesperada, naquela que foi a segunda maior virada da história do Super Bowl e deu ao Kansas City Chiefs seu primeiro título em 50 anos[1].

No intervalo do Super Bowl, fomos agraciados com um show histórico, reconhecendo o brilho e talento de duas das mais celebradas artistas latinas: Shakira e J. Lo. Uma apresentação que trouxe algumas das mais novas estrelas latinas ao proscênio de uma audiência global, conjugado com o momento de ternura do dueto J. Lo e Emme, sua filha de 11 anos[2].

Mas para além da soberba performance esportiva que foi apresentada e de um show com grande representatividade da comunidade latina nos Estados Unidos, para aqueles interessados nos desafios e oportunidades decorrentes da eletrificação da frota de automóveis, houve mais um motivo para o Super Bowl LIV ser considerado histórico: o numero sem precedentes de comerciais de veículos elétricos no horário mais nobre da televisão mundial.

O fato de 4 dos 9 carros anunciados nos intervalos do Super Bowl serem elétricos chama a atenção por 2 motivos principais: o primeiro é o fato de que os veículos elétricos representam apenas 2% dos 17 milhões de automóveis vendidos anualmente nos Estados Unidos enquanto, globalmente, já há o estabelecimento de limites temporais para a venda de veículos a combustão, variando de 2025  a 2050[3][4].

Assim, o que se percebe nitidamente é que temos um mercado incipiente, com vendas globais no ano de aproximadamente 2 milhões de unidades, vendidas principalmente na China, Europa e Estados Unidos[5], mas que representa indubitavelmente o futuro da indústria automotiva.

A definir quem serão as empresas vencedoras desta mudança paradigmática de tecnologia, visto que companhias europeias, coreanas, japonesas e norte-americanas ainda possuem poucos modelos populares. Enquanto isso, as companhias chinesas foram responsáveis pela venda de aproximadamente 45% de todos os veículos elétricos vendidos no mundo em 2017[6].

Isto porque, sendo muito mais simples a fabricação de um carro elétrico quando comparado com aqueles dotados de motor a combustão, sobretudo pelo fato de o motor dos carros elétricos (powertrains) serem desprovidos de peças móveis e necessidade de lubrificação, houve uma verdadeira proliferação de novos entrantes, desde a Tesla, Riviam, Kreisel Electric,  AVL List GmbH[7], até a companhia austríaca Obrist Powertrain, que transforma Teslas em veículos híbridos[8][9].

Já apontamos em artigos pretéritos aqui mesmo no JOTA os inúmeros benefícios socioambientais que a introdução maciça de veículos elétricos em substituição aos veículos a combustão traria para a redução da poluição atmosférica e sonora, tendo reflexos positivos sobre a saúde da população, sobretudo idosos  e crianças, mais vulneráveis à poluição.

No entanto, adicionalmente aos benefícios socioambientais apontados, há um ponto focal que tem sido flagrantemente desconsiderado na formulação das políticas públicas brasileiras: a indústria automobilística está inexoravelmente se movendo para a abolição dos motores a combustão.

Como resultado, a inserção brasileira na cadeia global de fabricantes de automóveis (indústria que hoje representa cerca de 22% do PIB industrial brasileiro[10]) e objetivo expresso de políticas públicas como o Rota 2030 está extremamente ameaçada[11].

Isto porque, diante da crescente demanda por automóveis elétricos, ainda pouco representativa no total de veículos vendidos, países como a República Tcheca e Eslováquia, grandes exportadores de automóveis com motores a combustão, reconhecem que a demanda progressiva de veículos elétricos representa um risco existencial para a indústria local, sobretudo tendo em visto que um veículo elétrico necessita de uma fração das 2.000 peças utilizadas num motor a combustão[12].

Logo, haverá menor necessidade de fornecedores de autopeças para a fabricação de veículos elétricos, o que tem a capacidade de provocar um grande desarranjo na economia da República Tcheca e da Eslováquia, os maiores fabricantes de automóveis em termos per capita do planeta.

No caso brasileiro, ainda que os efeitos sejam menos dramáticos, a falta de políticas públicas que decididamente estimulem a adoção maciça dos veículos e ônibus elétricos representa tanto a perda de uma janela de oportunidade única, na qual uma indústria consolidada está aberta a novos entrantes depois de décadas (como bem demonstra a Tesla), enquanto o atraso tecnológico impedirá a exportação de automóveis e autopeças para outros mercados relevantes, cada vez compromissados com a proibição da venda de veículos a combustão num horizonte entre 2025 e 2040.

 


[1] Disponível em: https://www.espn.com.br/nfl/artigo/_/id/6597197/mahomes-conduz-virada-historica-chiefs-vencem-49ers-e-ganham-o-super-bowl-apos-50-anos Acesso em: 04 fev. 2020

[2] Para ver o show do intervalo: https://youtu.be/pILCn6VO_RU Acesso em: 04 fev. 2020

[3]Disponível em: https://www.forbes.com/sites/oliverwyman/2018/03/27/automakers-need-a-global-timetable-for-phasing-out-internal-combustion-engines/#67155a9223c3 Acesso em: 04 fev. 2020

[4] Disponível em: https://www.cfr.org/blog/fossil-fuel-free-plan-phase-out-chinas-icevs Acesso em: 04 fev. 2020

[5] IEA (2019), “Global EV Outlook 2019”, IEA, Paris. Disponível em: https://www.iea.org/reports/global-ev-outlook-2019 Acesso em: 04 fev. 2020

[6] Disponível em https://www.forbes.com/sites/oliverwyman/2018/03/27/automakers-need-a-global-timetable-for-phasing-out-internal-combustion-engines/#67155a9223c3 Acesso em: 04 fev. 2020

[7] Disponível em: https://www.avl.com/company-content?assetentryid=13592758&categoryid=12862637 Acesso em: 05 fev. 2020

[8] Disponível em: https://www.electrive.com/2020/01/07/austrian-hybrid-tesla-for-the-masses/ Acesso em: 04 fev. 2020

[9] Disponível em: https://www.electricmobilityeurope.eu/wp-content/uploads/2018/10/E-Mobility_Folder_2017-18_v3.pdf Acesso em: 04 fev. 2020

[10] Disponível em: http://www.mdic.gov.br/index.php/competitividade-industrial/setor-automotivo Acesso em: 04 fev. 2020

[11] Disponível em: http://www.mdic.gov.br/index.php/competitividade-industrial/setor-automotivo/rota2030 Acesso em: 04 fev. 2020

[12] Disponível em: https://www.businesslive.co.za/bd/world/europe/2019-11-29-czech-car-industry-readies-for-an-electric-future/ Acesso em: 06 fev. 2020


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